Por Luísa Tejo* e Thiago Lima**
Desde o início dos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel contra o Irã, bem como das ofensivas do Irã aos países que sediam bases estadunidenses na região, a segurança militar tem ocupado manchetes e discursos de líderes mundiais. Há, porém, outra segurança que vem despertando uma grande e cada vez mais frequente preocupação: a segurança alimentar mundial.
Para trazer luz a essa ameaça, o Programa Alimentar Mundial (PAM) sim Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) – as duas organizações multilaterais mais importantes para o tema da Fome no mundo – lançaram o alerta de que a fome global pode atingir níveis sem precedentes devido à escalada do conflito no Oriente Médio. Este artigo se baseia fundamentalmente em publicações recentes dessas Organizações Internacionais.
Uma vez que existe uma íntima correlação entre os mercados de energia e de alimentos¹, as instabilidades da região, que é um centro energético mundial, afetam de forma potente a economia internacional. Isso se soma ao fato de que a insegurança nos mares impacta os custos de frete, seja pelos seguros cobrados ou pelos desvios de rota. Há, ainda, a atividade especulativa financeira, que busca obter lucros extraordinários explorando cenários de incerteza. Combinados, esses canais podem resultar na redução da oferta agrícola nos próximos meses, preparando o terreno para uma nova onda de aumentos nos preços dos alimentos dentro de aproximadamente seis meses. Essa expectativa, por sua vez, é combustível não apenas para a especulação, mas para o planejamento de ações protecionistas que, bem ou mal intencionadas, podem adicionar mais choques à oferta internacional.
A correlação entre insegurança alimentar global e conflitos armados localizados não é algo novo: em 2022, com o início da guerra na Ucrânia² e a crise no custo de vida decorrente dela, a fome global atingiu números recordes, afetando 349 milhões de pessoas. Ao longo daquele ano, os preços dos alimentos subiram rápido e demoraram a cair, impactando famílias vulneráveis, que ficaram sem acesso a alimentos básicos quase da noite para o dia e por períodos prolongados.
Embora o Índice de Preços de Alimentos da FAO permaneça abaixo dos níveis recordes registrados em 2022, o mercado internacional já indica sinais de que os preços de commodities importantes como arroz, trigo e óleos vegetais estão começando a subir. A análise do PMA mostra que, caso o conflito não termine até meados do ano e os preços do petróleo permaneçam acima de US$ 100 por barril, 45 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar quadros de fome aguda.
As instabilidades no mercado energético
O Golfo Pérsico assenta-se no coração dos mercados energéticos globais, uma vez que abriga alguns dos maiores produtores e exportadores de petróleo no mundo. O Estreito de Ormuz, a via marítima que conecta estrategicamente o Golfo Pérsico ao Mar Árabe, é o único ponto de saída dessas exportações para o mar aberto, por meio do qual transita cerca de um quinto do petróleo mundial. Com isso, a oferta da commodity torna-se extremamente sensível mesmo às menores instabilidades, levando a súbitos aumentos de preços e afetando economias por todo o globo. Em apenas alguns dias de conflito, o tráfego de petroleiros pelo Estreito sofreu queda de mais de 90%, passando de uma média próxima de 129 trânsitos de navios por dia para intervalos de apenas 3 a 6 por dia no início de março.
Energia é um recurso imprescindível para os transportes e a atividade agroindustrial, afetando diretamente a estabilidade econômica e a inflação. Nos primeiros dias de março deste ano, devido à precificação do elevado “prêmio de risco geopolítico”, os contratos futuros de petróleo bruto Brent subiram mais de 20 a 35% comparados aos níveis pré-conflito, atingindo brevemente patamares de US$ 115 a US$ 120 por barril. Com isso, a redução da oferta de petróleo repassa impacto aos níveis de preços mundiais, que sofrem aumentos significativos.
Os riscos elevados do fornecimento global de energia aumentam os custos dos insumos agrícolas e de logística, impactando os mercados agrícolas internacionalmente. A atividade se torna mais custosa aos produtores com o encarecimento dos combustíveis, e há custos crescentes por toda a cadeia de abastecimento, como as operações de plantio, a irrigação, o transporte, o estoque e o processamento de alimentos.
Os impactos no mercado mundial de fertilizantes
Além do petróleo, o Golfo Pérsico também é um grande hub internacional da produção de fertilizantes: países como Irã, Catar, Arábia Saudita e Omã estão entre os maiores exportadores de fertilizantes de nitrogênio, incluindo ureia e amônia. Nos últimos anos, a região respondeu por volta de 30 a 35% das exportações globais de ureia e 20 a 30% das de amônia, e cerca de 30% dos fertilizantes comercializados mundialmente passam pelo Estreito de Ormuz. Com as instabilidades do tráfego marítimo, as cadeias de abastecimento de fertilizantes vêm sendo significativamente afetadas, impedindo a circulação de cerca de 3 a 4 milhões de toneladas de fertilizantes por mês.
Menores aplicações de fertilizantes podem reduzir o rendimento das culturas e aumentar o risco de insegurança alimentar de forma direta e indireta, principalmente em regiões vulneráveis por meio das mudanças nas cadeias de abastecimento locais e a futura redução da produção nos maiores centros agrícolas globais.
A escassez dos fertilizantes agrava de forma desigual as vulnerabilidades de países da Ásia, África e América Latina que são dependentes dessas importações. Várias economias africanas, por exemplo, dependem fortemente de fertilizantes importados de produtores do Golfo e até mesmo elevações moderadas dos preços podem reduzir fortemente o uso do produto pelos pequenos produtores. De forma semelhante, produtores na América Latina que já enfrentam dificuldades no mercado devido aos baixos preços das commodities podem não ser capazes de lidar com os novos acréscimos nos custos dos insumos e terão que reduzir o uso de fertilizantes. Assim, países que já possuem significativos problemas estruturais estão mais severamente expostos aos choques decorrentes do conflito, sofrendo com a deterioração da produção agrícola e industrial e a redução do poder de compra das famílias.
A segurança alimentar nos países do Golfo Pérsico
Os países do Golfo são extremamente vulneráveis em relação à oferta de alimentos, uma vez que dependem de importações de muitos produtos básicos – em alguns deles, cerca de 70 a 90% dos alimentos básicos provêm de importações devido à agricultura doméstica limitada por questões climáticas e escassez de água. Essa dependência tem sido sustentável em tempos de paz por meio do comércio aberto e estocagem estratégica, mas encontra fraquezas críticas em situações de conflitos na região, resultando em uma ameaça imediata à segurança alimentar devido às instabilidades no transporte marítimo.
O fechamento do Estreito de Ormuz, que agora conta com outra camada de bloqueio imposta pelos Estados Unidos, também impõe desafios logísticos à segurança alimentar ao prejudicar a principal rota marítima de fornecimento de alimentos ao Golfo. Importações de trigo, arroz, açúcar, óleos vegetais e outros produtos alimentícios não encontram alternativas fáceis para chegar aos portos da região e as rotas alternativas são bastante limitadas.
Os países do Golfo de fato mantêm reservas estratégicas de alimentos que podem cobrir alguns meses de consumo, o que, somado à elevada renda per capita que permite a esses países comprar alimentos a preços mais altos, fornece uma certa resiliência a curto prazo. Porém, se o conflito e as perturbações nas importações persistirem por mais do que alguns meses, as nações do Golfo enfrentarão sérios desafios no abastecimento alimentar assim que as reservas se esgotarem. A partir daí, os preços domésticos dos alimentos podem aumentar acentuadamente e certos produtos se tornarão escassos, particularmente em países menores com menos estocagem ou cadeias de abastecimento menos diversificadas.
Geopolítica e comida
Esse conflito é apenas a mais recente demonstração da indissociabilidade entre a paz e a erradicação da fome. A segurança estratégica não pode ignorar a segurança alimentar: é preciso lembrar que, por trás do duro tabuleiro da geopolítica, existem milhões de famílias que precisam colocar diariamente a comida na mesa. Para o Brasil, torna-se imperativo construir uma Política de Soberania Alimentar que esteja plenamente atenta não apenas aos desafios nacionais, mas também a esta fase de maior hostilidade nas Relações Internacionais.
¹ Para compreender mais profundamente essa correlação, sugere-se a leitura do relatório “Mudança de poder: por que precisamos livrar os sistemas alimentares industriais dos combustíveis fósseis”, organizado pela Aliança Global pelo Futuro dos Alimentos.
² A esse respeito, ver Lima T, Dias A. A guerra da Ucrânia e a crise mundial de insegurança alimentar. In: Loureiro F, organizador. Linha vermelha: a guerra da Ucrânia e as relações internacionais no século XXI. Campinas: Editora da Unicamp;2022. p. 219–42.
*Luísa Tejo é graduanda em relações internacionais pela Universidade Federal da Paraíba e integrante do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais (FomeRI).
**Thiago Lima é professor do Departamento de RI da UFPB e pesquisador do FomeRI.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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