‘Esquerda não pode ter medo de criticar o STF’, afirma criminalista sobre Toffoli no caso Master

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A cada novo capítulo da investigação sobre o Banco Master, o que se escancara não é apenas um esquema bilionário de fraudes financeiras. É uma teia de “relações promíscuas” que, agora, atinge diretamente o coração do Judiciário brasileiro. O celular periciado de Daniel Vorcaro, dono do banco, trouxe à tona mensagens com o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que teria participação societária em um resort adquirido pelo Master.

“É uma pedrada na vitrine da República”, afirmou o advogado criminalista José Carlos Portella Jr. ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato. “Um conflito de interesses brutal. O ministro está diretamente relacionado à investigação e ao mesmo tempo tocando o caso. O melhor caminho seria ele se afastar e, confirmadas as acusações, renunciar ao cargo.”

Toffoli admitiu, em nota, ter sido sócio do empreendimento, mas nega qualquer irregularidade e se recusa a deixar a relatoria. Enquanto isso, o Centrão articula nos bastidores para mantê-lo onde está, um movimento que, para Portella, é movido por autopreservação. “Se o processo sair do segredo de Justiça, nomes de políticos, inclusive candidatos em 2026, podem vir à tona”, diz.

O criminalista fez um diagnóstico contundente sobre o dilema da esquerda brasileira diante do STF nos últimos anos. “Ficamos entre a cruz e a espada. De um lado, o golpismo, as Forças Armadas tramando a morte de opositores, do presidente Lula. Do outro, o STF, que, sobretudo com a atuação de Alexandre de Moraes, colocou os golpistas na cadeia.”

Portella pondera que o Judiciário nunca foi um poder confiável para a classe trabalhadora. “Historicamente, é o contrário. A condução de Moraes resgatou uma certa confiança no processo do golpe, mas isso não pode nos calar. A esquerda não pode ter medo de criticar o STF. Dar munição aos golpistas é uma coisa; silenciar diante de relações promíscuas é outra”, afirma.

Para o advogado, o caso Toffoli expõe uma ferida aberta no STF: a ausência de um código de ética. “Juiz não pode ter relações comerciais. É proibido. Se ele é sócio de uma empresa, quando for julgar uma causa trabalhista, como decidirá? A favor do trabalhador ou do empresário?”

Portella lembrou que há ministros no STF que são donos de redes de ensino — e julgam causas sobre terceirização, pejotização e direitos trabalhistas. “Qual tem sido a decisão? Fulminando direitos. Isso não é coincidência. E quando um ministro vai dar uma palestra com tudo pago por um banco, num resort, e depois julga causas desse banco, isso é conflito de interesses. Por isso muitos ministros são contra o código de ética. Eles têm muito a perder.”

Portella prevê um cenário sombrio para o STF. “Se Toffoli não renunciar, vai sofrer pressão do presidente da Corte ou da opinião pública. Se renunciar, Lula nomeará um novo ministro em pleno ano eleitoral, o que será combustível para a extrema direita. Não há saída fácil”, avalia.

“O melhor caminho ainda é a renúncia. Mas isso precisa ser pensado com cuidado cirúrgico. Estamos entrando em 2026, e cada movimento nesse tabuleiro pode detonar uma bomba.”

Carnaval, arte e política: Lula na avenida

Por fim, Portella comentou a polêmica em torno do enredo da Acadêmicos de Niterói, que homenageará o presidente Lula no Carnaval carioca. O TSE e a Justiça Federal negaram pedidos de censura prévia, mas admitiram que podem analisar representações futuras por propaganda eleitoral antecipada.

Para o criminalista, a discussão é infundada. “Isso é expressão artística popular. Escola de samba não é construção midiática, não é propaganda comercial. O povo está ali, escolhe o enredo, vive aquilo. Seria muito diferente se o PT tivesse pago pela escolha. Mas não é o caso”.

“Tomara que a escola apresente seu enredo de forma linda. A gente anda tão cheio de notícias ruins que um respiro no Carnaval faz bem.”

Para ouvir e assistir

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