Pela terceira vez, moradores de Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais, viveram momentos de medo e desespero após o acionamento falso das sirenes de emergência da Anglo American.
O episódio ocorreu nesta quinta-feira (12), nas comunidades de São José do Jassém e Saraiva, e voltou a atingir populações próximas ao sistema Minas-Rio, onde há zonas de autossalvamento (ZAS) ligadas à barragem e aos diques da mineradora.
Relatos enviados por moradores ao Brasil de Fato MG descrevem um cenário de pânico generalizado, com pessoas correndo para pontos de encontro, crianças retiradas às pressas da escola e atendimento médico sendo prestado a quem passou mal durante a evacuação improvisada.
“Clima de pânico e terror na região”, resumiu um dos depoimentos, ao relatar que se tratava do terceiro acionamento falso das sirenes. De acordo com moradores do Jacé, o alerta soou no meio da tarde, pegando a comunidade de surpresa.
“As pessoas todas saindo correndo, e parece que foi um aviso falso. Passaram lá em casa falando que foi aviso falso”, contou um morador que estava chegando à cidade no momento do ocorrido.
Em outro relato, uma moradora classifica o episódio como “mais uma falta de respeito” com a população. Segundo ela, crianças de uma escola da comunidade foram levadas para o ponto de encontro antes do horário do recreio, sem lanche, água ou merenda.
“Tem gente passando mal, sendo atendida aqui na ambulância da empresa. As crianças estão lá no alto da igreja, com fome e com sede”, afirmou. Ainda segundo o depoimento, moradores aguardavam a chegada da polícia para registrar ocorrência.
Imagens e vídeos feitos por moradores mostram dezenas de crianças e adultos reunidos em área elevada, aguardando orientações. “Todo mundo desesperado, esperando resposta deles”, diz outro relato, enquanto aponta a situação das crianças sem alimentação.
“Terrorismo de barragem”
“O nome disso é ‘terrorismo de barragens’”, denunciou a deputada Bella Gonçalves. “A Anglo disse que foi um acionamento acidental, mas esse acidente produz efeitos psicológicos, danos enormes na população. Expõe comunidades vulneráveis a uma situação impensável. A gente vai representar ao Ministério Público, pra que ele peça a indenização das famílias por danos psicológicos e que também multe a mineradora Anglo, pelo terrorismo de barragens que tá fazendo em Conceição”, destacou.
O incidente ocorreu um dia depois que as famílias fizeram uma denúncia sobre a Anglo no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e no Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG), segundo a parlamentar.
Juliana Deprá, da coordenação estadual do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), destaca que, hoje, essas comunidades estão em processo de negociação para construção de um reassentamento coletivo.
“Em um momento muito delicado, inclusive, que a Anglo tenta a todo custo, impor os seus interesses sobre a comunidade. A comunidade tem sido muito firme em não aceitar propostas indignas e injustas da Anglo”, avalia.
Em virtude dessa mobilização notável das comunidades, Deprá endossa a fala de Bella Gonçalves ao dizer que o episódio se trata, mais uma vez, do uso do ‘terrorismo de barragens’ para pressionar um processo de negociação com a comunidade.
Anglo é barrada pelo TCE
Em janeiro, o TCE-MG suspendeu um processo de licenciamento da barragem da Anglo American, em que o objetivo era ampliar em pelo menos duas vezes a barragem de rejeitos que já existe na cidade, vinculada ao sistema Minas-Rio, o que motivou a preocupação e diversas críticas de moradores.
A representação enviada ao TCE-MG aponta que diversas comunidades podem ser ameaçadas pelo projeto, incluindo o Quilombo do Arrudas, o que motivou a interrupção do processo de concessão da licença ambiental.
A medida foi tomada de forma liminar pelo presidente do órgão, Durval Ângelo, após representação da deputada estadual Bella Gonçalves e do MAM, apontando os riscos do empreendimento para famílias que vivem na região.
Nota da empresa
Em nota, a Anglo American confirmou que houve um acionamento acidental das sirenes da barragem do sistema Minas-Rio, localizadas próximas a Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas. A empresa afirmou que não há situação de emergência nem necessidade de evacuação e que a barragem e os diques de contenção permanecem seguros, “sem qualquer desvio nos indicadores de estabilidade”.
Segundo a mineradora, assim que tomou conhecimento do ocorrido, equipes técnicas foram acionadas para verificar o sistema de sirenes, e os órgãos competentes foram comunicados. As causas do acionamento, de acordo com a empresa, estão sendo apuradas. A Anglo lamentou o ocorrido e informou que manterá a população e as autoridades informadas por meio de seus canais oficiais.
Histórico de acionamentos indevidos
O episódio desta quinta-feira se soma a outros casos semelhantes envolvendo as sirenes da Anglo American na região. Em 3 de janeiro de 2020, um acionamento equivocado atingiu as comunidades de São José do Jassem e Água Quente, também próximas a Conceição do Mato Dentro, provocando pânico entre os moradores.
Mais recentemente, em 12 de março de 2025, um novo acionamento indevido assustou moradores das comunidades Sapo, Turco e Cabeceira do Turco, no distrito de São Sebastião do Bom Sucesso.
Um documentário produzido pelo Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab) registrou a gravidade do impacto psicológico e social do episódio. Na época, a empresa informou que realizava manutenção nas sirenes e que houve um acionamento não programado da sirene TW2, relacionada ao dique 3.

