Rincon Sapiência lança ‘Um Corpo Preto’ e rejeita papel de herói: ‘É meu ponto de vista individual’

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Rapper, compositor, produtor e roteirista, Rincon Sapiência lança seu novo álbum, “Um Corpo Preto”, sete anos após o lançamento do anterior, “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”, de 2019. O artista afirma que o tempo que levou entre os dois trabalhos foi fundamental para refletir sobre os caminhos do seu trabalho e reprogramar algumas rotas.

“Eu já tinha o projeto do início do disco, em que parece que as músicas são juntas ali. Mas, em determinado momento, eu senti que eu precisava tensionar um pouco as coisas que eu estava falando, que estava tudo muito divertido. Falei: ‘Não, acho que eu preciso tensionar algumas ideias’. Aí isso levei sete anos, no final das contas”, conta em participação no Entrevista com BdF.

Rincon também avalia a sua trajetória de composições, como foi amadurecendo e compreendendo o lugar também de, musicalmente, fazer aquilo que tem sentido. “Quando eu identifiquei que o trabalho estava com esse teor racializado, eu identifiquei que não queria fazer um trabalho heroico, ser aquele cara que é o porta-voz da minha comunidade, do meu bairro, da comunidade preta, levar o que todo mundo quer dizer através da minha música e potencializar isso. Não! É o meu ponto de vista individual sobre as minhas demandas, sobre o que eu preciso fazer”, sintetiza.

O artista destaca que, no novo álbum, teve uma grande preocupação com a identidade visual e a coesão. “As boinas, os broches de guerra, de confronto. Isso já me dá norte para criar um monte de coisa, de identidade visual, de roupa, de audiovisual”, explica. “Não é o que as pessoas têm focado prioritariamente, mas, para mim, a construção artística é muito necessária. Ter um álbum, não só esse que eu lancei, como outros também, porque isso vai desenhando a minha obra e a história que eu quero fazer como artista”, afirma.

Rincon Sapiência também fala sobre a pressão sobre posicionamentos dos artistas negros. “Um determinado artista que não seja preto faz o trabalho dele. Aí está acontecendo a guerra no Iraque, um monte de coisa lá, e as pessoas vão trazer uma atenção ao que ele fez, se ele usou um violão assim, se ele se influenciou pela música dos anos 1980, que seja, vão trazer a leitura. Para nós, sempre tem uma cobrança: ‘Caramba, você é um negão da periferia, você não está falando de tal coisa’. Então eu sinto mais essa coisa de uma expectativa que às vezes destoa do que a gente tem de fato para fazer e para entregar”, explica. “Mas eu acho que o que mais me pegou foi eu mesmo querer fazer um bagulho que chama atenção. Eu acho que eu queria fazer isso, de fato, e fiz”, defende.

Na conversa, o artista também falou sobre política e comentou sobre o fim da escala 6×1, que considera um projeto urgente de ser aprovado. “Me surpreendeu as pessoas trazerem essa problemática e levarem a esse nível. Quem está nesse lance de call center, por exemplo, é muito louco. Eu que trabalhei nessa área, é um trabalho digno, é um trabalho em que eu vi muita gente crescer, virar supervisor e muita gente boa com comunicação, com atendimento, com vendas, que seja. É um trabalho da hora. Mas o que acontece é que esse lance da escala é horrível”, afirma Rincon Sapiência.

Para ouvir e assistir

Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

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