A artista plástica Maria Lídia Magliani é lembrada pelos 80 anos do seu nascimento

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Maria Lídia Magliani entrava silenciosamente na redação da Folha da Manhã, jornal da antiga Caldas Júnior, e caminhava para sua mesa de trabalho. Cumprimentava e falava com pouca gente. Tinha uma personalidade forte, mas era irascível e impaciente, segundo alguns de seus amigos, mas generosa com quem ela queria e com quem se aproximava para um papo.

Ela se inquietava com a barulheira do pessoal da editoria de Esportes – sempre falando aos gritos, torcendo, com os rádios ligados, acompanhando o noticiário. Era diagramadora no jornal, mas estávamos, todos que ali trabalhavam em meados dos anos 1970, sabendo de que ela era uma grande artista.

Neste domingo (25), ela faria 80 anos do seu nascimento. Pelotense de 1946, vagou pelo Brasil desde os quatro anos (Porto Alegre, São Paulo, Tiradentes/MG e Rio de Janeiro) e, pouco a pouco, foi engrandecendo sua imagem, o seu trabalho, o seu estilo. Uma vida, enfim, cheia de deslocamentos, contrastes e profundidade.

Seus trabalhos eram fortes, intensos, de caráter superior. Era uma multiartista em todos os sentidos | Crédito: Divulgação

Primeira artista negra a se formar em artes plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1965. Atuou como pintora, desenhista, gravurista, diagramadora, ilustradora, figurinista e cenógrafa, transitando assim por diferentes linguagens. Seus trabalhos eram fortes, intensos, de caráter superior. Era uma multiartista em todos os sentidos. Morreu em 2012 no Rio de Janeiro de problemas cardíacos.

Tem obras espalhadas por dezenas de museus, é nome de rua em Porto Alegre, de escola em Pelotas e entrou para a história da cultura artística gaúcha como um talento inquestionável. Como disse o Museu Iberê Camargo em exposição realizada em 2022 com 200 obras, produzida ao longo de 50 anos de carreira, muitas delas de propriedades particulares, como as de sua amiga Maria da Graça Guindani: “Eu não nasci para enfeitar o mundo, eu pinto porque a vida dói”.

A frase de Iberê poderia ter sido escrita por Maria Lídia Magliani, cuja obra conflui em muitos aspectos com a do mestre. Mulher, negra e pobre, e, embora essa conjunção tenha freado muitas vezes sua produção, foi também o cadinho (material de laboratório usado principalmente para aquecer, derreter, queimar substâncias) de sua obra, que é visceral, dolorida e pungente – “uma arte para incomodar”.

Seu amigo Caio Fernando de Abreu

O escritor Caio Fernando Abreu (autor de Morangos Mofados) era um dos amigos mais próximos de Magliani. Ía com frequência ao jornal Folha da Manhã visitá-la e lá também trabalhou em períodos distintos da década de 1970 – contemporâneo da artista. Retratou-a como amiga de longa data e companheira de intensas vivências artísticas e noturnas. Magliani fazia parte do círculo de “malditos” da geração de Caio, destacando-se por sua dedicação integral à arte. Sempre se correspondiam por carta. Hoje, essas cartas fazem parte do epistolário de Caio.

Ambos faziam parte de um grupo de artistas que produziu no Brasil, durante a ditadura militar, explorando temas como liberdade e arte, sem se curvar a críticas fáceis. As cartas entre eles, muitas vezes, abordavam a subjetividade, angústias e a produção artística, refletindo a atmosfera intensa daqueles tempos.

Intensas, por vezes grotescas ou comprimidas, focando no drama humano, Magliani eternizou-se por suas obras impactantes e questionadoras | Crédito: Divulgação

O marchand Renato Rosa – pintor e negociante de obras de arte – era também outro grande amigo de Magliani. Ele está organizando exposição no mês de março, quando também completa 80 anos, no Paço da Prefeitura de Porto Alegre, com obras de seu acervo e outras de sua própria autoria. “A mostra é uma homenagem para Magliani, mas a raiz de tudo celebra a nossa duradoura amizade de 50 anos. Quando nos conhecemos, ela recém se formara, em 1965, e fizera sua primeira exposição na Galeria Espaço. Nos mantivemos irmãos da vida até o seu passamento”, diz Rosa.

Intensas, por vezes grotescas ou comprimidas, focando no drama humano, Magliani eternizou-se por suas obras impactantes e questionadoras. Como disse a jornalista Fátima Torri, sua arte não se encaixa na sala de jantar, muito menos no quarto das crianças. “É uma arte que questiona, que provoca, uma força visceral que revela o lado sombrio do ser humano, o mais humano que se pode ser. Telas escuras apresentam corpos nus, figuras humanas de proporções volumosas, cores fortes, poemas e títulos”, diz.

Retirada

Na década de 1980, circulando entre São Paulo, Rio, Brasília e Porto Alegre, Magliani era considerada uma das mais importantes artistas brasileiras. Apesar do sucesso junto à crítica, seu trabalho, que nunca serviu para enfeitar paredes, jamais alcançou a monetização que lhe era devida, levando a artista a se retirar para Tiradentes, em Minas Gerais. Foi o início de um processo de apagamento do qual Magliani não se recuperou até seu falecimento em 2012.

Diante deste quadro “cigano” de sua vida, o Museu Iberê Camargo afirma, através de sua comunicação, que foi com emoção que empreendeu o resgate da artista, que revelou-se um enorme desafio, pela quantidade e qualidade de pinturas, desenhos, ilustrações, atuação em teatro, figurinos, cenários, textos, entrevistas e cartas.

“Assim, cientes da impossibilidade de processar todo esse material a tempo de conceber uma leitura inovadora, optamos por realizar uma mostra retrospectiva, que apresenta em ordem cronológica, de 1964 a 2012, as diversas fases do trabalho de Magliani, acompanhada de uma cronologia ilustrada. Para compartilhar com o público a instigante personalidade da artista e sua multiplicidade, que tanto nos impressionou, também permeamos o percurso da mostra com algumas de suas frases e fotos”, destacou. Os curadores da mostra de 2022 foram Denise Mattar e Gustavo Possamai.

A artista usava a estética neoexpressionista para refletir sobre a situação política do país e a condição da mulher e do corpo feminino na sociedade | Crédito: Divulgação

A artista evitava definições rígidas e associações a rótulos ou modismos, mantendo uma produção marcada pela recusa ao previsível. Sofreu racismo em vários momentos. Mas nunca esqueceu suas origens. No início de sua carreira, em 1973, participou da exposição Três pintores negrosorganizada por um movimento antirracista em Porto Alegre, em homenagem à memória de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no Brasil.

O trabalho de Magliani se caracteriza por temas influenciados pelo movimento feminista e por utilizar a estética neoexpressionista para refletir sobre a situação política do país e a condição da mulher e do corpo feminino na sociedade. Ainda assim, fazia questão de não se declarar militante. Reconhecida por suas ilustrações em jornais e revistas de caráter revolucionário, bem como por sua atuação no teatro vanguardista, sua arte representa uma forma de crítica e denúncia, especialmente em relação à percepção das mulheres negras na sociedade.

No final da década de 1970, em meio ao contexto político do regime militar brasileiro, Maria Lídia Magliani produziu pinturas que retratavam corpos grandes, frequentemente autorreferenciais. Em suas composições, os corpos aparecem comprimidos, como se estivessem prestes a ultrapassar os limites das vestes e do próprio suporte da tela. Elementos associados ao neoexpressionismo, situados entre a pintura e o desenho, tornaram-se centrais em sua poética e se consolidaram ao longo de sua trajetória artística.

Em suas composições, os corpos aparecem comprimidos, como se estivessem prestes a ultrapassar os limites das vestes e do próprio suporte da tela | Crédito: Divulgação

Magliani manteve relações duradouras no meio artístico, entre elas a parceria com a galerista Tina Zappoli, com quem trabalhou desde a década de 1970, antes mesmo da fundação da Galeria Zappoli, em Porto Alegre, quando o espaço ainda se chamava Galeria Tina Presser.

Parte de seu acervo integra o Núcleo Magliani, mantido no Estúdio Dezenove, no bairro de Santa Teresa, no Rio, sob a curadoria e cuidado do artista plástico Júlio Castro, seu amigo e colaborador. Somou, ao longo de sua carreira, mais de 100 exposições individuais ou coletivas. No fim da vida, já invisibilizada pelas instituições e pelo sistema, passou por dificuldades financeiras. Chegou a morar em um quarto simples de uma pensão no boêmio bairro da Lapa no Rio.

Exposições

•             1966 – 1ª Exposição Individual, Galeria Espaço, Porto Alegre, Brasil

•             1967 – 3º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Campinas, São Paulo, Brasil

•             1977 – Exposição Individual, Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio Grande do Sul

•             1979 – Artistas Gaúchos, Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, Washington, D.C., Estados Unidos

•             1981 – Desenho e Gravura no Rio Grande do Sul, Museu de Arte do Paraná (MAP), Curitiba, Brasil

•             1983 – Maria Lídia Magliani, Centro de Estudos Brasileiros, Assunção, Paraguai

•             1983 – 17ª Bienal de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, Brasil (Curador: Walter Zanini)

•             1987 – Exposição Retrospectiva, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

•             2022 – Individuais no Estúdio Dezenove e na Fundação Iberê Camargo

•             2022 – É Infinito Agora, Estúdio Dezenove, Rio de Janeiro

•             2023 – FUNK! Um grito de ousadia e liberdade, Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro

•             2023/2024 – Magliani Gráfica – Itinerâncias: Rio Grande do Sul, Juiz de Fora, Minas Gerais

Prêmios

•             1965 – Salão de alunos do Instituto de Artes / Ufrgs (Menção Honrosa)

•             1993 – Panorama da Arte Brasileira, São Paulo, Brasil (Menção Honrosa)

•             1995 – 46º Salão de Abril, Fortaleza, Ceará, Brasil (homenageada)

Coleções

•             Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), São Paulo

•             Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo

• Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS), Porto Alegre

•             Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre

• Galeria Espaço Cultural Duque, Porto Alegre

•             Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro

•             Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), Florianópolis

•             Museu Afro Brasil, São Paulo

• Fundação Vera Chaves Barcellos, Porto Alegre

•             Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), Porto Alegre

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