Audiências públicas sobre taxas de Trump mostram que nem empresas dos EUA concordam com a medida

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Após o primeiro dia de audiências públicas na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington, a respeito da taxação sobre produtos brasileiros, empresários e economistas brasileiros concluíram que até técnicos estadunidenses compreendem não haver motivos plausíveis para as novas tarifas, que chegariam a 25%. Além disso, apontaram que, caso o presidente Donald Trump insista na medida, será uma decisão de caráter político.

Em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de FatoGilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que as audiências são uma formalidade do órgão estadunidense responsável por coordenar as relações comerciais dos EUA com pelo menos 60 países, que indicou em março desse ano uma suposta necessidade de taxação sobre o Brasil, alegando desequilíbrio.

Maringoni diferencia as tarifas que estão sendo discutidas agora do tarifaço anunciado no primeiro semestre do ano passado. “Esse tipo de tarifa do ano passado contra vários países e contra o Brasil, a partir de agosto, tinha muito mais o caráter de arma política. Era uma forma de constranger e chantagear países. Em fevereiro, a Suprema Corte proibiu esse tipo de manobra pelo seguinte motivo: qualquer iniciativa do governo Trump no terreno internacional tem que passar pelo Congresso”, explica, acrescentando, portanto, que o episódio do ano passado foi superado.

O professor destaca que, agora, a taxação assume contornos de interferência que os EUA estão tentando fazer especificamente no processo eleitoral brasileiro. “Teremos eleições daqui a três meses e, nesse tempo, muita coisa pode acontecer. Temos nas nossas pesquisas eleitorais uma espécie de congelamento nas intenções de voto. O Lula ficou no patamar de 45% e o Flávio Bolsonaro, após o escândalo, está na casa de 36% e não voltou a subir. Ele estava quase empatado com Lula e desabou depois da revelação do financiamento do filme ‘Dark Horse’. Ele então está tentando de tudo. Essa investida dos EUA é para isso”, define.

No aspecto econômico, o economista Paulo Kliass destaca o rechaço de grandes empresas estadunidenses — como eBay, Nestlé, Coca-Cola e até a Tesla de Elon Musk — à intenção de Trump de tarifar os produtos brasileiros por uma razão muito simples: se isso acontecer, a operação de cada um deles vai ser impactada. Kliass cita outros setores severamente impactados por tarifas de importação.

“Trump criou um problema primeiro com os importadores e, em segundo lugar, com ele mesmo, porque a boa parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos entra em áreas e setores estratégicos do ponto de vista da própria inflação no mercado estadunidense. Então, você tem o caso das carnes, você tem o caso do café e até dos minerais. O que aconteceu foi um fracasso e ele recuou”, lembra.

O economista destaca que as decisões de Trump, apesar do caráter político, têm impactos econômicos. “As empresas que importam do Brasil percebem que elas vão ter que ou buscar novos parceiros, mas muitas vezes não têm, ou então aumentar em 25% os preços para os seus consumidores finais ou para os consumidores intermediários de matéria-prima”, destaca.

Paulo Kliass também avalia que o perfil volátil de Trump explica por que o encontro diplomático com Lula foi tão positivo e, pouco tempo depois, ele se voltou contra o atual governo e passou a apoiar de forma explícita o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “O cara (Trump) sabe muito bem que tipo de interesse ele defende nos Estados Unidos e no resto do mundo. Tanto que ele apoia Bolsonaro. No entorno dele, tem gente muito interessada em aprofundar essa hostilidade diplomática com o Brasil. E agora o que aconteceu foi isso”, avalia.

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