Ameaças de Trump contra Groenlândia miram disputa geopolítica com Rússia no Ártico

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Em meio às ameaças de intervenção dos Estados Unidos na Groenlândia, território da Dinamarca, países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) decidiram na última quarta-feira (14) enviar tropas para a região. Representantes da Groenlândia e da Dinamarca se reuniram com autoridades estadunidenses em Washington no dia anterior, mas não conseguiram chegar a um acordo sobre o futuro da região.

O presidente Trump vem reforçando que pretende estabelecer o controle estadunidense sobre a ilha por todos os meios necessários. A Rússia, por sua vez, repudia veementemente a postura agressiva de Washington.

Já nesta sexta-feira (16), o presidente dos EUA ameaçou impor restrições comerciais a países que se opõem às reivindicações de Washington sobre a Groenlândia.

“Posso impor tarifas a países que não concordam, porque precisamos da Groenlândia para a segurança nacional. Então, posso fazer isso”, disse ele em um evento na Casa Branca.

Ao mesmo tempo, Donald Trump voltou a questionar a capacidade da Dinamarca de proteger o território e citou supostas ameaças da Rússia e da China.

O problema é que não há nada que a Dinamarca possa fazer se a Rússia ou a China quiserem ocupar a Groenlândia. Mas há tudo o que podemos fazer, e vocês descobriram isso na semana passada com a Venezuela. Há tudo o que podemos fazer em relação a coisas assim. Isso não vai acontecer. Não posso confiar que a Dinamarca seja capaz de se defender”, afirmou.

A nova investida intervencionista dos EUA tem um contexto mais amplo de disputa geopolítica do Ártico, onde a Rússia tem papel predominante. A Rússia repudiou o envio de tropas da Otan para a região e classificou como inaceitáveis as referências a supostas atividades russas e chinesas como justificativa para a escalada.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, declarou, na quinta-feira (15), que, após a recente publicação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, “ficou claro que parte do território dinamarquês, localizado no Hemisfério Ocidental, foi arbitrariamente incluída por Washington em sua esfera de interesses”.

“Nesse contexto, o mito de uma ameaça russa — rigorosamente promovido pela Dinamarca e outros membros da UE e da Otan há anos — torna-se especialmente hipócrita. É precisamente sob esse pretexto rebuscado que Washington passou a se ‘preocupar’ com o futuro da Groenlândia”, acrescentou.

A associação da Rússia ao tema, no entanto, insere-se num contexto mais amplo de disputa geopolítica no Ártico. A Rússia é o país com maior presença militar e territorial na região, detendo cerca de metade da costa ártica, bases, sistemas de defesa e uma poderosa frota de quebra-gelos. Tal domínio é de extrema importância para o país, garantindo uma influência sobre rotas estratégicas e vastos recursos naturais.

Em entrevista ao Brasil de Fatoo cientista político da Universidade Estatal Pedagógica de Moscou Vladimir Shapovalov afirma que as declarações sobre supostas ameaças da Rússia e da China na região não possuem fundamento algum, visto que não existem navios russos ou chineses próximos à Groenlândia.

Segundo ele,  “está claro que na atual situação a questão gira em torno aos esforços do presidente dos EUA de estabelecer um amplo controle sobre o ‘Novo Mundo’, sobre o hemisfério ocidental’.

“E ele (Donald Trump) entende a Groenlândia como uma parte geograficamente indissociável do hemisfério ocidental”, acrescenta.

E o que a Rússia tem a ver com isso? As declarações de Trump sobre uma ameaça russa à Groenlândia são absolutamente falsas e sem fundamento. Chega a ser risível — até para sua própria equipe —, já que não há nenhuma presença russa no território. Ao mesmo tempo, a Rússia tem uma relação direta com essa questão, porque, nos últimos dez anos, intensificou significativamente seus esforços para dominar sua zona ártica. E foi nessa mesma zona que também se reforçaram as relações de cooperação entre Rússia e China”, explica o analista.

De acordo com Vladimir Shapovalov, a disputa em torno da Groenlândia revela um reposicionamento estratégico no Ártico, onde os Estados Unidos buscam ampliar sua presença militar e contrabalançar a vantagem consolidada da Rússia.

“Para os EUA, é fundamental ampliar sua presença no Ártico além da russa. Atualmente, os americanos já estão na região, mas com uma parcela muito pequena. Portanto, o controle sobre a Groenlândia multiplicaria a presença norte-americana no Ártico e, ao mesmo tempo, reduziria a influência de outros países ocidentais. Na prática, isso transforma a discussão sobre o Ártico em um plano bipolar entre Rússia e EUA”, afirma.

De acordo com o pesquisador, existe uma questão de segurança fundamental para a Rússia que é o fato de que “todos os países que fazem fronteira com a Rússia no Ártico são hostis a Moscou: EUA, Canadá, Noruega e Dinamarca”. “Podemos ainda incluir Suécia e Finlândia, que também estão no círculo ártico. Todos são países da Otan. Consequentemente, em nenhum outro lugar a Rússia tem uma fronteira tão extensa com países hostis como no Ártico”, completa.

Neste cenário, a Rússia interpreta as ações dos Estados Unidos não apenas como novos movimentos pontuais de intervenção, mas como parte de um processo mais amplo de esgotamento da ordem internacional liderada pelo Ocidente.

“É impossível não notar que as tensões atuais em torno da autonomia da Dinamarca do Norte demonstram, de forma particularmente aguda, o fracasso da chamada ordem mundial baseada em regras que está sendo construída pelo Ocidente. As próprias falhas da antiga linha de submissão incondicional de Copenhague ao seu principal aliado, os Estados Unidos, são claramente visíveis e óbvias a olho nu”, completou a porta-voz da chancelaria russa.

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