Entre o mar e a cidade, Iemanjá e Navegantes mobilizam fé, memória e luta por reparação

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“Quantos nomes têm a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá.
Onde ela vive?
Onde ela mora?
Nas águas, na loca de pedra,
Num palácio encantado no fundo do mar.
Qual é seu dia, Nossa Senhora?
É dia 2 de fevereiro.
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.”
(trechos da música “Iemanjá, Rainha do Mar”, interpretada por Maria Bethânia)

“Iemanjá é a energia feminina presente na força das marolas e das grandes ondas, com propriedades inclusive curadoras. É a mãe dos peixes, na visão do mundo africano, pela imensidão das águas e pela riqueza que guarda em suas profundezas, é a orixá de todas as cabeças”, define a ialorixá Iyá Vera Soares, do Memorial de Matriz Africana 13 de Agosto e coordenadora nacional do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma).

Celebrado em diversas cidades do país, o dia 2 de fevereiro mobilizou o litoral gaúcho, como a cidade de Capão da Canoa, e Porto Alegre em torno das homenagens a Iemanjá e a Nossa Senhora dos Navegantes. A data reúne manifestações religiosas e culturais que atravessam gerações e expressam tanto a devoção do povo de terreiro quanto as marcas históricas do sincretismo religioso no Brasil.

Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Rio Grande do Sul e coordenador da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), o babalorixá Baba Diba de Iemanjá, detalha a origem e o significado da divindade.

“O nome Iemanjá vem do iorùbá, que junta três expressões: Iye, que é mãe; Omo, filhos; e Ejá, peixe, ou seja, Iemanjá, mãe cujos filhos são peixes. Para além de ser a senhora dos mares e oceanos, ela é a mãe que pariu o mundo e tudo que nele habita e tem vida, senhora de todas as cabeças, do pensamento e do equilíbrio mental. A grande mãe ancestral”, afirma.

Sincretismo e resistência

Ao descrever Iemanjá, Iyá Vera Soares pontua que, para quem não está familiarizado com as tradições de matriz africana a partir de seu modo civilizatório de viver, a duplicidade das representações sagradas, enraizada no sincretismo, estratégia pensada e praticada pelos povos oriundos da diáspora africana, pode dificultar a compreensão de que as energias do sagrado cristão, chamadas de santos e santas, se sobrepuseram historicamente ao sagrado africano.

De acordo com ela, nesse processo, o sagrado africano é intrínseco às energias da natureza e à essência dos valores indispensáveis à vida, organizados em sistemas fundantes como o ar, a terra, as matas, as folhas, as rochas, as águas, as nascentes e fenômenos como raios, relâmpagos e trovões. A ialorixá acrescenta que foi a partir desse olhar que o sistema escravagista negou o direito à liberdade de fé e de expressão trazidos pelos ancestrais africanos, sob pena de mutilações.

“Como forma de sobrevivência, criaram a dualidade das referências sagradas como contraponto, porque a natureza é o nosso altar”, completa. Conforme pontua Iyá Vera Soares, o sincretismo religioso no Brasil nasceu como estratégia de sobrevivência diante da violência imposta aos povos da diáspora africana durante o sistema escravagista.

Segundo ela, a sobreposição das representações cristãs às divindades africanas ocorreu em um contexto de negação da liberdade de fé e de expressão.

No Rio Grande do Sul, de acordo com a ialorixá, Iemanjá é sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes a partir da devoção de pescadores, marinheiros e trabalhadores da navegação, hoje também surfistas e mergulhadores. Ela observa que, junto aos festejos católicos, povos tradicionais de matriz africana e comunidades de terreiro se reúnem para homenagear a orixá em um momento específico, o que, para ela, evidencia a necessidade de reparação histórica.

Estratégia de proteção e conflitos

Segundo Baba Diba, a associação entre orixás e santos católicos foi uma estratégia de sobrevivência diante da perseguição religiosa.

“O sincretismo religioso foi uma estratégia de proteção da vida e de resistência por conta do racismo, do Estado confessional da época e da Santa Inquisição, que mandava queimar e taxavam de bruxas as ialorixás e babalorixás”, relata.

Esse arranjo, prossegue ele, atravessou décadas e foi transmitido entre gerações. “No altar mantinham os santos católicos e atrás das cortinas o verdadeiro assentamento, mas é inegável que no dia 2 de fevereiro é a energia desta grande senhora dos mares que circula. No interior da igreja se festeja Nossa Senhora dos Navegantes e, do lado de fora, a grande festa a Iyemonja”, descreve.

“Iemanjá é a energia feminina presente na força das marolas e das grandes ondas, com propriedades inclusive curadoras”, descreve Iya Vera soares | Foto: ana c

Para o povo de terreiro, a data é dedicada à gratidão pela terra, pela água e pela vida. O reconhecimento se materializa em oferendas lançadas ao mar ou conduzidas por barcos que seguem mar adentro com presentes e pedidos destinados à divindade. “Nos terreiros, os tambores e atabaques tocam para festejar Iemanjá e ela se manifesta bela e exuberante para receber as homenagens e abençoar seus filhos”, afirma Baba Diba.

O babalorixá observa que o sincretismo permanece presente nos dias atuais, especialmente entre adeptos da Umbanda e das tradições de matriz africana que preservam práticas centenárias. Ao mesmo tempo, reconhece que a fusão entre devoções pode gerar tensões. “Causam aborrecimentos a muitos adeptos do catolicismo e também das outras tradições. As contrariedades e conflitos variam conforme a compreensão de cada padre e cada pai ou mãe de santo”, pontua.

Na cultura popular, contudo, a confluência de símbolos segue viva. “É para ela que vão os presentes, orações e pedidos”, diz. Segundo ele, batuqueiros e umbandistas celebram a senhora dos mares a partir de diferentes imagens: seja Nossa Senhora dos Navegantes, a figura de Iemanjá de cabelos longos e corpo violáceo soltando pérolas ou a representação da mulher negra de seios e corpo fartos. “É o momento em que as cabeças diversas se unem em um misto de energia e axé singulares”, conclui.

Por sua vez, Iyá Vera Soares defende reparação histórica. “Precisamos da nacionalização do Dia de Iemanjá, desconstruindo o sincretismo de Nossa Senhora dos Navegantes, nome cristão, e legitimando o Dia de Iemanjá como reparação aos povos oriundos da diáspora africana”, defende.

Celebrações no litoral

A celebração em Capão da Canoa teve início ainda no domingo (1º), com o bate-folhas sagrado e a caminhada levando a imagem de Iemanjá até o mar. Sobre a festa no litoral, Iyá Vera Soares afirma que a celebração é marcada por “momentos de entrega de esperanças”, com as orlas cobertas por oferendas entregues em troca de agradecimentos e pedidos de misericórdia. “As águas se comunicam nos banhando e deixando a sensação de bem-estar, em um despertar de fé”, pontua.

Ela acrescenta que as homenagens à orixá mobilizam milhares de fiéis ao longo de toda a orla marítima. Segundo Iyá Vera, terreiros e casas de tradição se organizam conforme seus próprios fundamentos para realizar a saudação às águas.

Com quase cinco décadas de trajetória religiosa, Maria da Graça, conhecida como Mãe Graça de Oiá, celebrou a realização de mais uma edição da tradicional festa em homenagem a Iemanjá em Capão da Canoa, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Na religião desde 1977, ela destacou a permanência do evento na cidade ao longo das últimas três décadas.

Segundo Mãe Graça, a celebração já foi realizada em outros municípios da região antes de se consolidar no local atual. “Antes nós fazíamos em Cidreira, depois Tramandaí”, contou.

Ela ressaltou que a data é marcada por pedidos coletivos e pela dimensão espiritual da procissão. “Hoje realmente é uma data muito especial, uma data que todos se vão pedir por saúde, por felicidade, por paz, por amor, por união familiar, sucesso”, disse.

Durante a fala, a ialorixá também dirigiu uma mensagem aos participantes e à comunidade que acompanha o cortejo. “Que essa grande mãe possa estar abençoando, protegendo e amparando a todos. É o nosso desejo, é o desejo do Ilê Africano Reino de Oiá para todos os simpatizantes, amigos, irmãos e principalmente os meus filhos e meus netos que estão aqui acompanhando a procissão. Muito obrigada”, concluiu.

Celebração em Capão da Canoa contou com o tradicional Bate Folha  | Foto: ana c

Ancestralidade, luta e memória

Ainda durante as celebrações, foi realizada uma roda de conversa. Iyá Vera afirmou que o encontro surgiu da necessidade de aprofundar os debates sobre racismo, violência de gênero e políticas públicas voltadas aos povos tradicionais de matriz africana.

Segundo a ialorixá, a iniciativa resultou na criação de um projeto e de um grupo de trabalho voltados à formação social, política e cultural dessas comunidades, além da cobrança por reparações históricas junto ao poder público.

“Não tem dinheiro que pague o processo escravagista. Então tem que ter políticas”, declarou, defendendo que a mobilização alcance diferentes esferas institucionais.

Ela destacou a centralidade da água, relacionando espiritualidade e cuidado ambiental. “Toda a vida passa pela água. Se não tiver água na terra, não tem comida”, afirmou, alertando para o sofrimento de rios e mares.

Iyá Vera vinculou ainda o combate ao racismo à luta feminista e denunciou o que classificou como uma política de extermínio das mulheres. “É uma violência instaurada contra as mulheres, como se a gente regredisse aos tempos bárbaros”, disse, situando essa resistência na trajetória histórica dos povos africanos e afro-diaspóricos e na preservação dos saberes por meio da oralidade.

A ialorixá cobrou a implementação efetiva de políticas públicas, criticando a distância entre discursos oficiais e ações concretas. Falando em um espaço comunitário e religioso, Iya Vera afirmou que os territórios tradicionais seguem sendo locais de resistência e mobilização. “É neste lugar que é nosso, que é público, que a gente vem gritar que chega de violência”, disse, ressaltando que a insegurança tem substituído o respeito nas relações sociais.

Para ela, não bastam documentos ou pronunciamentos institucionais: é preciso garantir proteção real às mulheres de todas as origens sociais e raciais.

A ialorixá também defendeu o respeito às tradições das religiões de matriz africana e à ancestralidade, afirmando que mudanças não podem descaracterizar práticas sagradas construídas ao longo de gerações. Iyá Vera pediu a aplicação concreta das políticas de direitos humanos, a humanização das forças de segurança e questionou as prioridades do Estado ao afirmar que é preciso combater a miséria, e não as pessoas.

Ao final, reforçou que a efetivação das medidas exige investimento público e celebrou alianças institucionais, como a parceria com o Memorial da Matriz Africana, para combater a intolerância religiosa e reduzir a violência. Ela também criticou a folclorização das religiões de matriz africana e defendeu uma cobertura jornalística que rompa estereótipos, ressaltando a ancestralidade e o papel político e espiritual das mulheres na condução das mobilizações.

Sob sol forte, a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes reuniu milhares de fiéis  | Foto: Fabiana Reinholz

Nossa Senhora dos Navegantes

Já na capital gaúcha, milhares de fiéis, muitos carregando rosas brancas e azuis, ocuparam as ruas para celebrar a padroeira da cidade. Com o tema “Com Maria somos filhos amados”, a programação da 151ª edição da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes começou às 7h, com missa na Igreja do Rosário.

Logo após, a procissão seguiu pelas ruas do Centro Histórico e pelas avenidas Júlio de Castilhos e Castelo Branco, reunindo uma multidão de devotos ao longo do trajeto de aproximadamente 4,5 quilômetros até o Santuário dos Navegantes, na zona norte. A procissão foi marcada por cânticos, orações, destacando a necessidade de um olhar para as pessoas em situação de rua, a situação da violência contra as mulheres e da importância da fé.

Entre os fiéis que realizaram o percurso estava a moradora de Gravataí Rosa Soares, de 77 anos, que contou participar todos os anos da Procissão de Navegantes em Porto Alegre desde que sobreviveu a um afogamento em 2012. Segundo ela, a presença constante no evento é resultado de uma promessa feita após a experiência vivida no mar. “É muito importante. Eu fiz uma promessa pra vir sempre porque ela me salvou do mar”, relatou.

 Rosa Soares, de 77 anos, disse ter sido “resgatada” por Nossa Senhora | Foto: Fabiana Reinholz

Rosa afirmou que estava se afogando quando passou a pensar em Nossa Senhora e acredita que foi salva por intercessão da santa. “Eu tava me afogando e aí eu pensei nela e ela veio em mim e me salvou.”

O episódio aconteceu há mais de uma década, quando ela nadava no mar e acabou sendo puxada por um desnível no fundo. “Tinha um buraco assim, cada vez me afundava mais e mais. Eu tava vendo que eu tava enchendo o pulmão, a barriga de água salgada, aquilo ruim, né? Eu fiquei mal”, descreveu.

Em meio ao desespero, contou que recorreu à fé. “Comecei a pensar em Nossa Senhora e a Senhora dos Navegantes veio e me salvou.” Desde então, passou a frequentar a procissão anualmente, viajando de Gravataí até a capital para cumprir a promessa.

A moradora de São Leopoldo Juliana Catarina da Silva contou que voltou à Procissão de Navegantes após 12 anos de ausência, motivada principalmente pelas dificuldades de conciliar o trabalho com a data da celebração. Católica, ela explicou que, por não ser feriado em seu município, só conseguia participar quando obtinha folga.

“Às vezes caía em dias em que eu não conseguia sair do serviço ou no fim de semana, que é o meu aniversário e a família já estava reunida em casa. Hoje deu certo porque é segunda-feira, o pessoal está trabalhando e eu consegui vir”, relatou.

Silva acrescentou que, ao longo desse período, comparecia apenas quando conseguia liberação do empregador. “Caso contrário, não dava”, resumiu, explicando que atua na área administrativa.

Ao falar sobre a importância da celebração, ela destacou a devoção a Nossa Senhora e também a Iemanjá, associando as duas figuras espirituais em sua experiência de fé. “Eu amo essa data, amo a Nossa Senhora. Sou muito devota das duas. Como eu não vou à praia, eu venho aqui”, disse.

Questionada sobre a relação entre as duas devoções, Juliana afirmou: “Iemanjá é minha mãe. O que eu peço a ambas, eu sempre fui agraciada. Para mim, as duas são muito importantes.”

Força histórica e simbólica

O cardeal Dom Jaime Spengler, arcebispo da capital gaúcha e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), destacou a força histórica e simbólica da Procissão de Navegantes, realizada há 151 anos em Porto Alegre, e a classificou como a expressão religiosa mais vigorosa da região. Segundo ele, o sincretismo religioso também está presente na celebração, mas a reverência e a devoção a Nossa Senhora ultrapassam as diferenças de compreensão da fé.

Na avaliação do religioso, a figura de Maria assume ainda maior relevância no atual contexto do Rio Grande do Sul, marcado por altos índices de feminicídios e violência contra as mulheres. Para o arcebispo, recordar Maria é uma necessidade. “Ela é para nós exemplo de mulher, mas também mulher de oração”, disse, acrescentando que não há projeto humano que se sustente sem espiritualidade.

O arcebispo ressaltou a importância da solidariedade, que, segundo ele, tem se manifestado de forma intensa entre as comunidades gaúchas, especialmente após períodos de crise.

O líder religioso pediu que Nossa Senhora continue sendo “luz, referência, exemplo, intercessora e mãe” para a população. “Nós temos não poucos exemplos de fé”, afirmou.

O cardeal também observou a participação intensa dos fiéis ao longo do trajeto da procissão. “Mesmo aqui na procissão hoje, quanta gente caminhando descalço. São jovens, são idosos, pessoas que encontram sustentação para o cotidiano da vida na fé, na experiência do encontro com o Senhor e com sua mãe”, concluiu.

Entre oferendas ao mar, promessas cumpridas nas ruas da Capital e rodas de conversa sobre racismo, gênero e políticas públicas, vestidos em sua maioria com as cores azul e branco, as celebrações do 2 de fevereiro no Rio Grande do Sul mostraram que a devoção a Iemanjá e a Nossa Senhora dos Navegantes segue atravessando gerações, ora em convivência, ora em tensão, e permanece como espaço de memória, resistência e reivindicação por justiça histórica e preservação das águas.

* Com a colaboração de ana c

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