‘Solos têm que ser causa nacional’: o balanço de quem participou da Escola de Bioinsumos na China

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“Os solos dos nossos países têm que ser entendidos como uma causa nacional”. É uma das conclusões do professor e dirigente cooperativista argentino Hernán Cuevas Gómez sobre o final da sexta edição da Escola Internacional de Bioinsumos em Suzhou, na China.

Dirigente do movimento camponês Federação Rural para a Produção e o Enraizamento, Hernán conta que o programa ajuda “a entender a produção de bioinsumos e compostagem acelerada como uma questão de soberania nacional”.

Sob o nome de Programa Internacional de Capacitação em Gestão Sustentável e Tecnologia de Compostagem Acelerada de Resíduos Orgânicos, esta edição da escola foi organizada pela Universidade Agrícola da China (UAC) em parceria com a Baobab, a Associação Internacional para Cooperação Popular, e a Beijing VOTO Biotech, com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia da China.

Depois de duas semanas de formação em gestão de resíduos orgânicos, da compostagem acelerada aos fertilizantes organominerais, representantes de países da Ásia, da África e da América Latina e Caribe destacaram tanto o aprendizado sobre as tecnologias de compostagem e a experiência chinesa quanto as trocas entre os participantes dos diferentes países.

A conclusão sobre a importância do cuidado com a terra esteve em diferentes respostas dadas ao Brasil de Fato. A professora Sabrina Naz, da Universidade de Rajshahi, em Bangladesh, afirmou que “a principal lição” que leva do curso na China é a de que “a agricultura deve ter como foco a manutenção da saúde do solo”.

“Se conseguirmos preservá-lo, a produção de alimentos certamente aumentará e a qualidade dos produtos será garantida”, concluiu Naz.

A qualidade do solo é também uma preocupação para Jamila El Abboudi, doutoranda na Universidade Abdelmalek Essaâdi, em Marrocos, e integrante da Baobab. El Abboudi lamenta que o solo de seu país está empobrecido por décadas de agricultura convencional e de monoculturas organizadas para satisfazer o mercado europeu, algo que também esgota os recursos hídricos de seu país. Para ela, a agroecologia já não é uma escolha, mas uma necessidade para garantir a soberania alimentar do povo marroquino e “reviver o nosso solo”.

Responsável por um dia inteiro de aulas sobre o estado da tecnologia de compostagem na China, o professor Li Ji e sua equipe da Universidade Agrícola da China (UAC) trabalham nessa recuperação há quase três décadas: nos testes de campo e nas unidades de demonstração que o Instituto de Pesquisa de Reciclagem Orgânica de Suzhou desenvolve pelo país sob sua direção, servem para comprovar aos camponeses o efeito dos fertilizantes orgânicos sobre a fertilidade da terra e reduzir gradualmente a dependência de químicos e agrotóxicos. “Agricultura ecológica, solos saudáveis, comida segura e nutritiva e, no fim, melhor saúde humana”, diz ele sobre o objetivo final da reciclagem orgânica.

O curso em Suzhou

A edição chinesa é a sexta de um projeto que a Baobab iniciou em 2023, com escolas já realizadas na Argentina, Nepal, Brasil, Tanzânia e México. Somadas, as seis edições reuniram mais de 300 participantes, de cerca de 80 instituições de uns 30 países do Sul Global, segundo Paula Veliz, da equipe técnica de bioinsumos da organização. As escolas combinam formação técnica em uma tecnologia considerada estratégica para a consolidação da agroecologia, sistematização das experiências que os movimentos populares já aplicam em seus territórios e desenvolvimento de suas capacidades políticas e organizativas.

Os bioinsumos que dão nome à escola são os fertilizantes orgânicos, inoculantes microbianos, compostos e outros insumos obtidos de processos biológicos, que agem na fertilidade do solo e na nutrição das plantas. Para Caroline Gomide, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e co-coordenadora desta edição e de outras edições da escola, eles têm papel central na massificação da agroecologia justamente por isso: garantem a fertilidade dos solos e a disponibilidade de nutrientes para produzir comida saudável e nutritiva.

Entre 15 e 30 de junho, na Escola de Revitalização Rural de Suzhou, os mais de 30 participantes do programa cumpriram 13 dias letivos de aulas teóricas e práticas sobre compostagem acelerada, tratamento anaeróbio, desenvolvimento de inoculantes microbianos e uso de remineralizadores, com prática em um reator de compostagem de 80 litros. A equipe da universidade anfitriã dedicada ao aproveitamento de resíduos orgânicos está entre as líderes mundiais em publicações e patentes na área, segundo o co-coordenador da escola, professor Xu Ting.

A escola incluiu diversas visitas técnicas, como a unidade demonstrativa de tratamento de resíduos orgânicos e a fazenda ecológica de Lin Hu, no distrito da própria anfitriã, e outras fazendas na região de Suzhou. Os participantes também conheceram uma planta de compostagem por membrana em Taicang, onde as pilhas de resíduo ficam cobertas por uma manta semipermeável, que retém odor e umidade e acelera a decomposição; um sistema de leiras na ilha de Chongming, em Xangai (que são fileiras de material revolvidas mecanicamente para arejar o processo); e a unidade de tratamento de resíduos urbanos de Suzhou, que opera por incineração.

Mariana Fontanetti Marinheiro, coordenadora na Secretaria de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), destacou o formato ampliado desta edição. “Houve uma interação muito grande entre diferentes representantes, seja de governo, de universidades, de empresas. Isso trouxe ideias novas, que a gente vai poder levar para os nossos países, para as nossas próprias realidades”, avaliou.

Ao lembrar que 2026 foi declarado pela Assembleia Geral da ONU o Ano Internacional da Agricultora, Sabrina Naz agradeceu às organizações pela grande participação feminina na escola. “Na maioria dos casos, os homens dominam, mas aqui as mulheres vieram de seus países com suas próprias experiências. Elas souberam apontar os problemas e os fatores promissores da agricultura de seus países”, disse. “Todas nós, mulheres de diferentes profissões, participamos deste treinamento porque temos paixão pela agricultura”.

Dependência, Estado e controle popular

Desde o fim de fevereiro de 2026, com a interrupção das exportações via Estreito de Ormuz em meio à agressão militar não provocada pelos Estados Unidos e Israel ao Irã, cerca de 3,9 milhões de toneladas de fertilizantes deixaram de ser exportadas pelos países do Golfo, responsáveis por aproximadamente um terço das exportações globais de ureia (entre 30% e 35%, segundo estimativas da FAO). O preço internacional da ureia subiu cerca de 40% no primeiro mês da crise, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (IFPRI), dos Estados Unidos; no Brasil, a ureia encareceu cerca de 35% nas duas primeiras semanas, segundo a consultoria StoneX. É a segunda onda em poucos anos: entre 2020 e 2022, a pandemia e o conflito na Ucrânia já haviam mais que dobrado os preços internacionais dos fertilizantes.

Para Li Ji, isso demonstra a importância estratégica de os países do Sul Global desenvolverem de forma soberana a produção de seus próprios insumos, incluindo os fertilizantes orgânicos.

O curso parte da premissa de que a resposta está disponível localmente. “Esse ‘resíduo’ não é resíduo de fato: é um recurso mal colocado. Se não for utilizado, além de poluir o meio ambiente, representa um grande desperdício de recursos”, resume Xu Ting.

Naz fala sobre o cenário em seu país: “Como produzimos apenas 25% do fertilizante inorgânico que usamos nos nossos campos, importamos os outros 75%. Somos dependentes dos países que produzem esse fertilizante”. Com a alta dos preços, o custo chegou ao alimento e ao agricultor, enquanto o solo do país, um dos mais férteis do mundo, perde saúde a cada safra: no norte de Bangladesh, relatou a professora, há camponeses transformando campos de cultivo em tanques de piscicultura porque plantar deixou de compensar.

A soberania alimentar possui grandes desafios em Marrocos, conta Jamila. “Todo o setor agrícola é controlado pelas grandes empresas, e as práticas que elas impõem servem para responder às necessidades do mercado internacional, não às do mercado local. Toda a produção é exportada para atender às necessidades do mercado europeu”, afirmou El Abboudi. “Elas exploram o solo, os nossos recursos, até a água”.

A China anfitriã começou a fazer o caminho inverso nos últimos anos. O país foi por muito tempo o maior consumidor mundial de fertilizantes químicos e pagou por isso com degradação do solo e contaminação difusa. Xu Ting lembra como o governo e a população reconheceram que a terra havia sido danificada. Em 2015, o Ministério da Agricultura estabeleceu a meta de crescimento zero no uso de fertilizantes químicos e, a partir de 2017, lançou ações de substituição por orgânicos nas cadeias de frutas, hortaliças e chá, com subsídios que chegaram a 400 yuans (cerca de R$ 300) por tonelada em regiões-piloto. A meta de longo prazo é o equilíbrio de 50% entre químicos e orgânicos, proporção em que já operam países europeus.

Xu Ting acompanhou o processo por dentro. “No início, os agricultores não eram muito receptivos à mudança. Mas, gradualmente, de um lado o governo ofereceu subsídios, e de outro nós, cientistas, promovemos e demonstramos continuamente essas tecnologias. Acredito que em dez, talvez vinte anos, vamos alcançar essa meta”, afirmou.

Para levar a experiência ao restante do Sul Global, Li Ji faz três sugestões: cooperação entre instituições de pesquisa e empresas que fabriquem equipamentos, com instalações de unidades demonstrativas e políticas de governo.

Ele acredita que os avanços são mais necessários nas últimas duas. A maioria dos países, segundo afirma, não tem fabricantes locais de equipamentos de compostagem nem mercado estabelecido para os fertilizantes orgânicos. “Os governos precisam implementar políticas de incentivo, comunicando com clareza aos agricultores por que eles deveriam usar fertilizantes orgânicos e quais benefícios ganham com isso. Isso inclui testes de campo e demonstrações nas propriedades, para que os agricultores reconheçam o valor dos fertilizantes orgânicos na melhoria da fertilidade do solo”, defendeu o professor.

Na Argentina, Cuevas Gómez lista o que o país já tem: resíduos orgânicos em abundância, empresas de energia como a YPF (que é de maioria estatal) e instituições científicas, como o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET, na sigla em espanhol) e o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA). Para Hernán, falta apenas vontade política. “Temos que começar a discutir a questão do investimento e do subsídio à produção de biofertilizantes: de que maneira o nosso Estado, junto com o setor privado, vai promover o investimento e o estímulo a essa produção”, cobrou.

O mercado já percebeu a demanda. “Mesmo representando uma porcentagem muito pequena do mercado de insumos agrícolas, em torno de 3% a 5%, os bioinsumos são o segmento que cresce de forma mais exponencial. O aumento da demanda é de cerca de 15% ao ano”, calculou Veliz. Diante do interesse do agronegócio, os movimentos populares presentes na escola insistem em que a tecnologia não repita a trajetória das sementes, privatizadas e empacotadas pelo capital.

“Os fertilizantes orgânicos têm que ser um aliado estratégico dos pequenos produtores. Isso é um negócio, mas não podemos gerar outro tipo de negócio que termine criando mais dependência ou grandes dívidas para quem produz os nossos alimentos”, afirmou Cuevas Gómez.

Na mesma linha, El Abboudi diz que “são os pequenos agricultores que vão garantir a soberania alimentar para os nossos países”. No Marrocos, o movimento agroecológico que ela integra organizou recentemente a primeira conferência nacional de agroecologia do país, na Universidade Mohammed V, em Rabat, e articula 16 cooperativas agrícolas, a maioria delas de mulheres.

Bárbara Loureiro, coordenadora da Baobab no Brasil, defende que “a construção de uma rede de produção de bioinsumos de forma soberana, de forma autônoma, visa romper com a lógica de dependência”.

“Ter o direito de escolher como produzir o seu alimento e para quem produzir também passa por organizar essa produção dos bioinsumos”, diz.

Os passos sino-brasileiros

Em dezembro de 2024, foi sancionada a Lei 15.070, que criou o marco dos bioinsumos: regula produção, registro, comercialização e incentivos, e dispensa de registro os bioinsumos produzidos para consumo próprio na propriedade rural. Um ano e meio depois, porém, boa parte da lei ainda depende de regulamentação: o Ministério da Agricultura instituiu em abril de 2025 um grupo de trabalho para destravar as normas, e os principais instrumentos seguem pendentes. Antes da lei, o tema era tratado pelo Programa Nacional de Bioinsumos, criado por decreto em 2020.

A cooperação com a China está dando passos significativos no desenvolvimento da produção camponesa de bioinsumos. A Universidade Agrícola da China possui seis projetos-piloto para instalar seus sistemas de compostagem acelerada no Brasil, em parceria com a UnB e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Quando os seis estiverem em operação, queremos ampliar a escala de forma significativa”, afirmou Li Ji.

A cooperação começou pelo intercâmbio entre a UnB e a universidade chinesa e depois incorporou o MST, conta o professor, que se diz otimista com o mercado brasileiro de fertilizantes orgânicos. A visão de longo prazo é introduzir no país o sistema chinês completo de compostagem, das unidades de pequena escala nas propriedades às grandes plantas industriais. A ponte institucional existe desde 2023, quando UnB e UAC lançaram o Centro Brasil-China de Pesquisa, Desenvolvimento e Promoção de Ciência e Tecnologia para a Agricultura Familiar, do qual participam também a Baobab, a Embrapa, o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e a Beijing VOTO Biotech.

A China também está aprendendo no processo. A pesquisadora Caroline Gomide lembra que o Brasil é pioneiro há mais de 20 anos nos remineralizadores, o pó de rocha usado para devolver nutrientes ao solo, tecnologia que a China até pouco tempo atrás não conhecia. “Agora nós estamos combinando essas duas tecnologias, que geram um fertilizante organomineral, incluindo o pó de rocha durante o processo de compostagem. Na escola a gente trabalhou esse processo, inclusive acabamos de fazer a prática com alguns minerais. Os minerais são capazes de capturar gases: isso vai trazer mais nutrientes para as plantas e evitar as emissões que são normais na compostagem”, explicou.

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