A memória é sempre um campo de batalha

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No último dia 24, completaram-se 50 anos do início da última ditadura cívico-militar na Argentina. Meio século se passou e, assim como no restante do continente, as feridas daqueles anos — os mais terríveis que o país irmão atravessou — continuam abertas.

A ditadura argentina — ainda com todas as suas particularidades — foi apenas um capítulo de uma longa história de repressões que, ao longo de todo o continente, foram orquestradas pelos setores dominantes de cada um de nossos países, em conjunto com o imperialismo estadunidense: o chamado Plano Condor. Esse plano coordenado de repressão teve como objetivo sufocar, a sangue e fogo, as lutas dos povos que, naquela época, sacudiam o continente, a fim de submetê-los ao imperialismo dos Estados Unidos.

Neste ano, a comemoração de 24 de março na Argentina voltou a encontrar o país sob um governo de ultradireita: o primeiro, desde a queda da ditadura, que reivindica abertamente a experiência genocida do último regime militar. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltam a desferir uma ofensiva contra todo projeto popular em nossa América.

Assim como o bolsonarismo e outros setores reacionários, a reivindicação da ditadura argentina por parte do governo de Javier Milei não é apenas um exercício negacionista do genocídio, mas a afirmação de que os setores dominantes e o Estado podem utilizar toda a sua força e brutalidade contra a organização popular, suas demandas e suas lutas.

A luta pela memória é sempre uma luta pelo presente: para reconstruir nossas histórias, nossa identidade e nossas esperanças.

Mesmo nesse contexto desolador, mais de um milhão de pessoas se mobilizaram rumo à emblemática Praça de Maio para exigir “Memória, Verdade e Justiça”. “Não seja covarde, lute como uma avó” foi uma das palavras de ordem mais repetidas na praça. Dessa forma, a multidão acompanhou as Mães da Praça de Maio no que foi a maior mobilização de 24 de março na história do país.

Símbolo universal de uma extraordinária dignidade, foram essas mulheres — mães e avós — que, nos momentos mais terríveis da história do país, enfrentaram — quase sozinhas — um Estado genocida que havia feito desaparecer seus filhos e entes queridos. “As loucas da Praça de Maio”: assim as chamava, naquele tempo, a imprensa canalha que silenciava os crimes da ditadura. Foram elas que, armadas com lenços na cabeça, nos quais levavam bordados os nomes de seus filhos, preservaram a memória de toda uma geração que deu a vida por um mundo melhor.

Foram suas lutas que permitiram abrir um processo inédito de julgamento contra os responsáveis pelo genocídio argentino. Também foram essas lutas que possibilitaram restituir a identidade de 140 netos que haviam sido roubados e apropriados pela ditadura.

É que a justiça nunca foi um presente, mas sim uma conquista dos povos. Ainda assim, falta muito.
Cinquenta anos após o golpe de Estado, muitas das Mães e Avós já não estão mais. Muitas partiram deste mundo sem saber o que aconteceu com seus filhos ou sem poder abraçar seus netos. Hoje, cabe às novas gerações assumir esse legado. Foram 30 mil os detidos/desaparecidos. São 30 mil razões para não esquecer, para não perdoar e para não se reconciliar; razões para continuar suas lutas.

Atualmente, no Brasil, uma série de importantes eventos culturais tem aberto debates sobre a última ditadura no país. Filmes que se tornaram mundialmente famosos permitiram conhecer — ainda que apenas um pequeno fragmento — essa história que ainda nos faz sangrar.

Consciente de sua história, a ultradireita reivindica a ditadura. Reivindica o legado de um país injusto, em que os privilégios não sejam questionados e os trabalhadores, camponeses, pobres, negros e mulheres não tenham lugar no projeto de nação.

Não basta repudiar os crimes da ditadura. É preciso reivindicar aquilo que a ditadura combateu: os sonhos insubordinados, as lutas insurgentes, a ousadia de um projeto que busca transformar tudo o que deve ser transformado, sem possibilismo nem cálculos politiqueiros mesquinhos.

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