Outro dia recebi mensagem de alguém que não me autorizou a identificação, sequer informar o gênero.
A pessoa me dizia, sinteticamente: “Os meninos são criados e educados pelas mulheres. Pela mãe, logo cedo, e por professoras, na idade escolar”. E questionava: “Essa feroz rejeição às mulheres, seguido de violência extrema, não é originada lá atrás pelas próprias mulheres/mães/professoras?”
Arrematava, com a atrevida indagação: “O que as feministas tem a dizer sobre isso?” E solicitava um texto sobre o tema.
Deduzi que foi um alerta sobre a necessidade de estudarmos acerca das motivações psíquicas e as próprias raízes de um fenômeno que cresce e assusta. Mas não pode ser banalizado jamais.
Logo fui buscar minhas anotações acerca da obra fundamental de Simone de Beauvoir, O Segundo Sexopublicado no remoto ano de 1949. Pois, Simone, nesta monumental obra, já reconhecia que as mães, socializadas em um mundo totalitariamente patriarcal, reproduzem nos filhos os valores desse mesmo mundo deformado e deformante.
A mãe – escreve a grande feminista francesa de esquerda – é muitas vezes cúmplice na socialização do filho homem para o lamentável exercício da dominação.
Os fundadores da psicanálise, Freud e Lacan, a seu tempo, não desenvolveram uma teoria específica e exaustiva sobre o feminicídio como fenômeno social contemporâneo.
Jacques Lacan trata do tema muito brevemente, mas – a meu ver – acerta em cheio. Para ele, o sujeito, estruturado na lógica fálica (posse, controle, rivalidade), depara-se com o “gozo feminino”: uma satisfação autônoma da mulher que ele não pode possuir, compreender ou medir. A mulher existe fora dos seus domínios, e isso se torna insuportável.
O feminicídio – para Lacan – é a “passagem ao ato” final. Ao matar a mulher, o agressor fantasia que está matando o próprio mistério insuportável, o gozo que o desafiou. É uma tentativa desesperada e falha de restaurar uma ordem (a dele) que ruiu.
Para o presente tema, também é crucial conhecermos uma obra igualmente fundamental que é The Mermaid and the Minotaur: Sexual Arrangements and Human Malaise, da autora Dorothy Dinnerstein, de 1976. (Tradução: A Sereia e o Minotauro: Arranjos Sexuais e o Mal-Estar Humano)
A estadunidense Dinnerstein alerta que a sobrevivência da espécie humana – com plena saúde mental – exige uma mudança fundamental nos arranjos de criação dos filhos. Para que os seres humanos se desenvolvam como homens e mulheres plenamente formados, ambos os sexos devem participar do cuidado infantil, diz ela.
E argumenta: a criação exclusiva ou predominante por mulheres na primeira infância (a chamada “mãe exclusiva”) tem consequências profundas e negativas para a psique humana, tanto de meninos quanto de meninas, e forma a sólida base psicológica/imaginária do patriarcado conservador e da odiosa misoginia assassina.
Para a criança de ambos os sexos, a primeira figura de poder absoluto, amor e frustração é uma mulher (a mãe). Essa experiência inicial de dependência total e depois de separação gera uma ambivalência profunda: amor e ódio, desejo e medo.
Para se afirmarem como homens em um mundo simbólico que define “masculinidade” como “não-feminilidade”, diz Dinnerstein, os meninos precisam reprimir tudo que associe àquela primeira figura feminina (emoções, vulnerabilidade, dependência). O medo primitivo da mãe onipotente se transforma, na idade adulta, em desprezo e medo das mulheres. O desejo de controlá-las é uma tentativa de se defender simbolicamente daquele poder materno inicial.
Dorothy Dinnerstein complementa: esse arranjo não beneficia verdadeiramente os homens (que crescem emocionalmente mutilados e com medo do feminino) nem as mulheres (que são simultaneamente idealizadas e desprezadas). No entanto, ele se perpetua porque os próprios homens temem a perda de privilégio e as mulheres temem a perda de poder no único domínio que lhes foi concedido historicamente: o cuidado dos filhos.
A forma de romper esse ciclo psicossocial doentio, deformante, é através da paternidade igualitária e associada desde o nascimento.
Se os homens se tornarem figuras primárias de cuidado e afeto desde a primeira infância, a criança não associará mais o poder absoluto e a frustração apenas ao feminino, dissolvendo a crosta psicológica da misoginia envenenada, ensina Dorothy.

Feminicídio foi estimulado pelo bolsonarismo
A diagnose de Simone, Lacan, Dorothy, a mim, me parecem perfeitas. E ao mesmo tempo, assustadoras. Motivo: não há solução imediata, nem em prazo médio, nem longo. É assunto para várias gerações vindouras.
Para agravar, o feminicídio é fenômeno mundial, mas com incidência maior em alguns países, culturas e formações sociais distintas.
No Brasil, o feminicídio vem aumentando ano a ano. Eu associo esse crescimento dos crimes contra as mulheres à ruptura institucional (golpe) de 2016, somado aos trágicos agregados do desgoverno Temer e o advento do protofascismo bolsonarista.
O gesto de arminha de Bolsonaro é um simbolo forte e radicalmente violento. Inocência e humor zero. Ele fazia isso o tempo inteiro, inclusive com crianças e adolescentes. Há fartos registros fotográficos.
Foi uma continuada sugestão mnemônica à violência horizontal e como chave para solução de qualquer conflito, sobretudo os domésticos, e contra as mulheres.
É de sempre lembrar quando Bolsonaro afirmou que teve três filhos homens, e na quarta vez “deu uma fraquejada”: nasceu a menina chamada Laura.
Dedos formando arminha, portanto, é exemplo claro de como um gesto pode deixar de ser apenas um movimento e se tornar uma ferramenta de memória política e social.
Essa memória, hoje, está bulindo e alimentando mentes perturbadas de indivíduos fracos e influenciáveis à violência banalizada e estimulada por Jair Bolsonaro.
Um conjunto de outras violências – para além do feminicídio – igualmente foram vitaminadas pelo quadriênio presidencial da extrema direita do Brasil.
Recrudesceu a violência contra os animais, em todo o país. Vide o caso recente do cão comunitário Orelha, em Santa Catarina, e tantos outros.
O trânsito nas cidades grandes e médias apresenta situações violentas de indivíduos desatinados e mentalmente insanos.
Há violência simbólica nas redes sociais que vão desde a divulgação de fatos inventados até xingamentos fora de lugar.
Locais públicos com aglomerações populares, seja em praias, seja em shows musicais, restam inundados de lixo e rejeitos os mais disparatados e repugnantes. Violência direta contra o ambiente urbano e/ou natural.
Pessoas brancas em locais públicos, comércio em geral, humilham pessoas não-brancas por sadismo agravado por preconceito contra pobre em trajes modestos.
Como se pode notar, o feminicídio é o ponto mais alto da violência simbólica, que extravasa e alaga outras situações sociais gerando violência em cadeia para toda a sociedade.
Providências necessárias
Em 2025, o país atingiu um triste recorde histórico de feminicídio, com 1.470 casos registrados oficialmente, o que representa ao menos quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.
A resposta internacional a esse bárbaro crime combina endurecimento penal e políticas de prevenção integradas. Para referência, no Brasil, a principal medida recente foi o “Pacote Antifeminicídio”, de 2024, que tornou o crime autônomo e aumentou as penas para 20 a 40 anos de prisão, entre outras alterações.
É urgente uma articulação entre segurança, saúde, educação e assistência social. Em 2025, houve corte de 68% das verbas federais para combate à violência contra a mulher no Brasil.
Apenas 5,9% dos municípios brasileiros têm estruturas de acolhimento adequadas, como delegacias da mulher e casas-abrigo. O mais lamentável: a confiança nas instituições é baixa, sobretudo nos pequenos e médios municípios.
Padronizar a coleta de dados é essencial para formular políticas públicas baseadas em evidências e permitir comparações internacionais. O dado, hoje, é elementar para a ação pública responsável e cidadã.
Formular e aprovar lei para tipificar a “violência indireta” (controle financeiro, perseguição virtual), com penas de prisão de até três anos – como ocorre hoje em países europeus. A violência indireta é a primeira evidência hipotética de um futuro ato assassino.
Para encerrar, não esqueçamos a recomendação de Dorothy Dinnerstein: paternidade igualitária e associada desde o nascimento.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
Sugestão de leitura
1) Cinco Notas Psicanalíticas sobre o Feminicídiode Jacques Lacan.
2) Em que Pensamos Quando Falamos em Amor?de Élisabeth Roudinesco, biógrafa de Lacan.

