Neste breve artigo, iniciamos uma série de reflexões, em termos de teoria política e economia política comparada, buscando extrair da vitoriosa experiência da República Islâmica do Irã, conceitos chave de modo a ajudar a remontar um conceito estratégico para o desenvolvimento soberano da América Latina (em geral), e o Brasil (em particular).
O primeiro passo é excluir qualquer argumento de tipo “orientalista”, que observa a experiência iraniana como uma espécie de “excepcionalismo”. Diria que é exatamente o oposto. Após conviver por 100 anos com a pressão do imperialismo concorrencial – entre o Reino Unido e o antigo Império Russo – o país acaba absorvendo e reproduzindo instituições políticas semelhantes às potências invasoras. Dos Romanov acabou recebendo uma dinastia fajuta (a última, dos Pahlavi), cujo Xá original era um coronel de cavalaria de regimento de cossacos “persas”. Já da Inglaterra veio a matriz da tentativa de monarquia parlamentarista, que culmina com a Operação Ajax e a derrubada do governo do premiê nacionalista, através da Operação Ajax em 1953.
Ou seja, a primeira lição que se pode adquirir do Irã para a América Latina é parar com a idealização modernizante, como se a cópia de instituições do ocidente fosse algo positivo a priori. As ilusões modernizantes, criando uma situação de “tipo ideal” imaginário, copiando resultados e não estudando processos sociais concretos, nos leva a situações esterilizantes, onde elites latino-americanas espelham o seu colonialismo intelectual, responsabilizando as vítimas das mazelas pós-coloniais (as populações e maiorias) e se inocentando como algozes ou cúmplices do imperialismo.
A luta nacional iraniana culmina em duas instituições pilares da República. Uma é o posicionamento do clero xiita duodecimal, vinculando a jurisprudência e o sistema de crenças de “justiça e amparo aos oprimidos” com um Islã voltado para a igualdade socioeconômica segundo parâmetros próprios. Outra foi a necessidade de criar um instrumento no calor da luta popular contra a monarquia absolutista (ditadura nababesca do Xá inventado pela inteligência britânica e retificado seu filho pela CIA) e este é o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC).
O conceito chave aqui é a busca pela modernização de instituições tradicionais – no caso, o posicionamento político revolucionário do clero – e a criação de um corpo de defesa incondicional ao processo de mudança. O Irã, ao proclamar sua República Islâmica, se nega a normalizar com o entorno alvo de ação imperialista. Ao vencer a guerra de agressão promovida pelos EUA instrumentalizando Saddam Hussein no Iraque, Teerã tampouco admitiu “conviver com o ocidente agressor” abrindo mão de sua política externa.
Se listarmos os movimentos e fenômenos acima, são todos conceitos passíveis de alguma reprodução, ou adaptação para nossos países latino-americanos. O que não se pode fazer é apenas reconhecer as virtudes ao povo iraniano e as mazelas ao legado pós-colonial em nosso continente. O aprendizado político implica em estudar a experiência concreta do país que enfrenta e derrota o Império estadunidense no século 21 e analisar o processo em comparação com as sociedades concretas de cada país da América Latina.
* Para mais textos e artigos sobre o Irã, acesse: https://hispantv.substack.com/p/licoes-do-ira-para-a-america-latina
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

