O portal de notícias Fronteira 360, sediado em São Borja (RS), divulgou nesta quinta-feira (15) uma denúncia de intimidação sofrida pela redação após a publicação de reportagens sobre mortes recentes durante ações da Brigada Militar no Rio Grande do Sul. Os casos estão sob questionamento e apuração interna pelas autoridades.
Segundo o veículo, após a divulgação de uma matéria sobre a morte de um homem em surto durante uma abordagem policial em Santa Maria, a equipe recebeu uma mensagem privada com teor agressivo, ofensivo e ameaçador. O autor se identifica como integrante da Brigada Militar.
A mensagem contém ironias, xingamentos e um convite explícito ao confronto físico. Em um dos trechos, o remetente afirma: “Caso algum familiar ou ‘algum bunda mole’ fale mal da Brigada, me contate ou venha me visitar, se for homem. Podem vir mais de um me visitar.”
Portal buscou apoio de entidades sindicais
Diante da gravidade do conteúdo e do fato de a intimidação partir de alguém que se apresenta como agente de segurança pública, o Fronteira 360 informou que buscou apoio junto ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) e à Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), além de registrar Boletim de Ocorrência por ameaça e intimidação.
O episódio ocorre em um contexto de atenção no estado. Além do caso de Santa Maria, uma ocorrência recente no interior de Pelotas resultou na morte de um produtor rural durante uma operação da Brigada Militar. O delegado da Polícia Civil responsável afirmou que o fato “merece ser rigorosamente averiguado”.
“Não é possível relativizar a violência”
Para o repórter e editor-chefe do Fronteira 360, Maicon Schlosser, a situação vai além do campo da discordância. “Considerei a mensagem extremamente inapropriada, ainda mais dentro do contexto recente, e também perigosa, afinal, não é possível relativizar a violência ou a intimidação sob nenhuma forma”, declarou.
O portal afirma que, em um momento que exige transparência e apuração rigorosa, a tentativa de intimidação contra jornalistas e familiares de vítimas agrava o cenário de tensão institucional. O Fronteira 360 reforça que sua cobertura segue critérios técnicos, apuração responsável e interesse público, reconhecendo o papel das forças de segurança no combate ao crime, mas ressalta que “intimidar jornalistas não protege instituições, ao contrário, aprofunda a crise de confiança e amplia o escrutínio público”.
“Grave afronta à liberdade de imprensa”
Em nota conjunta, SindJoRS e Fenaj classificaram o caso como grave afronta à liberdade de imprensa. “Críticas fazem parte do debate democrático, mas ameaças, intimidação e violência simbólica, especialmente quando partem de alguém que se apresenta como agente da segurança pública, são absolutamente inaceitáveis e representam grave afronta à liberdade de imprensa, ao direito à informação da sociedade e ao Estado Democrático de Direito”, afirmaram.
As entidades também destacaram que a atuação das forças de segurança deve se pautar pelo respeito aos direitos humanos, à legalidade e à transparência, “jamais pelo constrangimento ou tentativa de silenciamento de jornalistas”.
O SindJoRS questionou a assessoria do comandante da Brigada Militar sobre o caso. Como resposta, recebeu a informação de que o coronel Silva Bueno repassará o assunto à Secretaria da Segurança e que será instaurado procedimento apuratório.
O Fronteira 360 informou que seguirá exercendo seu dever constitucional de informar e que as entidades de classe já acionaram os órgãos competentes para cobrar apuração rigorosa e eventual responsabilização, caso a autoria das mensagens seja confirmada.
Ó Brasil de Fato RS questionou a Brigada Militar sobre o caso. Não houve retorno até o fechamento da reportagem e o espaço segue aberto à manifestação.
Nota do SindJoRS e da Fenaj
O Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) vêm a público repudiar com veemência a intimidação sofrida pelo jornalista Maicon Schlosser, do portal Fronteira 360, de São Borja (RS), em razão do exercício legítimo de seu trabalho profissional.
Nos últimos dias, o veículo publicou reportagens sobre mortes ocorridas em ações da Brigada Militar no Rio Grande do Sul, incluindo um caso recente registrado em Santa Maria, envolvendo um homem em surto que morreu durante uma abordagem policial. As matérias foram produzidas com base em apuração responsável, informações verificadas e depoimentos de familiares, cumprindo rigorosamente os preceitos éticos do jornalismo e o interesse público.
Após as publicações, o jornalista passou a receber mensagens privadas de conteúdo agressivo, ofensivo e intimidatório, enviadas por um indivíduo que se identifica alegadamente como sargento da Brigada Militar. As mensagens contêm ataques pessoais, xingamentos e incitação ao confronto, caracterizando uma tentativa de intimidação em função do trabalho jornalístico realizado.
O SindJoRS e a Fenaj ressaltam que críticas fazem parte do debate democrático, mas ameaças, intimidação e violência simbólica, especialmente quando partem de alguém que se apresenta como agente da segurança pública, são absolutamente inaceitáveis e representam grave afronta à liberdade de imprensa, ao direito à informação da sociedade e ao Estado Democrático de Direito.
A atuação das forças de segurança deve estar pautada pelo respeito aos direitos humanos, à legalidade e à transparência, jamais pelo constrangimento ou tentativa de silenciamento de jornalistas.
O portal sempre noticiou matérias de cunho informativo sobre Brigada Militar e outras forças de segurança, ressaltando o importante papel destes para a segurança pública e no combate ao crime e, em nenhum momento, dirigiu críticas pessoais à corporação.
As entidades manifestam solidariedade ao profissional intimidado, reiteram seu apoio irrestrito ao livre exercício do jornalismo e informam que já estão adotando as medidas institucionais cabíveis junto aos órgãos competentes, cobrando apuração rigorosa dos fatos e responsabilização, caso confirmada a autoria das mensagens.
Intimidar jornalistas é atacar a democracia.Sem liberdade de imprensa, não há sociedade livre.
Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul – SindJoRS
Federação Nacional de Jornalistas – Fenaj

