O partido governista de extrema direita na Argentina La Libertad Avanza venceu as eleições legislativas realizadas neste domingo (26). Com mais de 90% das urnas apuradas, a legenda do presidente Javier Milei recebeu 40,8% dos votos, em uma expressiva vitória.
Com isso, dos 127 assentos que estavam em disputa na Câmara dos Deputados, a coalizão libertária deve conquistar 64.
Já a coalizão peronista Fuerza Patria, principal força de oposição a Milei, deveria ter 31 cadeiras na Câmara, ao atingir 24,5%. No entanto, o número da votação da chapa ainda deve crescer, já que em distintas províncias o campo peronista se apresentou nas urnas com coalizões de diferentes nomes, mas que ao fim devem somar-se ao bloco de parlamentares do Fuerza Patria.
No Senado, onde se disputavam 24 assentos, o partido de Milei deve ficar com 13, contra 6 dos peronistas.
O pleito, que renova a metade das duas casas do Legislativo argentino, definirá a composição do Congresso para os dois últimos anos de mandato de Milei, elemento considerado pelos libertários como fundamental para seguir aplicando seu projeto de ajuste econômico, reduzindo o papel do Estado principalmente de áreas como proteção social e políticas públicas.
Isso porque nos últimos anos o Congresso tem sido uma barreira de contenção a vetos presidenciais que previam cortes bruscos em diversas áreas públicas como aumento de aposentadorias, ampliação de verbas para saúde pública e financiamento a universidades.
Todos esses setores têm sido alvo de ataque de Milei, que busca aprofundar uma agenda neoliberal de ajustes enquanto amplia a dívida externa com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para tentar controlar a inflação e manter o preõ do dólar estável.
Pobreza e corrupção: como vai o governo Milei?
Os resultados deste domingo não apenas supreendem pela diferença expressiva entre o primeiro e o segundo colocados, mas também porque pesquisas de intenção de voto semanas antes do pleito indicavam um empate técnico entre o partido de Milei o Fuerza Patria.
Isso mesmo após o revés sofrido pelo governo nas eleições provinciais de Buenos Aires, onde o peronimo obteve um excelente resultado e viu crescer o otimismo para o pleito deste domingo.
Analistas apontam que o desgaste de Milei vem da pauta social, negligenciada pelo governo. Sob justificativa de reduzir a inflação e o déficit, o presidente libertário cortou gastos e atirou milhões de argentinos para baixo da linha do pobreza.
Ao Brasil de Fatoa professora do departamento de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Miriam Gomes Saraiva disse que “Milei se elegeu com base em uma promessa que não foi cumprida, o que o fez perder popularidade”. “Recuperar apoio popular é possível, no meu entender, somente se a economia melhorar bastante, melhorando a vida das pessoas”, diz ela.
Ainda segundo a professora, o plano de Milei se parece com a política econômica adotada pelo ex-presidente Carlos Menem, na virada dos anos 1990. “Ele teve apoio por ter acabado com a inflação, que estava acima de 2.000% ao ano, mas a sociedade argentina ficou bastante traumatizada com a crise horrorosa que o plano gerou em 2002, que levou uma enorme quantidade de argentinos para a miséria”, afirma
Saraiva cita ainda outros motivos que podem explicar a atual situação do governo Milei. Além do estilo agressivo, cada vez mais criticado pelos argentinos, o escândalo de corrupção envolvendo sua irmã e secretária-geral da Presidência, Karina Milei, acusada de receber propina, afetou a imagem do libertário.
“O escândalo com a irmã deve ser só uma gota d’água, que no último momento dá argumento para alguém deixar de votar nele ou em seu partido. Mas se a economia estivesse bem, acho que isso aconteceria.”
Apoio de Trump prejudica Milei?
Duas semanas após a acachapante derrota em Buenos Aires, Milei gastou cerca de metade de seu discurso na Assembleia Geral da ONU para elogiar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu tarifaço, que chamou de “reestruturação sem precedentes dos termos do comércio internacional”.
À época, o governo argentino negociava um empréstimo para estabilizar o câmbio de US$ 20 bilhões (R$ 107 bi) com os EUA. Tal empréstimo foi formalizado em 20 de outubro e Trump prometeu outros US$ 20 bi, mas apenas se Milei vencesse as eleições deste domingo.
“Estamos aqui para apoiá-lo nas próximas eleições. Se vencer, seguiremos juntos. Se perder, não seremos generosos”, disse o presidente dos EUA. A frase transformou o que deveria ser um momento de glória para Milei em um incidente diplomático, considerado pelos argentinos uma ingerência externa na política do país.
Quem pagou por isso foi o ministro das Relações Exteriores Gerardo Werthein, acusado pela própria Casa Rosada de não ter informado corretamente à equipe de Trump que as eleções não seriam presidencias mas sim legislativas. Diplomatas argentinos rebateram a acusação do governo como absurda e o próprio Trump disse depois saber bem o que estaria em jogo neste pleito.
À época, em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoo sociólogo argentino Pablo Semán avaliou que o gesto de Trump teria um efeito contrário ao desejado, agravando a instabilidade política e econômica do país.
“A intenção do Donald Trump talvez fosse fortalecer o governo de Javier Milei, mas a reação da população e dos investidores é, de alguma forma, contrária”
Pesquisa realizada entre setembro e outubro pela consultoria Zuban Córdoba indicou que 60% dos argentinos têm uma visão negativa sobre Donald Trump. Outro estudo, da consultoria Zentrix revelou que 58% dos argentinos se opõem à concessão de assistência financeira do Tesouro dos EUA à Argentina.

