Casteladas, a coluna de aforismos e pensamentos, traz o gênero literário conhecido por ser o oposto do calhamaço. A frase curta – ou o fragmento – de alegria instantânea, a serviço do humor.
§ Os Estados Unidos anunciaram, com a solenidade que só a mediocridade dos ambiciosos consegue produzir, que estão voltando à Lua. A notícia foi recebida com o entusiasmo de sempre: o contribuinte aplaude, o congressista aprova, e ninguém pergunta por quê.
A primeira ida, em 1969, tinha ao menos a desculpa da Guerra Fria. Havia um russo sendo humilhado, o que, para o americano médio, sempre foi motivo para qualquer empreitada. Agora não há russo, não há urgência, não há razão que sobreviva a trinta segundos de exame sóbrio. Existe apenas o instinto dos ianques de fincar uma bandeira em qualquer lugar disponível e chamá-lo de América.
A Lua, coitada, permanece como a encontraram: árida, silenciosa e desinteressada. Não tem petróleo, não tem eleitores, não tem consumidores. É, portanto, o único território que os Estados Unidos poderiam conquistar, sem piorá-lo. O que, conhecendo o talento estadunidense para a degradação, é menos uma garantia do que uma aposta.
Os americanos voltam à Lua porque não sabem mais o que fazer com a Terra. É a lógica daquele inquilino que, incapaz de lavar a louça, resolveu se mudar de casa.
§ Querido Tio Trump,
Tudo bem? Espero que sim, porque aqui eu tô tentando ser um bom aluno, igual o senhor sempre fala que gosta: disciplinado e obediente.
Escrevo essa cartinha porque a professora mandou a gente pensar em presentes criativos pra quem a gente gosta. Daí eu pensei: “dessa vez, eu vou caprichar de verdade.”
Então… surpresa!
Eu vou te dar o Brasil, Tio Trump!
É, o Brasil inteiro! Não é maquete, não é trabalho em cartolina, é o país mesmo, completinho, com rios, florestas e tudo.
O senhor vai gostar porque:
• Tem água pra dar e vender.
• Tem uns metais raros que parecem nome de Pokémon, tipo nióbio.
• E ainda vem com um povo animado, que fala alto, dança fácil e já vem com experiência em sobreviver a qualquer bagunça.
Meu pai também tá me ajudando. Ele disse que é importante agradar quem aperta o botão vermelho. Eu não entendi direito, mas concordei porque parecia inteligente.
Olha, eu espero que o senhor goste do presente. Eu fiz com muito carinho.
Se precisar embrulhar, posso mandar com fita verde e amarela.
Abraços do seu aluno mais aplicado.
Flavinho
P.S.: Depois disso, será que dá pra eu ganhar um passeio na Disney?
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

