Poucas vezes na história foi possível observar um chefe de Estado tão obcecado com algo quanto Donald Trump tem dedicado seus últimos meses a falar de uma ilha caribenha: “Vou cuidar de Cuba”, “(Os cubanos) vivem seus últimos momentos”, “Vamos (os EUA) entrar e explodir tudo pelos ares”, “Tomada de controle amigável”, “Queremos acabar com o Irã primeiro, mas Cuba é questão de tempo”.
Desde o ataque militar contra a Venezuela em 3 de Janeiro, foi difícil contar 3 dias seguidos em que Trump ou a cúpula de Washington não reforçassem o quão prioritários agora são seus “objetivos” em Cuba.
Há mais de seis décadas, a “Maior das Antilhas” enfrenta um bloqueio econômico imposto unilateralmente pelos Estados Unidos. Trata-se de uma política concebida para sufocar economicamente o país e deteriorar as condições de vida da população, como forma de pressionar o governo cubano.
Ao longo desse período, estima-se que os prejuízos acumulados ultrapassam US$ 150 bilhões, afetando diretamente áreas essenciais como saúde, educação, produção de alimentos, transporte e acesso à energia.
A questão energética é particularmente sensível. O acesso aos bens petrolíferos é fundamental para garantir eletricidade, transporte, funcionamento de hospitais e serviços públicos, além de permitir que milhões de famílias possam realizar algo tão básico quanto cozinhar seus alimentos. O bloqueio naval à Venezuela, o sequestro de embarcações petroleiras no Caribe e a ameaça de novas sanções contra os países que venderem combustíveis à Cuba são medidas para se causar explicitamente uma crise humanitária sem precedentes no país; tudo com a esperança de finalmente derrubar o governo da Revolução Cubana, que há 67 anos resiste não somente ao bloqueio, mas diversas outras tentativas de pressão e sabotagem.
O cerco energético atinge a própria reprodução da vida: transporte, eletricidade, hospitais, produção de alimentos e o funcionamento cotidiano das cidades. É uma forma de guerra econômica que aposta no sofrimento prolongado da população como instrumento de pressão política.
Por isso, demandar o envio de petróleo do Brasil para Cuba hoje não é apenas uma questão de autonomia comercial. É uma decisão política que envolve soberania, solidariedade internacionalista e o direito dos povos de existir sem coerção externa. Num continente marcado por séculos de dependência e intervenção estrangeira, gestos de solidariedade concreta entre nações latino-americanas assumem um significado ainda mais profundo e a única possibilidade de romper esse ciclo.
O próprio movimento social brasileiro e as organizações progressistas precisam intensificar essa agenda internacional. Durante os anos da ditadura militar brasileira e dos outros regimes de exceção na América do Sul, Cuba acolheu inúmeros perseguidos políticos, deixando claro seu compromisso com as lutas transformadoras e democráticas. É com essa compreensão que têm sido impulsionadas as campanhas de solidariedade conduzidas pela própria União Nacional dos Estudantes, pelo MST e pelo Movimento Brasileiro de Solidariedade à Cuba.
Isso diante de um cenário em que nem mesmo a condenação dos países do mundo ao embargo, praticamente unânime há mais de 30 anos nas votações da Organização das Nações Unidas (ONU), diminuiu a determinação dos EUA em piorar as condições de vida dos cubanos. Trump já sintetizou bem essa resolução, dizendo que uma vitória estadunidense contra Cuba seria a “cereja do bolo” de todas as suas intervenções globais, compreendendo o desejo de décadas da elite estadunidense.
A potência nuclear aponta suas armas contra um país que cometeu o “crime” de, no auge da Guerra Fria, expulsar o regime de um ditador que fazia da Ilha “parque de diversões” e cassino dos ricos estadunidenses, implementando um sistema socialista alternativo ao capitalismo em vigor até então.
Apesar de todas as dificuldades materiais, a Ilha Rebelde nunca deixou de representar esse desafio ao modelo estadunidense. Com declarada inspiração no pensamento de José Martí e no internacionalismo de Che Guevara, Cuba enviou brigadas médicas e apoio humanitário para dezenas de países ao longo das últimas décadas, inclusive durante a pandemia de Covid-19.
O próprio Brasil, aliás, possui relação emblemática com a solidariedade cubana: para além dos milhares de agentes de saúde cubanos que foram atuar nos rincões do país no marco do programa “Mais Médicos”, Cuba recebeu em sua terra brasileiros afetados pela tragédia do Césio-137 em Goiânia, usando da expertise que já haviam adquirido no tratamento solidário aos soviéticos contaminados pelo desastre de Chernobyl.
Defender Cuba da investida de Trump neste momento, ademais de um compromisso humanitário, é defender um princípio que atravessa a história da nossa região: a convicção de que nenhum país deve ser condenado ao isolamento ou ao sofrimento coletivo por escolher seu próprio caminho.
*Bianca Borges é presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e Erik Souza é diretor de relações internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE) e secretário executivo da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae)
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

