Quando mulheres negras se movem, o mundo se transforma

Publicada em

Uma professora da rede estadual que faz da educação uma ferramenta de transformação. Uma dirigente sindical que enfrenta o racismo no mundo do trabalho. Uma liderança comunitária que acolhe centenas de famílias em uma cozinha solidária. Uma jovem mulher negra trans que encontrou nos movimentos populares um caminho de pertencimento. Uma yalorixá que também coordena o Movimento Negro Unificado. Uma cantora que leva aos palcos a ancestralidade dos terreiros.

Em comum, Karen Nunes da Silva, Ísis Garcia, Graziela da Silva Conceição, Jordana Lois de Lima, Ìyá Sandrali de Campos Bueno e Roberta Moura mostram que ser mulher negra no Rio Grande do Sul é transformar a resistência cotidiana em ação coletiva.

Reunidas neste especial do Brasil de Fato RS, separado em duas partes, as seis entrevistadas refletem sobre o significado do Julho das Pretas, mês que culmina no 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela.

Em diferentes espaços, da escola pública ao movimento sindical, das cozinhas solidárias aos terreiros, da cultura aos movimentos populares, elas compartilham histórias marcadas pelo enfrentamento ao racismo e ao machismo, pela valorização da ancestralidade e pela construção cotidiana de redes de cuidado, organização e resistência.

Na primeira parte as vozes de Karen, Ísis, Graziela e Jordana.

Karen Nunes da Silva: “Não adianta você ser negro e não entender a sua importância”

'O estudante precisa se identificar, se olhar, se enxergar. Eu acho que levo um pouco disso para eles também', pontua Karen Nunes da Silva
‘O estudante precisa se identificar, se olhar, se enxergar. Eu acho que levo um pouco disso para eles também’, pontua Karen Nunes da Silva | Crédito: Clara Aguiar

Professora da rede estadual de ensino, Karen Nunes da Silva acredita que ocupar uma sala de aula como mulher negra é, por si só, um ato de resistência. Formada em Letras – Português e Inglês, ela trabalhou durante 13 anos no comércio de Porto Alegre antes de ingressar no magistério. Hoje leciona em escolas da Restinga e também em seu território de origem, na Grande Cruzeiro.

Mãe de duas filhas, Karen afirma que sua presença na escola representa uma referência importante para estudantes negros, especialmente em um estado onde ainda há poucos professores negros na rede estadual.

Ela conta que ingressou na carreira em uma escola da periferia e nunca se imaginou trabalhando fora desse contexto. “Eu me identifiquei muito porque sou da periferia. Sou da Grande Cruzeiro, nascida e criada ali. Não me vejo trabalhando fora da periferia.”

Segundo ela, em uma escola com mais de mil estudantes, há no máximo seis professores negros. Entre mulheres negras retintas e com cabelo natural, como ela, o número é ainda menor. Para Silva, essa representatividade faz diferença na formação dos alunos. “O estudante precisa se identificar, se olhar, se enxergar. Eu acho que levo um pouco disso para eles também.”

A professora destaca que, ao atuar em comunidades periféricas, compreende realidades que muitas vezes passam despercebidas por quem nunca viveu nesses territórios. Para ela, o contexto familiar, a violência, as dificuldades econômicas e a sobrecarga das mulheres negras precisam ser considerados dentro da escola.  “Muitas vezes um olhar branco, que nunca viveu num território, não consegue enxergar. Às vezes aquele aluno não dormiu a noite toda. Não é preguiça. Pode ter acontecido um problema em casa, violência, conflitos familiares. Nem sempre é porque ficou jogando.”

Ela ressalta ainda que uma referência negra na escola também precisa estar comprometida com o letramento racial. “Não adianta você ser negro e não entender a sua importância, principalmente num território de periferia, onde muitas vezes a mulher negra é quem está conduzindo a casa.”

Karen observa que a evasão escolar atinge principalmente estudantes negros. “No primeiro ano tem um número de alunos. No terceiro, a maioria dos que desistiram são negros retintos, por vários motivos: porque foram trabalhar, casaram cedo ou seguiram outros caminhos.” Por isso, afirma que procura incentivar esses jovens desde o início da trajetória escolar. “Eu tento, já no primeiro ano, puxar eles.”

Julho das Pretas fortalece a luta coletiva

Para Karen, o Julho das Pretas representa um momento de fortalecimento político, cultural e afetivo das mulheres negras. “Como pessoas pretas, o ano inteiro a gente está pensando nisso. A gente não descansa. Nossa cabeça está sempre pensando em formas de aquilombamento, da gente se juntar, conversar e trocar.”

A professora lembra que participa de diversas atividades durante o mês e afirma que, em um estado onde a população negra é minoria, fortalecer os vínculos coletivos é fundamental para enfrentar o racismo. “Nós precisamos nos fortalecer, porque só assim vamos conseguir diminuir um pouco o preconceito.”

Ela observa que hoje percebe uma geração mais fortalecida do que a sua própria juventude. “Hoje eu me acho muito mais forte do que quando era adolescente. Minhas filhas têm referências que eu não tive.” Segundo ela, usar o cabelo natural continua sendo um ato de resistência. “As pessoas ainda olham. A gente sente esses olhares em todos os lugares.”

Aquilombamento como espaço de fortalecimento

Karen enfatiza que resistir também exige cuidado coletivo. “Às vezes cansa. Por isso a gente precisa se aquilombar, estar junto.” Ela explica que o aquilombamento não significa exclusão de outras pessoas, mas a construção de espaços de acolhimento e fortalecimento diante do racismo cotidiano. “Não é uma festa só para pretos. Brancos também podem participar. Mas a gente precisa estar junto para se fortalecer, porque muitos anos vivendo nessa pegada de olhares, de segurar a bolsa quando a gente passa, de não sentar do lado no ônibus, isso ao longo do tempo vai te cansando, vai te estressando e muitas vezes vai te adoecendo.”

Ao abordar o conceito de aquilombamento, a fala da professora dialoga com o pensamento da historiadora, intelectual e ativista Beatriz Nascimento, para quem o quilombo é um espaço de existência, pertencimento e liberdade. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, ela afirma: “A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.”

Vestida com uma camiseta estampada com o rosto de Lélia Gonzalez Silva também destaca a importância da intelectual em sua formação. Ela conta que, ao conhecer a trajetória da autora, compreendeu como o racismo atravessou sua vida e impulsionou sua produção intelectual voltada ao feminismo negro e à realidade das mulheres latino-americanas.

Para a professora, o acesso crescente à literatura produzida por mulheres negras representa uma transformação importante. “Na minha adolescência essas mulheres já escreviam. Onde é que elas estavam? Estavam escondidas, porque não conseguiam espaço nas editoras.”

Segundo ela, as redes sociais também contribuíram para ampliar o acesso a essas autoras e permitir que novas gerações encontrem referências antes invisibilizadas. Ela acredita que esse movimento já produz mudanças perceptíveis. “Hoje a gente vê nas universidades uma presença muito maior de estudantes negros. Porque nós pensamos, nós lemos, nós trabalhamos em qualquer área. A gente só precisa ter oportunidade.”

‘Nós precisamos nos fortalecer, porque só assim vamos conseguir diminuir um pouco o preconceito’ | Crédito: Cpers Sindicato/Reprodução

“Quando a base mexe, toda a estrutura mexe”

Ao refletir sobre a força das mulheres negras, Karen enfatiza que elas ocupam um lugar central nas transformações sociais. “Não é à toa que nós estamos ali na base. Quando a base mexe, toda a estrutura mexe.”

Para ela, o acesso das jovens negras às referências intelectuais produz mudanças profundas. “No momento em que essas potências chegam para a juventude, elas começam a se mexer muito mais rápido do que aconteceu com a minha geração.”

Ao refletir sobre o significado de ser uma mulher negra, Silva afirma que potência e sensibilidade caminham juntas. “Eu me vejo como uma pessoa muito potente.” Ela critica a ideia de que mulheres negras precisam ser vistas apenas como guerreiras. “Não existe guerreira. Guerreira é a Xena. Nós temos as nossas dores, as nossas cargas.”

Ao mesmo tempo, acredita que a força vem da ancestralidade. “Teve gente que morreu para eu estar aqui.” Esse legado a impulsiona a seguir em frente. “Às vezes eu penso que não posso parar.”

Ela também defende que mulheres negras sejam reconhecidas em sua humanidade. “As pessoas acham que mulher preta é brava. Mas nós também somos sensíveis. Gostamos de conversar, de socializar. Nós pensamos, choramos muito.” E conclui reafirmando a capacidade de resistência construída ao longo de gerações. “Nós choramos muito, mas não nos abatemos.”

Isis Garcia: “O movimento das mulheres negras transforma toda a sociedade”

‘O movimento sindical te permite entrar num processo de pertencimento de quem tu és enquanto mulher negra’, defende Isis Garcia | Crédito: Clara Aguiar

Para a dirigente da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul (Fetrafi-RS) e secretária de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS), Isis Garcia, o Julho das Pretas é um período de fortalecimento da organização das mulheres negras e de ampliação do debate sobre racismo, trabalho e direitos.

Segundo ela, esta será a terceira edição da mobilização organizada no Rio Grande do Sul e a data faz referência ao 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. “Tereza de Benguela foi uma grande lutadora no nosso país, que trabalhou na libertação de milhares de escravizados. Por isso que a gente resolveu homenagear.”

Bancária há 32 anos e dirigente sindical há 15, Isis conta que sua trajetória começou em uma agência bancária, onde, aos poucos, passou a ser a única pessoa negra da equipe.

Ela lembra que, apesar de ocupar os primeiros lugares nos rankings internos da instituição, o reconhecimento profissional vinha acompanhado de isolamento e de uma dedicação quase exclusiva ao trabalho. “Eu era a primeira em tudo. Tinha ranqueamento e eu era o primeiro lugar. Só que eu não tinha vida social.”

Segundo ela, o objetivo era conquistar estabilidade e provar que tinha capacidade para ocupar aquele espaço. Ao começar a questionar práticas dentro da empresa, passou a temer perder o emprego. “Como eu trabalhava em banco privado, se tu foge daquela lógica, eles veem uma maneira de te excluir do processo.” Foi nesse período que colegas a incentivaram a ingressar no movimento sindical. “Eles disseram: ‘Isis, tu és maior que isso aqui. Vai para o sindicato. Lá tu vai poder ser tu de fato’.”

A dirigente afirma que a atuação sindical transformou sua compreensão sobre o mundo do trabalho. “O movimento sindical te permite entrar num processo de pertencimento de quem tu és enquanto mulher negra.” Ela ressalta, porém, que a militância não elimina todas as formas de violência. “A única violência da qual eu não escapei foi do racismo estrutural e institucional.”

‘Às vezes a gente confia no patriarcado. Mas ele sempre vai fazer com que o espaço das mulheres não seja garantido’ | Crédito: Clara Aguiar

Julho das Pretas amplia o debate para toda a classe trabalhadora

Para Isis, uma das principais contribuições do Julho das Pretas é ampliar o debate para além das categorias organizadas. “A gente sai da bolha dos bancários e vai para a classe trabalhadora. Inclusive aquela que não é formalizada.”

Ela destaca especialmente as mulheres negras que atuam como empreendedoras e trabalhadoras autônomas. “Elas sempre estiveram nesse lugar. Só que tudo ganha nome quando a população branca entra.”

Segundo a dirigente, essas mulheres também são trabalhadoras e precisam ter seus direitos reconhecidos. “Nem todas têm os direitos que nós temos. Esse é o erro. Nós precisamos instituir direitos para aquelas mulheres que não estão a serviço de uma empresa, mas estão trabalhando para sobreviver.”

Durante as atividades do Julho das Pretas, Isis conta que faz questão de incentivar o público a consumir os produtos comercializados pelas expositoras. “Aquele espaço não é um shopping. Aquelas mulheres estão levando o sustento das famílias delas. Muitas vezes, se elas não trabalham, elas não comem.”

Para ela, essa realidade está diretamente ligada ao racismo estrutural. “O racismo sempre colocou as mulheres negras num lugar de apagamento e fora da equação social.”

Movimento sindical também precisa enfrentar racismo e machismo

Embora reconheça avanços ao longo dos últimos anos, Isis afirma que o movimento sindical ainda reproduz desigualdades presentes na sociedade. “Ele é machista, racista, xenofóbico. Todas essas violências que a gente combate também estão no movimento sindical.”

Apesar disso, ela avalia que a presença crescente de mulheres negras em espaços de decisão tem provocado mudanças importantes. “Vejo muito avanço porque as mulheres negras começaram a se movimentar.”

A reflexão dialoga com uma das frases mais emblemáticas da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. A ideia sintetiza o papel das mulheres negras como protagonistas das transformações sociais e ecoa na avaliação feita por Garcia sobre os avanços conquistados pelo movimento.

Segundo a dirigente, apenas ocupar espaços de fala já representa uma transformação. “Pelo fato de eu estar ali, já era um movimento. Pelo fato de eu pegar o microfone e dizer alguma coisa, já era um movimento.” Ela afirma que seu compromisso é ancestral. “Quando as pessoas reproduzem aquilo que eu falei, é porque aquilo tem importância. Esse é o meu papel.”

Escala 6×1 amplia desigualdades

Ao comentar o debate sobre o fim da escala 6×1, Isis afirma que as mulheres negras estão entre as mais afetadas pelas longas jornadas de trabalho. Ela observa que muitas sequer têm acesso aos direitos trabalhistas básicos porque atuam de forma autônoma ou na informalidade. “Essas mulheres não têm horário para acordar nem para dormir.”

Além da jornada de trabalho, afirma, elas continuam responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos. “Isso dificulta que tenham mais acesso ao conhecimento e às oportunidades.” Para as mulheres que possuem emprego formal, a dirigente defende que reduzir a jornada significa garantir qualidade de vida. “Nós temos direito ao lazer, ao descanso e ao convívio com a família.”

Ela afirma que jornadas exaustivas provocam adoecimento. “No momento em que tiram isso de ti, tu adoece.”  Também critica o modelo de metas imposto aos bancários. “As metas são abusivas e inatingíveis. Não somos nós que temos que nos adequar ao mundo do trabalho. O mundo do trabalho é que precisa se adequar às pessoas.”

Representatividade inspira novas gerações

Isis frisa que ocupar espaços de poder também produz mudanças para as próximas gerações. Ela lembra da eleição da presidenta Dilma Rousseff como um marco simbólico para meninas e mulheres. “Quando a presidenta Dilma foi eleita, eu disse para as minhas sobrinhas: ‘Agora vocês podem ser presidenta da República. Então almejem’.”

Ao mesmo tempo, critica a estrutura patriarcal da sociedade. “Às vezes a gente confia no patriarcado. Mas ele sempre vai fazer com que o espaço das mulheres não seja garantido.”

Ao definir o que significa ser uma mulher negra, Isis afirma que enfrentar o racismo faz parte do cotidiano. Ela relata situações recorrentes de discriminação em supermercados, aeroportos e outros espaços públicos. “Eu sou seguida no supermercado. Mulheres negras de black power têm o cabelo revistado nos aeroportos. É um desrespeito absurdo.”

Para ela, essas práticas são manifestações de um racismo institucionalizado. “É uma violência naturalizada por uma população que foi escolhida para ter direitos.”

Segundo a dirigente, o debate sobre letramento racial é fundamental para transformar essa realidade. “Eu não falo apenas o que é letramento racial. Eu explico por que precisamos dele.”

Ela defende que o Brasil foi estruturado sobre desigualdades raciais que ainda determinam experiências distintas para pessoas negras e brancas. “Nós somos diferentes e vivemos mundos diferentes.”

Ao abordar as relações afetivas, Isis também chama atenção para a solidão vivida por muitas mulheres negras e para as formas como o racismo atravessa essas relações. “A mulher negra vive uma solidão. Ela muitas vezes não tem o direito de amar quem ela quer.”

Julho das Pretas como espaço de visibilidade

Para Isis, o Julho das Pretas também é um momento de valorização das mulheres negras e de enfrentamento ao apagamento histórico. “Nós vamos valorizar umas às outras.”

A dirigente também destaca o papel da imprensa na ampliação desse debate. “É muito importante que toda a mídia participe, valorize e escreva sobre isso. Só assim vamos sair desse lugar de apagamento.”

Segundo ela, a presença de mulheres negras em espaços historicamente negados ainda provoca incômodo, mas também produz transformação. “As pessoas se acostumaram com a nossa ausência. Quando eu me sento nesses espaços, eu incomodo.” E conclui reafirmando o compromisso coletivo da luta das mulheres negras. “Esse é um desafio ancestral. Vamos continuar firmes, fortes e juntas. As mulheres têm que estar juntas.”

Tia Grazi: “Quem cuida de quem cuida?”

‘Nós largamos nossa família e passamos a semana inteira dentro da cozinha solidária’, expõe Tia Grazi | Crédito: Clara Aguiar

Moradora do bairro Santa Tereza, em Porto Alegre, onde nasceu e foi criada, Grazi, de 47 anos, é mãe de três filhos, avó de cinco netos e coordena, há oito anos, a Cozinha Solidária Tia Grazi. O espaço, porém, vai muito além da distribuição de refeições: reúne oficinas de geração de renda, reforço escolar, atividades para idosos e acolhimento à comunidade.

A história começou em 2014, quando decidiu deixar o emprego para abrir um espaço de cuidados infantis. Segundo ela, a decisão surgiu ao perceber a dificuldade enfrentada pelas mães da comunidade para conseguir vagas em creches. “Eu tinha mais de 40 crianças. Eram mães da comunidade que não tinham como pagar uma cuidadora e também não conseguiam vaga em creche.”

Em 2018, a partir da realidade das famílias atendidas, iniciou a distribuição de sopas para as mães. A iniciativa cresceu, atravessou a pandemia, as enchentes e nunca mais parou. “No início era tudo com dinheiro meu e da minha família. A gente fazia para garantir um prato de comida para essas mães.”

Com o aumento da demanda, Grazi encerrou as atividades do espaço infantil e passou a se dedicar integralmente à cozinha. Hoje, a Cozinha Solidária serve 431 jantas às segundas, terças e quartas-feiras. Além da alimentação, o espaço oferece oficinas de massas e salgados, reforço escolar para crianças e adolescentes e atividades voltadas à saúde e convivência de idosos. 

Ela relata que a rotina faz com que muitas vezes a própria equipe deixe de lado a convivência com a família. “Nós largamos nossa família e passamos a semana inteira dentro da cozinha.” Mesmo diante das dificuldades, afirma que o trabalho é recompensador. “Quando tu faz com amor, carinho e dedicação, é muito gratificante.”

Cozinha solidária é espaço de acolhimento e organização comunitária

Segundo ela, o vínculo construído ao longo dos anos faz com que a cozinha seja procurada não apenas por quem precisa de alimentação, mas também por quem busca escuta, acolhimento e orientação. Para Grazi, não é coincidência que a maioria das cozinhas solidárias seja coordenada por mulheres negras. “As mulheres negras já vêm de um sofrimento. Elas lidam com a alimentação, com o carinho e conseguem enxergar o sofrimento das pessoas.”

Ela afirma que, enquanto muitas portas permanecem fechadas para quem vive em situação de vulnerabilidade, as cozinhas se transformam em espaços de acolhida. “Se bater na porta uma pessoa precisando, muita gente vai dizer não. A cozinha diz: pode entrar, aqui tu vai ter acolhimento.”

Segundo Grazi, esse trabalho tem raízes muito anteriores às cozinhas solidárias organizadas atualmente. “A cozinha solidária não surgiu agora. Ela existe há muitos anos, vem da nossa matriz africana. A nossa religião já fazia esse papel muito antes, só que ninguém enxergava.”

Ela lembra que apenas recentemente esses espaços passaram a receber maior reconhecimento e apoio. “Agora estamos conseguindo um pouquinho mais de visão. Antes nós éramos esquecidas.”

Formação também combate a fome

Além da distribuição de refeições, Grazi defende que as cozinhas sejam reconhecidas como espaços de formação política e cidadã. “A cozinha não é só um lugar de alimentação. É um espaço onde as pessoas precisam ter conhecimento.” Ela ressalta que muitas pessoas chegam sem acesso a informações sobre direitos, políticas públicas ou participação social. “Às vezes a pessoa não sabe porque ninguém nunca explicou para ela.” Por isso, acredita que as cozinhas deveriam receber mais projetos voltados à formação da comunidade.

Ela também destaca a parceria com movimentos populares, que, segundo ela, oferecem formação política, apoio e fortalecem o trabalho desenvolvido nos territórios. “Se não fossem os movimentos, muitas vezes nós nem saberíamos por onde começar.”

A falta de creches continua sendo um problema

A experiência de anos trabalhando com crianças faz Grazi afirmar que a ausência de vagas em creches continua sendo uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas famílias da periferia. Segundo ela, muitas mães precisam deixar os filhos com irmãos mais velhos para conseguir trabalhar. “Isso acontece muito dentro da comunidade.”

Na avaliação da coordenadora da cozinha, faltam investimentos em equipamentos públicos. “Existem tantos terrenos vazios e casas abandonadas que poderiam virar creches ou moradias.”

Ela critica a falta de continuidade das políticas públicas. “Eles lembram do povo em um momento e depois esquecem durante anos.”

Jordana Lois de Lima e Tia Grazi | Crédito: Clara Aguiar

“Quem cuida de quem cuida?”

Ao longo da entrevista, Grazi se emociona ao falar da rotina de quem dedica a vida ao cuidado coletivo. Ela explica que, diariamente, escuta histórias marcadas por fome, violência, abandono e insegurança alimentar. “Nós somos acolhidas pelo nosso próprio povo. Eles chegam com seus problemas, procurando uma conversa, um abraço, um carinho.” A coordenadora afirma que muitas vezes a cozinha é o único lugar onde essas pessoas encontram apoio. “É cada caso que a gente ouve… É muito triste.”

Em um dos relatos, ela lembra de uma avó que cria sozinha o neto, um jovem com problemas de saúde, vivendo em condições precárias. Segundo Grazi, histórias como essa fazem parte do cotidiano da cozinha.

Ela também relata a situação de crianças que chegam descalças ou com chinelos rasgados para buscar alimentação. “Quem olha de fora acha que está tudo bonito. Mas não está.”

A realidade enfrentada diariamente faz com que o trabalho seja também emocionalmente exigente. “Às vezes a gente acha que venceu uma batalha, mas logo precisa começar tudo de novo.”

A história narrada por Grazi dialoga com uma das reflexões mais conhecidas da escritora Carolina Maria de Jesus, que registrou a fome como uma das expressões mais profundas da desigualdade social: “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer.” A frase sintetiza uma realidade que segue presente em muitos territórios periféricos brasileiros e ajuda a compreender a importância das cozinhas solidárias como espaços de garantia do direito à alimentação e à dignidade.

Julho das Pretas deve durar o ano inteiro

Para Grazi, o reconhecimento das mulheres negras não deveria se limitar ao mês de julho. Ela defende que o debate sobre racismo permaneça presente durante todo o ano. “Nós somos descendentes de pessoas escravizadas e precisamos ser valorizadas o ano inteiro.”

Ao falar sobre o significado de ser uma mulher negra, responde de forma direta. “É um orgulho. A nossa raça, a nossa cor e a nossa resistência.”

Segundo ela, a resistência continua sendo necessária diante das desigualdades enfrentadas pela população negra. “Nós vivemos em um país muito preconceituoso.”

Grazi também avalia que, no Rio Grande do Sul, as mulheres negras seguem enfrentando situações de exploração e invisibilidade. Para ela, a mulher negra ainda continua sendo muito desvalorizada. A liderança cita casos recentes de pessoas encontradas em situação análoga à escravidão como exemplo de que essa realidade permanece presente. “Por isso eu digo que essa luta deveria acontecer o ano inteiro.”

Ao final, Grazi deixa uma mensagem para o Julho das Pretas. “Quero agradecer a todas as mulheres negras, guerreiras e resistentes. A luta ainda é muito grande, mas nós vamos vencer essa guerra.”

Jordana Lois de Lima: “Ser uma mulher negra trans é ser muito forte”

‘Fui conhecendo os movimentos populares, fui me envolvendo e começou tudo dali’, expõe Jordana Lois de Lima | Crédito: Clara Aguiar

A trajetória de Jordana Lois de Lima, de 28 anos, também se entrelaça à história da Cozinha Solidária Tia Grazi. Moradora da região da Cruzeiro, em Porto Alegre, ela começou a participar das atividades ainda no período em que o espaço funcionava como centro de cuidados infantis e, desde então, passou a atuar ao lado da tia na cozinha.

Foi por meio desse trabalho que conheceu movimentos populares como o Levante Popular da Juventude e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Atualmente, integra as ações do Mãos Solidárias, iniciativa voltada ao combate à fome e à promoção da solidariedade nos territórios.

Conforme narra Jordana, foi essa aproximação que abriu novas perspectivas para sua vida. “Fui conhecendo os movimentos, fui me envolvendo e começou tudo dali.” Como resultado desse processo, ela se prepara para iniciar a graduação em Tecnologia em Agroecologia, em Viamão. “Eu escolhi porque surgiu essa oportunidade. Todo conhecimento e toda coisa nova são muito bons para o ser humano.”

Família foi fundamental no processo de transição

Mulher negra trans, Jordana afirma que sempre se reconheceu dessa forma, desde a infância. Ela destaca que o apoio da família foi decisivo durante o processo de transição. “A família me aceitar foi a melhor coisa.” 

Segundo Jordana, esse acolhimento faz diferença na vida de pessoas trans, sobretudo diante dos inúmeros casos de rejeição familiar. “Tem famílias que não aceitam. Então, esse acolhimento ajuda muito no nosso processo.”

“Ser uma mulher negra trans é ser diferente e muito forte”

Ao refletir sobre sua identidade, Jordana reconhece que ainda enfrenta preconceitos, mas afirma que aprendeu a enxergar sua trajetória também como motivo de orgulho. “Pelo lado ruim é difícil, porque as pessoas não aceitam a gente. Mas, pelo outro lado, é muito incrível ser diferente.” Para ela, ser uma mulher negra significa carregar uma história de força e resistência. “Eu sou uma mulher muito forte.”

Ao avaliar a situação das mulheres negras trans no Rio Grande do Sul, Jordana acredita que houve avanços nos últimos anos, embora o preconceito ainda exista. “Antigamente tinha muito mais violência. Ainda acontece, mas eu acho que hoje diminuiu um pouco.”

Para Jordana, o Julho das Pretas representa um momento de união e fortalecimento das mulheres negras. “Todos nós estamos juntos lutando pelos nossos direitos e sendo fortes.”

Source link