A história bate à porta da esquerda brasileira: a unificação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo como chave para uma nova estratégia política

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A história não costuma avisar quando chega. Mas, em alguns momentos, ela bate à porta com força suficiente para não ser ignorada. A esquerda brasileira vive um desses momentos. Às vésperas das eleições de 2026, o país se encontra diante de uma encruzilhada decisiva: ou o campo popular constrói uma nova estratégia política — enraizada no povo e no combate aos privilégios, capaz de enfrentar estruturalmente a extrema direita — ou assistirá à recomposição autoritária avançar sobre as instituições, os territórios, as pautas da classe trabalhadora e o imaginário social.

A derrota do golpe de 8 de janeiro de 2023 foi uma vitória democrática, mas insuficiente. O golpismo não foi desarticulado; foi apenas contido. Embora alguns (incluindo Jair Bolsonaro) estejam presos, a maioria de suas lideranças segue atuando livremente, disputando narrativas, ocupando espaços no Congresso, recebendo recursos de emendas parlamentares, controlando redes digitais e aguardando brechas para voltar a agir. Nesse cenário, a esquerda não pode se limitar à gestão do governo ou à defesa da institucionalidade, pois somos minoritários nesses espaços. A democracia brasileira não sobreviverá apenas com decisões judiciais corretas, nem com acordos eleitorais frágeis. Ela exige povo organizado, um programa político, econômico e social, e luta popular nas ruas.

É nesse ponto que a unificação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo deixa de ser uma pauta apenas organizativa e se transforma em questão estratégica central. A fragmentação do campo popular cobra um preço alto. Enquanto a extrema direita atua de forma coordenada, com narrativa simples e capilaridade territorial, as forças populares ainda operam de modo disperso e, muitas vezes, concorrencial, incapazes de acumular força social permanente e apresentar um projeto de profunda transformação da realidade brasileira.

As duas frentes foram criadas no final de 2015, diante da necessidade de articular a resistência para enfrentar o ajuste fiscal e o golpe contra a presidenta Dilma. Na época, houve a tentativa de unificar os movimentos sociais, populares e sindicais em uma única frente, mas não foi possível. Contudo, após dez anos de experiência, a realidade é que as melhores e maiores jornadas de mobilização ocorreram quando as duas frentes atuaram unificadas, a exemplo das seis grandes mobilizações de 2021, que levaram milhares às ruas sob o mote: “Fora Bolsonaro, defesa da democracia, comida no prato e vacina no braço”.

Unificar essas frentes não é apenas somar siglas ou agendas. É construir uma Frente Popular para atuar na construção de hegemonia social dentro da Frente Ampla, capaz de combinar mobilização de massas, elaboração programática e disputa política e eleitoral. A Frente Ampla é necessária para derrotar eleitoralmente a extrema direita, mas, sem protagonismo popular, ela tende a se reduzir a um pacto defensivo entre elites políticas. Sem povo organizado e luta política, a Frente Ampla administra limites; com povo organizado e um campo unido, teremos melhores condições de disputar rumos.

Essa Frente Popular precisa assumir tarefas urgentes. A primeira delas é exigir, de forma inequívoca, a punição dos golpistas de 8 de janeiro. Não se trata de um detalhe jurídico, mas de uma condição política para a estabilidade democrática. A impunidade alimenta o autoritarismo. Toda hesitação sinaliza fraqueza. Golpistas precisam ser responsabilizados para que o recado seja claro: não haverá novo ciclo de conciliação com quem tenta destruir a democracia.

Ao mesmo tempo, a Frente Popular deve enfrentar uma distorção perigosa: a dependência excessiva do STF como guardião da democracia. Essa centralidade crescente do Supremo, embora compreensível diante da ameaça golpista, precisa ser analisada com rigor crítico. O STF não é um ator neutro. Foi sob sua chancela que se consolidou o ciclo do guerra jurídicaque culminou na prisão política de Lula e alterou o curso das eleições de 2018. Foi também o Supremo que avalizou a retirada sistemática de direitos sociais e a precarização da vida da classe trabalhadora. O papel atual do tribunal como barreira ao golpismo é tático e circunstancial. Transformá-lo em fiador permanente da democracia é um erro; democracias não se sustentam pela tutela judicial, mas pela soberania popular organizada.

Outro ponto central é que essa frente declare, desde já, apoio à reeleição de Lula, incidindo na campanha para que a disputa seja de massa e politizada, pautando o combate aos privilégios, a justiça tributária, a taxação de bilionários, banqueiros e das bets (BBB), além do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho — ou seja, uma campanha polarizada entre o trabalho e o capital.

Esse reposicionamento exige enfrentar o núcleo duro da disputa econômica. O arcabouço fiscal representa hoje um limite estrutural ao projeto popular. O país precisa de responsabilidade social: avançar na tributação dos super-ricos e combater privilégios sem penalizar a massa de servidores públicos, fundamental para assegurar políticas de inclusão na ponta.

A construção dessa Frente Popular ganha ainda mais urgência diante do cenário internacional. O fortalecimento de Donald Trump sinaliza um novo ciclo de ofensiva imperialista. Assistimos a uma ordem mundial cada vez mais militarizada e regida pela força bruta, com consequências devastadoras sobre soberanias nacionais. Bloqueios, ataques e pressões econômicas são provas desse novo cenário. O Brasil, detentor de recursos naturais estratégicos e protagonista no Sul Global, não estará imune. Tentarão incidir nos rumos do país por meio de plataformas digitais, desinformação e até ameaças de ruptura institucional. Enfrentar esse projeto global autoritário exige soberania política e consciência internacionalista.

Nada disso será possível sem unidade real. A unificação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo deve ser o ponto de inflexão. Uma frente enraizada nas periferias, nos sindicatos e nos movimentos sociais é a única força capaz de sustentar a reeleição de Lula, derrotar a extrema direita e avançar em mudanças estruturais, além de fazer a disputa pós-Lula desde já, em outros patamares na luta de classes.

A história exige transformar resistência em estratégia e esperança em projeto político. 2026 será um teste de maturidade: ou o campo popular se unifica e avança, ou a extrema direita voltará a tentar impor, pela fraude ou pela força, o que não conquistou pelo voto.

Contra a extrema direita e o fascismo, pela unificação das frentes e pela reeleição de Lula.

*Thiago Duarte Gonçalves é coordenador nacional do Movimento Brasil Popular.

**Raimundo Bonfim é coordenador-geral licenciado da Central de Movimentos Populares, um dos fundadores da Frente Brasil Popular e atual diretor de Participação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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