Em 2025, o Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro e estupro de vulnerável. São 227 vítimas por dia, nove por hora, um estupro a cada seis minutos. Esses números, divulgados pelo Ministério da Justiça, não são apenas estatísticas: são provas de que o país segue falhando, de forma sistemática, em garantir o direito básico à integridade física e psicológica de suas crianças, adolescentes e mulheres.
Embora o total de registros tenha sido 11% menor que em 2024, quando mais de 93 mil casos foram contabilizados, essa redução não pode ser comemorada. Ao longo da última década, o número de vítimas aumentou 72%, revelando que a violência sexual não é um fenômeno episódico, mas uma epidemia estrutural. O recuo pontual em um ano não altera o fato de que o Brasil convive com níveis alarmantes de estupro, naturalizados pela sociedade e negligenciados pelo poder público.
O dado mais revoltante é que mais de 70% das vítimas são menores de 14 anos, quase 59 mil crianças e adolescentes. Isso escancara uma verdade incômoda: a violência sexual no Brasil acontece, majoritariamente, dentro de casa, praticada por parentes, conhecidos, vizinhos, padrastos, pais e figuras de autoridade. O lar, que deveria ser espaço de proteção, torna-se cenário de abuso. E o Estado, que deveria intervir, muitas vezes se omite.
Os estados com maior incidência de estupro por 100 mil habitantes são Roraima, Mato Grosso do Sul e Rondônia e não lideram esse ranking por acaso. São territórios marcados por fronteiras porosas, rotas de tráfico, exploração sexual, presença de garimpos ilegais e grandes empreendimentos com concentração masculina e pouca fiscalização. Também são regiões onde o poder público é historicamente frágil, as políticas sociais são insuficientes e a rede de proteção às vítimas é precária. Onde o Estado é ausente, a violência prospera.
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Mas reduzir o problema à geografia seria conveniente demais. O estupro é, sobretudo, produto de uma cultura patriarcal que normaliza a dominação do corpo feminino e infantil. É sustentado por um sistema que desconfia da vítima, relativiza a violência, banaliza o abuso e protege o agressor. É alimentado por uma justiça lenta, por investigações falhas, por políticas públicas tímidas e por uma sociedade que ainda prefere o silêncio ao confronto.
É preciso dizer com todas as letras: o Brasil não leva a sério a violência sexual. A educação sexual nas escolas é atacada por discursos moralistas, a rede de atendimento às vítimas é subfinanciada, os serviços de saúde e assistência social são sobrecarregados, e os agressores seguem, em grande parte, impunes. Enquanto isso, crianças continuam sendo violentadas em silêncio.
Os dados oficiais ainda subestimam a realidade. A subnotificação é regra, não exceção. Muitas vítimas não denunciam por medo, vergonha, dependência econômica ou pressão familiar. Outras sequer compreendem que estão sendo vítimas. Portanto, quando o país registra 83 mil casos, o número real provavelmente é muito maior.
Tratar o estupro apenas como um problema criminal é insuficiente. Ele é uma questão de direitos humanos, de saúde pública, de educação e de justiça social. Exige investimento massivo em prevenção, educação, políticas de gênero, fortalecimento das redes de proteção e punição efetiva dos agressores. Exige, sobretudo, vontade política.
Um país onde uma criança é estuprada a cada seis minutos não pode se considerar civilizado. Cada estatística representa uma infância roubada, uma vida marcada por trauma, um futuro interrompido. A indiferença diante desses números é, também, uma forma de violência.
Se o Brasil não romper com a cultura do silêncio, da culpabilização da vítima e da tolerância à violência de gênero, continuará sendo um dos países mais perigosos do mundo para meninas e mulheres. E isso não é apenas uma tragédia social: é uma escolha política.
*Alessandra Costa é jornalista e assessora de imprensa, com atuação no setor artístico-cultural e política e expertise em gerenciamento de crise.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

