Antes de comentar sobre o projeto, precisamos encarar uma contradição. O Plano Diretor enviado pela Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP) à Câmara de Vereadores estimula a verticalização desenfreada e aprova torres residenciais repletas de vagas de garagem. Depois, a mesma gestão tenta remediar o estrago criando viadutos anacrônicos. A conta simplesmente não fecha. É o mesmo que tentar enxugar gelo no asfalto.
A PMJP anunciou com pompa, no último 1º de abril, o projeto do Complexo Viário Beira Rio. Um investimento de R$ 235 milhões focado estritamente na infraestrutura rodoviária. O discurso oficial repete a velha cartilha do desenvolvimento urbano tradicional: “redução de engarrafamentos, quatro novos viadutos, interligação de corredores e modernidade”. Olhando superficialmente, parece a solução dos sonhos para quem perde horas no trânsito. Olhando com critério técnico, responsabilidade social e consciência ecológica, trata-se de um retrocesso caro, excludente e insustentável.
A primeira grande falha do projeto reside no que ele esconde e em como foi gerido. Uma intervenção desse porte deveria nascer do diálogo, mas a realidade foi o oposto: o projeto foi desenhado às portas fechadas nas secretarias municipais, sem ser debatido com os especialistas e acadêmicos de urbanismo da cidade. Para piorar, as comunidades do entorno – aquelas que sofrerão diretamente os impactos diários da obra e as transformações no território – não foram informadas adequadamente e nem tiveram espaço garantido de escuta, motivo pelo qual o Ministério Público da Paraíba promoveu audiência pública sobre a obra, nesta sexta-feira (24). A gestão pública desmerece a participação popular em nome de uma suposta urgência automotiva e da mobilidade urbana.
O silêncio técnico e social também se estende ao meio ambiente. Em pleno cenário de emergências climáticas, onde estão as ciclovias previstas no traçado? Qual será o real impacto ambiental na paisagem e no ecossistema extremamente sensível do rio Jaguaribe? As licenças ambientais foram aprovadas também sem debate popular?
Mas a pergunta fundamental que se deve fazer é: por que se induz a verticalização e o aumento da quantidade de vagas de garagem validada pelo Plano Diretor – e tão pouco discutida na Câmara Municipal de João Pessoa – para, depois, tentarem minimizar os danos com obras dessa natureza, sem realmente refletir se isso irá resolver o problema? Não seria muito mais oportuno discutir profundamente sobre os rumos desse modelo rodoviarista e dessa verticalização acelerada já sentida por todos nós?
O equívoco caro e impactante é nítido. Quem estuda fluxo viário conhece o fenômeno da demanda induzida. Construir mais viadutos e abrir espaço para carros particulares não resolve o trânsito; apenas atrai mais veículos. Em pouco tempo, as novas faixas de asfalto estarão tão saturadas quanto as atuais em horários de “pico”. É a prefeitura “enxugando o gelo” que ela mesma ajuda a congelar por meio de incentivos imobiliários sem critério de saturação espacial nos bairros.
Enquanto capitais globais de urbanismo desenvolvido priorizam mobilidade ativa, pessoas e transporte coletivo, João Pessoa insiste na mentalidade rodoviarista da década de 1970. Esse modelo ignora o aumento vertiginoso da frota de carros particulares, a sobrecarga de infraestrutura urbana pela verticalização induzida, os impactos na fauna e na paisagem. Estamos prestes a gastar uma fortuna pública em uma obra que exclui a população do debate, agride o meio ambiente e nascerá com prazo de validade vencido.
Precisamos, urgentemente, inverter a lógica de prioridades. O que daria para fazer com os mesmos R$ 235 milhões? Se o foco fosse o futuro e a qualidade de vida de verdade, esse montante financiaria a construção de 100 quilômetros de ciclovias seguras, um plano massivo de arborização urbana para combater as ilhas de calor e o investimento pesado em frotas alternativas de transporte público eficiente.
O Complexo Viário Beira Rio, do jeito que foi (im)posto, é a persistência no erro. A obra é um retrocesso da mobilidade urbana e ambientalmente insustentável. É hora de decidir se queremos uma capital paraibana que serve apenas aos carros ou uma cidade construída com as pessoas e para as pessoas.
*Marco Suassuana é arquiteto e urbanista pela Faculdades Unidas de Pernambuco (Faupe), mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFPB, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN, cofundador e coordenador do coletivo Urbanicidade e defensor do urbanismo sustentável.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

