A 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo acontece neste domingo (7) na Avenida Paulista. O evento, que ao longo de três décadas se transformou em uma referência internacional para o movimento LGBT+, chega à edição histórica em meio à celebração de conquistas importantes para a comunidade e a novos desafios diante do avanço de pautas conservadoras no Brasil e no mundo.
Sob o tema “30 anos da Parada SP: A rua convoca, a urna confirma”, a manifestação volta a colocar a participação política no centro do debate. Ao longo do percurso, cartazes vão relembrar os temas que marcaram a trajetória do evento, que acompanhou discussões sobre casamento igualitário, criminalização da LGBTfobia e direitos da população trans antes mesmo de muitos desses avanços serem reconhecidos pela Justiça.
Para Matheus Emílio, secretário-geral e diretor de imprensa e comunicação da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), a própria história da manifestação ajuda a explicar parte das transformações vividas pela comunidade nas últimas décadas.
“Boa parte, se não todos os direitos que hoje temos enquanto população LGBT+ passaram pela Avenida Paulista em algum momento”, afirma Matheus.
Primeiros passos
Antes de ocupar a Avenida Paulista e se tornar uma das maiores manifestações LGBT do mundo, a mobilização que deu origem à Parada começou de forma muito mais modesta.
Inspirados pelo legado da Revolta de Stonewall — episódio ocorrido em Nova York, em 1969, e considerado um marco da luta pelos direitos da população LGBT+ — ativistas paulistanos passaram a discutir formas de ocupar o espaço público durante os anos 1990.
Uma primeira tentativa de mobilização foi organizada em 1996, na Praça Roosevelt. A experiência ajudou a abrir caminho para a primeira edição da Parada, realizada no ano seguinte, quando cerca de 2 mil pessoas ocuparam uma faixa da Avenida Paulista sob o tema “Somos muitos, estamos em várias profissões”.
O crescimento foi rápido. Em poucos anos, a manifestação passou a reunir centenas de milhares de pessoas. Na década seguinte, já era apontada por organizadores e veículos internacionais como uma das maiores do mundo. Em 2011, os organizadores estimaram a presença de cerca de 4 milhões de participantes.
Ao longo desse processo, a Parada também se consolidou como um dos principais eventos turísticos da cidade. Em 2016, quando completou duas décadas de existência, foi incluída oficialmente no calendário municipal de São Paulo. No mesmo ano, ganhou repercussão internacional ao servir de cenário para gravações da série Sense8, da Netflix.
Mas o crescimento da manifestação não se refletiu apenas nos números.
Para o deputado estadual Guilherme Cortez (Psol), a Parada se transformou em um espaço de afirmação coletiva para uma população historicamente marginalizada.
“A Parada, ao mesmo tempo que é um ato político que carrega demandas de representação e direitos, também é um ato de afirmação e, portanto, um ato de festa”, afirma o parlamentar.
Segundo ele, a manifestação ajuda a romper uma lógica histórica de invisibilidade.
“É um momento para uma comunidade que historicamente é escondida, é malvista, se mostrar e afirmar uma palavra que é muito forte para a gente, que é o orgulho”, acrescenta Cortez.
À medida que crescia, a Parada também passou a funcionar como uma vitrine para reivindicações que mais tarde se transformariam em direitos reconhecidos pelo Estado brasileiro.

Direitos conquistados
Ao longo de suas três décadas de existência, a Parada colocou em debate temas que posteriormente resultaram em avanços importantes para a população LGBT.
Em 2005, por exemplo, a manifestação adotou o tema “Parceria Civil Já: Direitos Iguais, Nem Mais Nem Menos”, antecipando discussões que culminariam no reconhecimento da união estável e, posteriormente, do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
No ano seguinte, o lema foi “Homofobia é crime”, pauta que anos depois seria contemplada pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo.
Já em 2016, o foco esteve na defesa da identidade de gênero e dos direitos da população trans. Posteriormente, decisões do STF e do Conselho Nacional de Justiça garantiram a possibilidade de retificação de nome e gênero diretamente em cartório.
Quando a primeira edição foi realizada, porém, a realidade era muito diferente.
Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBT+, lembra que a população LGBT+ praticamente não possuía direitos específicos reconhecidos pelo Estado brasileiro.
“Nós não tínhamos absolutamente nada de direitos específicos da comunidade LGBT+”, afirma Reis.
Segundo ele, os avanços vieram da articulação do movimento social e da pressão exercida por organizações da sociedade civil ao longo de décadas.
“O amor venceu. Hoje nós podemos casar, podemos adotar, as pessoas trans podem retificar seus nomes, podemos doar sangue e foi criminalizada a LGBTfobia”, destaca o dirigente.
Na avaliação de Reis, as conquistas colocaram o Brasil em posição de destaque no cenário internacional.
“Hoje nós somos o oitavo país do mundo em direitos conquistados para a população LGBT+”, ressalta.
Embora boa parte desses avanços tenha sido conquistada por meio de decisões judiciais, e não por leis aprovadas pelo Congresso Nacional, os entrevistados ouvidos pelo Brasil de Fato avaliam que eles transformaram profundamente a vida da comunidade, mas a ampliação de direitos não encerrou os conflitos.
Além da Parada
A imagem mais conhecida da Parada é a multidão ocupando a Avenida Paulista. Mas a atuação da APOLGBT-SP acontece durante todo o ano.
A associação organiza iniciativas como a Feira da Diversidade, a Corrida do Orgulho, rodas de conversa, encontros temáticos e ações sociais voltadas para pessoas LGBT em situação de vulnerabilidade.
Entre elas está a distribuição mensal de cestas básicas realizada em parceria com a Prefeitura de São Paulo.
Segundo Matheus Emílio, a própria associação muitas vezes acaba sendo menos conhecida do que o evento que organiza.
“A Parada acontece na Avenida Paulista, mas acontece ao longo do ano inteiro”, resume o dirigente.
As comemorações da 30ª edição começaram ainda nesta semana com a realização da Feira da Diversidade, no Vale do Anhangabaú, reunindo artistas, empreendedores, coletivos e organizações da sociedade civil.

Reação conservadora
As três décadas da Parada também foram acompanhadas por mudanças no cenário político brasileiro.
Nos últimos anos, projetos que buscam restringir a presença de crianças e adolescentes em eventos LGBT+ ou limitar a realização dessas atividades em espaços públicos passaram a aparecer em câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional.
Para Toni Reis, trata-se de uma reação ao avanço dos direitos conquistados pela população LGBT+.
“Eu vejo isso como um backlash (reação organizada de grupos que se opõem a mudanças sociais e direitos recém-conquistados). Uma reação daqueles que perderam. São setores atrasados, reacionários, extremistas e fundamentalistas que estão se organizando”, argumenta o presidente da Aliança Nacional LGBTI+.
Segundo ele, boa parte dessas propostas não encontra respaldo jurídico.
“São projetos inconstitucionais, que não têm base legal e não oferecem nenhum ganho para a população. É apenas uma reação dos que perderam”, afirma.
Guilherme Cortez avalia que esse movimento faz parte de um fenômeno internacional impulsionado pelo fortalecimento de setores de extrema direita.
“A extrema direita escolheu a população LGBT+ como um de seus principais alvos”, diz o deputado.
Na avaliação do parlamentar, iniciativas que tentam restringir a participação de crianças ou empurrar manifestações para espaços fechados têm um objetivo comum.
“Primeiro tentam retirar as crianças desses espaços. Depois tentam empurrar a Parada para ambientes fechados. É uma forma de dizer que aquilo não é uma manifestação política legítima, mas algo privado que deveria ficar escondido”, observa.
Menos patrocínio
A organização também relata reflexos desse cenário na relação com patrocinadores privados.
Segundo a APOLGBT-SP, a edição deste ano registra uma queda nos patrocínios em comparação aos anos anteriores.
“Estamos passando por uma queda de aproximadamente 60% dos nossos patrocínios privados. Isso compromete a grandiosidade do evento como nós gostaríamos que ele fosse feito”, relata Matheus Emílio.
O impacto aparece diretamente na estrutura da manifestação. Em 2025, a Parada contou com 18 trios elétricos. Neste ano serão 14.
Mesmo assim, a organização afirma que a edição histórica só foi possível graças à mobilização de artistas que aceitaram participar sem cobrar cachê.
“Felizmente estamos tendo o apoio de muitos artistas LGBT+ se mobilizando nesse momento difícil, abrindo mão dos seus cachês para que a Parada continue acontecendo na sua grandiosidade”, afirma.
Entre os nomes confirmados estão Gloria Groove, Pabllo Vittar, Urias, Pepita, Diego Martins, Jup do Bairro, Melody, MC Soffia, Majur, Grag Queen, Chameleo, Katy da Voz e As Abusadas, Boombeat, Isma Almeida e outros artistas da cena LGBT brasileira.
Além da dimensão política e cultural, a Parada também movimenta a economia paulistana.
Segundo dados citados pela organização, o evento injeta cerca de R$ 500 milhões na economia da cidade e gera aproximadamente R$ 90 milhões em arrecadação de impostos.
“Para além de uma mobilização de luta e de direitos, é também uma ação que faz a economia mudar”, destaca Emílio.
Representação política
A escolha do tema deste ano está diretamente relacionada ao momento eleitoral.
Segundo a organização, a defesa da participação política não é novidade na história da Parada. Em diferentes anos de eleição, a manifestação já adotou temas relacionados ao voto e à representação institucional.
A avaliação é que ampliar a presença de pessoas LGBT+ nos espaços de poder continua sendo uma das principais tarefas do movimento.
Para Guilherme Cortez, existe uma contradição importante na trajetória recente da população LGBT brasileira.
“O Congresso Nacional nunca aprovou uma lei para as pessoas LGBT”, afirma o deputado estadual.
Segundo ele, avanços como o casamento igualitário, a criminalização da LGBTfobia, a possibilidade de doação de sangue por pessoas LGBT e o reconhecimento do nome social vieram principalmente por decisões do Judiciário.
O parlamentar também chama atenção para a baixa presença de representantes LGBT nos espaços institucionais.
“Hoje a gente só tem quatro pessoas LGBTs no Congresso Nacional. Isso é muito pouco. Existe uma enorme sub-representação da população LGBT+ nos espaços institucionais”, argumenta.
Toni Reis defende que a comunidade amplie sua participação eleitoral nos próximos anos.
“Precisamos participar ativamente como candidatura e apoiar candidatos comprometidos com a ciência, com a cultura e com a educação. Precisamos ter 10, 15, 20, 30 pessoas LGBT+ no Congresso Nacional”, defende o ativista.

Próximos desafios
Mesmo após três décadas de mobilização e conquistas, os entrevistados apontam que ainda há desafios importantes pela frente.
Entre eles estão o enfrentamento à violência, a ampliação do acesso à saúde, à educação e ao mercado de trabalho, além da consolidação dos direitos já conquistados.
Para Guilherme Cortez, a prioridade continua sendo garantir a sobrevivência da população LGBT.
“A prioridade é manter a nossa comunidade viva. O primeiro direito é o direito à vida”, afirma.
O parlamentar lembra que o Brasil segue registrando altos índices de violência contra pessoas LGBT, especialmente contra travestis e pessoas trans.
Já Toni Reis acredita que os próximos anos exigirão ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade.
“Precisamos conversar com setores religiosos, setores da direita. Precisamos conversar com todos os setores para diminuir essa ação organizada da extrema direita”, defende.
Segundo ele, o desafio passa por ampliar apoios e construir alianças capazes de reduzir a influência de grupos extremistas.
Matheus Emílio, por sua vez, afirma que a mobilização continuará enquanto houver desigualdade.
“Temos muito orgulho desses 30 anos. Conquistamos muitas coisas, nós lutamos muito nessas três décadas e seguiremos lutando enquanto for necessário”, conclui.
Serviço
A concentração da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo acontece a partir das 10h, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Neste ano, por causa das obras na Avenida Paulista, os trios percorrerão o lado ímpar da avenida. A organização orienta o público a utilizar também as ruas Haddock Lobo e Bela Cintra para acompanhar a programação.
Entre as recomendações estão o uso do transporte público, atenção aos pertences pessoais, hidratação constante e a combinação prévia de pontos de encontro entre amigos, já que o sinal de celular costuma oscilar durante o evento devido à grande concentração de pessoas.

