O jogo de Kassab e a disputa na direita

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A filiação do presidenciável e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD de Gilberto Kassab surpreendeu e colocou uma pulga atrás da orelha de quem acompanha o cenário político e eleitoral.

O PSD passou a reunir nas suas fileiras três governadores de estados importantes, que já apresentaram seus nomes para disputar a eleição presidencial deste ano: Ratinho Júnior, do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul e, agora, Caiado.

O que está por trás dessa movimentação de Kassab?

Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo e considerado o nome mais forte para o pleito, frustrou a expectativa de ser o candidato de unidade da direita à Presidência com apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo pai, diminuiu as margens para qualquer candidatura fora da polarização entre esquerda e extrema direita.

Nas últimas pesquisas realizadas, o presidente Lula lidera na faixa de 35%, enquanto Flávio se consolidou em segundo lugar com mais de 20%.

O levantamento Genial/Quaest, divulgado em 14 de janeiro, testou um cenário com Flávio e Tarcísio. Lula ficou em primeiro lugar com 36%, enquanto Flávio teve 23% e Tarcísio somente 9%.

A pesquisa sinaliza que qualquer nome fora da área de gravitação de Bolsonaro no campo da direita terá muita dificuldade para se consolidar e passar para o 2º turno.

Assim, o problema para a direita não-bolsonarista não é simplesmente encontrar o melhor nome para a disputa. Na prática, essa é uma questão secundária.

O desafio central é abrir uma fresta entre as duas candidaturas com maior apelo na sociedade e demonstrar a viabilidade de um terceiro campo político disputar a presidência.

A insegurança em relação à capacidade desse campo político levou Tarcísio a abdicar da disputa presidencial, mesmo sendo o preferido dos partidos da direita não-bolsonarista, da mídia empresarial e do grande capital.

Foi por esse mesmo motivo que Caiado, preterido pelo União Brasil, se filiou ao PSD e entrou no barco de Kassab junto com Ratinho e Leite.

O que está em jogo nessa movimentação não é somente a eleição deste ano, mas a disputa pela hegemonia no campo da direita.

Bolsonaro se impôs na direita ao vencer a eleição de 2018 e se consolidou como a principal liderança política, depois de 24 anos da polarização entre PT e PSDB.

A direita com o discurso de compromisso com a democracia e de “modernização” do Estado, que emergiu com o fim da ditadura militar e se organizou em torno dos tucanos, se esfacelou.

Uma parte foi para o extrema direita e a outra aderiu ao projeto Lula em 2022. Uma terceira parte caiu no fisiologismo político. Perdeu a perspectiva de poder.

A aposentadoria de Lula das urnas depois da sua última eleição e a prisão de Jair Bolsonaro colocam a necessidade desse campo se reorganizar e se consolidar para fazer a disputa do governo federal.

Um eventual segundo turno do presidente Lula contra Flávio Bolsonaro vai desenhar o cenário dos próximos anos e dar sobrevida à extrema direita.

Por isso, esse jogo começa agora e a direita não-bolsonarista precisa ter um bom desempenho nesta eleição.

Assim, mostrar que tem capacidade de enfrentar a esquerda e disputar com o bolsonarismo a hegemonia no campo da direita, independente de nomes e partidos.

O grande capital, inclusive, aposta nessa via para superar a disputa entre os campos de Lula e Bolsonaro e constituir uma unidade de todas as suas frações em torno de uma candidatura que expresse seu projeto.

Kassab maneja a ambição dos governadores e tenta fortalecer seu partido, que precisa se transformar em um polo político autônomo.

Para isso, garante que o PSD terá uma candidatura própria, dá liberdade para que seus pré-candidatos defendam as suas ideias e trabalhem para se viabilizar. No entanto, mantém interlocução com a esquerda e extrema direita. Ganha em qualquer cenário.

Tarcísio, inclusive, se emancipará de Bolsonaro somente quando se consolidar um novo campo da direita com força para conduzir a disputa pelo comando do país.

Até lá, o governador de São Paulo vai permanecer na sombra de Bolsonaro e reforçar a fidelidade para manter o vínculo com seus eleitores.

Ao mesmo tempo, assiste à movimentação de Kassab, que terá que mostrar que o projeto Tarcísio 2030 tem viabilidade para arrastá-lo.

Ratinho, Leite e Caiado já estavam no mesmo barco das lideranças de direita sem espaço para disputar o Palácio do Planalto à revelia do bolsonarismo.

Agora, juntos no partido de Kassab, têm o desafio comum de desobstruir o caminho, que passa por suplantar a família Bolsonaro e reorganizar o tabuleiro político nacional.

*Igor Felippe Santos é jornalista e analista político com atuação nos movimentos populares.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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