‘Noites Brancas’ e a São Petersburgo de Dostoiévski: quando a literatura divide o espírito com uma cidade

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A cidade russa de São Petersburgo nunca foi apenas um cenário para o escritor Fiódor Dostoiévski. O autor deu vida às ruas e canais de tal forma que ela se tornou um personagem vivo em sua literatura. Entre ruas, canais e madrugadas iluminadas, São Petersburgo revela como inspirou Fiódor Dostoiévski. No pico do verão russo, durante o fenômeno das Noites Brancas, quando o sol quase não se põe, a fronteira entre realidade e imaginação se dissolve.

É este cenário de São Petersburgo que Dostoiévski ajudou a moldar com a sua obra. Mas esse universo não ficou restrito às páginas, tendo uma presença viva nas ruas. Uma das tradições impregnadas no trato que existe em relação à memória histórica e cultural na Rússia é a prática de identificar com placas nos prédios um acontecimento histórico marcante daquele local, ou a personalidade que viveu ali, produziu determinada obra ali, etc.

No caso de Dostoiévski, sua presença em São Petersburgo ganha uma outra escala. Como o escritor russo deu vida aos seus personagens em endereços reais da cidade, em muitos pontos, a fronteira entre vida e literatura praticamente desaparece.

Passeando pela cidade, qualquer pedestre pode dar de cara com um prédio de esquina, por exemplo, que registra: “Nesta casa, entre os anos 1864-1867, morou Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. Aqui foi escrito o romance ‘Crime e Castigo’”. Alguns metros adiante, outra inscrição indica o endereço fictício de Rodion Raskólnikov, o protagonista deste clássico da literatura russa.

As inscrições explicitam como a obra de Dostoievski ficou impregnada na cidade. “As trágicas histórias de vida das pessoas desta região de São Petersburgo serviram a Fiódor Dostoiévski como base para sua apaixonada pregação do bem para toda a humanidade”, diz o texto no edifício.

Neste prédio, localizado na Travessa Stolyarny, nº 5, no coração do centro de São Petersburgo, Dostoiévski descreve que Raskólnikov tinha que descer exatamente 13 degraus do quarto até a entrada do prédio. A escada com os números exatos de degraus segue intacta no mesmo local. Além disso, o personagem caminha exatamente 730 passos de sua casa até a residência da agiota Aliona Ivanovna, descrita por Dostoiévski como uma “caminhada claustrofóbica”, na qual ele comete o crime que desenlaça a trama do romance.

E, assim em diante, os inúmeros endereços e referências que vão aparecendo em seus romances não só ilustraram geograficamente alguns territórios reais em sua obra, mas ajudaram a pintar a atmosfera da cidade, que percorreu boa parte de sua bibliografia como um personagem à parte.

Em entrevista ao Brasil de Fatoo filósofo e coautor do projeto “Filosofia e Arte”, Luame Cerqueira, destaca que um dos trunfos da literatura de Dostoiévski é explorar aspectos da cidade não óbvios, que vão além de uma contemplação “turística” no que diz respeito à percepção do leitor. É o que Luame Cerqueira chama de “parte aberta” de uma cidade, que se entrelaça não com o que já está constituído, mas com uma espécie de “mistério, aventura, o desconhecido que mora em nós”.

“A parte fechada da cidade, que é o clichê, o cartão-postal, é o perceptível demais. Mas teria também uma parte aberta das cidades, que seriam essas condições que talvez permitissem que a gente pudesse delirar, sonhar. Então, aí seria uma maneira forte de pensar São Petersburgo. Que lugar é esse? Que potencialidade teria essa cidade? Mas quantas névoas ela abarca para que a gente consiga justamente criar junto com ela? Ela sendo protagonista, ela passar por nós”, afirma.

‘Noites Brancas’: uma faceta mais delicada de Dostoiévski

Mas, se em “Crime e Castigo”, a cidade possui um aspecto mais soturno e remete a inúmeras complexidades psicológicas, em “Noites Brancas” Dostoiévski revela uma face mais delicada. Em maio, com a chegada da primavera, São Petersburgo muda de ritmo. As noites encurtam e a luz se prolonga no fenômeno que dá nome ao livro.

Nesse contexto onírico, o protagonista de “Noites Brancas” é uma espécie de andarilho em sua própria cidade, possuindo uma relação íntima com suas ruas e esquinas, e, ao mesmo tempo, sendo um estrangeiro. O filósofo Luame Cerqueira identifica uma espécie de ambiguidade explorada pelo escritor russo.

“É que a gente acompanha a história desse protagonista, que está meio fora do tempo. Ele não se encaixa naquela sociedade, naquela nação, naquela Petersburgo funcional, digamos assim. Não conhece quase ninguém. É um solitário, e começa vagando por ali. E tem uma coisa bonita logo de saída: ele fala que das pessoas que você conhece, tem vários níveis de conhecimento. Pode conhecer alguém, saber o nome dela e tal, e tem pessoas que você não conhece, mas você convive com elas, que é o caso dele. Ele transita naquelas ruas de São Petersburgo e faz certos trajetos. E ele conhece certas pessoas pelo olhar. Mas não são amigos, não se conhecem profundamente nem nada”, conta.

É em uma dessas caminhadas sem destino que o protagonista encontra uma jovem à beira do rio. Um encontro que mistura romance e ilusão sob o céu irreal das noites brancas. Luame Cerqueira analisa como Dostoiévski transforma esse desencontro amoroso em algo maior.

“Quando justamente a noite perde sua característica mais orgânica, que seria a escuridão. É esse momento em que o sol não se põe totalmente, e parece que a Terra está em delírio, parece que é uma suspensão desse mundo funcional. Isso parece ser legal porque entra em ressonância com a própria história dele. Ele é um homem que trabalha, está na pensão dele, acorda cedo para ir ao trabalho, mas vive aquelas noites brancas e, naquelas noites brancas, ele entra em simpatia com esse fenômeno na medida em que ele se apaixona. Parece que a própria alma dele entra nessas noites brancas. As noites não servem mais para dormir; as noites não são mais tão óbvias. Ele participa desse delírio. A terra delirando com ele. Isso é muito legal, porque eu acho que tem uma ressonância do mundo com o próprio espírito dele. Os dois deliraram juntos”, explica o filósofo.

Nesta obra, o encontro de dois dos personagens é, ao mesmo tempo, um desencontro no sentido mais comum do sentido amoroso. Há um apaixonamento do personagem principal pela moça que não é correspondido.

“Ou seja, ele se apaixona por essa mulher, que é a coisa mais terrível do mundo. Não simplesmente ela não nota ele. É pior ainda: ela está apaixonada por outro homem. Eles acabam ficando amigos, e ela vai conversando com ele, desabafando, e ele ajudando-a. Mas ele está totalmente apaixonado por ela. E ela se torna cúmplice desse amor. E eles estão totalmente distantes um do outro”, complementa Luame Cerqueira.

Ficção e realidade em uma cidade

A relação do autor com a cidade também passava por uma exigência peculiar: ele fazia questão de morar em apartamentos de esquina com vista para o centro histórico e que fosse possível enxergar a cúpula de alguma igreja ortodoxa. Em uma das casas em que ele morou, ao lado da estação de metrô que atualmente leva o seu nome, foi montado um museu em sua homenagem. Ao redor, na mesma região, são notórios outros três endereços onde ele já morou. Três esquinas. Todos os apartamentos com vista para a igreja ortodoxa local.

Em “Noites Brancas”, esse ponto de vista ganha forma no próprio narrador. Um personagem que não apenas caminha pela cidade, mas observa as pessoas, os gestos e as atmosferas com uma atenção quase sonhadora, capaz de suspender o tempo e a realidade ao redor. O filósofo Luame Cerqueira identifica esse traço “sonhador” do personagem como uma “porosidade dele conseguir, justamente, capturar certas linhas vitais que outras pessoas não capturam”.

“Ele está aberto para passear pelas cidades. É isso justamente ser uma aventura, ou seja, passear por São Petersburgo e você não ser um turista, porque o realista sempre vai ser um turista, ele está fadado a ser um turista. Já esse princípio do sonhador, eu acho que é justamente a gente andar com a nossa parte aberta, de você conseguir se compor com coisas, com o impossível. Então ele tem essa abertura para o impossível e ele sabe valorar as coisas”, descreve.

“Casos assim, em que a vida parece muito rápida, um efêmero que aparece muito rápido, mas ela aparece com uma força tão grande que ela quebra esse tempo do relógio, né? E aquilo já tem uma vivência tão grande, tão enorme, que, ‘caramba, eu já vivi tudo que eu tinha para viver naquele momento’”, completa o filósofo, referindo-se a uma emblemática citação de “Noites Brancas”.

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