O avanço das pautas de extrema direita, baseadas no medo, na desinformação e na fragmentação das lutas sociais, foi o tom central das reflexões de lideranças políticas e intelectuais da América Latina, que estão reunidas no seminário “A saída é pela esquerda: estratégias para derrotar a extrema direita”, promovido pela Fundação Rosa Luxemburgo, em São Paulo (SP).
Para os representantes de movimentos e partidos progressistas, a resistência ao projeto neoliberal e neoconservador exige mais do que vitórias eleitorais: demanda uma articulação internacional sólida e uma ofensiva cultural que coloque a classe trabalhadora e as minorias no centro da decisão.
Para Valter Pomar, diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, a esquerda precisa ter clareza de que o sucesso eleitoral é apenas o primeiro passo. “Nós vamos ganhar as eleições, isso não é o problema. Nosso principal desafio não é a eleição, é mudar o país”, afirmou.
Segundo Pomar, a vitória depende de uma derrota completa do capitalismo e do imperialismo, o que exige um compromisso que não se encerre em reformas superficiais. “Essa vitória nossa não precisa parar na extrema-direita. Em nome dessa vitória, nos contentamos com uma agenda progressista, vamos até a página dois e não mudamos a vida dos trabalhadores”, alertou.
O dirigente também reforçou que o papel dos países da periferia do mundo é “decisivo” e deve incluir a solidariedade a causas internacionais, como a do Irã e da Palestina, e o enfrentamento direto à Otan.
A ex-ministra do Trabalho do Chile, Jeannette Jara, trouxe para o debate a tática utilizada pela direita para conquistar o eleitorado: a exploração das angústias populares. “Eles exploram as fragilidades de países, as angústias dos povos, e criam discursos de medo. No Chile, a delinquência nas ruas; na Argentina, a inflação. O projeto deles é o medo, é a angústia, é devastar o Estado”, explicou.
Jara ressaltou ainda o papel das fake news no enfraquecimento das democracias. “Eles espalham muitas notícias falsas, algumas ridículas, mas há pessoas que acreditam. Certa vez, inventaram coisas sobre mim que eu mesma duvidei”, relatou.
Resistência feminina
A deputada federal Érika Hilton (Psol-SP) destacou que a resistência passa, obrigatoriamente, pelo protagonismo feminino, combatendo a lógica capitalista que tenta confinar a mulher ao ambiente doméstico ou ao papel de mera reprodutora. “Essa sentença faz com que as mulheres precisem erguer suas vozes para dizer que não cabemos apenas nessas caixas”, defendeu.
Hilton também alertou para a cooptação de mulheres por agendas patriarcais dentro dos espaços de poder. “Temos um fenômeno assustador, que são mulheres que se organizam para oprimir, violar e atender uma agenda patriarcal. Vemos isso dentro do Congresso, onde tem mulheres que atacam nossos direitos”, criticou.
A necessidade de evitar a fragmentação dessas pautas foi reforçada por Donka Atanassova Lakimova, vereadora em Bogotá pelo Pacto Histórico. Para ela, a separação dos oprimidos em “múltiplas lutas” é uma armadilha que favorece as elites econômicas.
“A luta de um deve ser a luta de todos. Não podemos permitir que fragmentem nossas lutas. Temos que nos manter unidos para uma transformação cultural dos sujeitos oprimidos”, disse.
Encerrando as reflexões sobre o cenário geopolítico, Abel Prieto, presidente da Casa de las Américas, uma das principais instituições culturais de Cuba, foi enfático ao apontar que “a única saída é, e sempre será, pela esquerda”. Prieto defendeu a criação de núcleos de resistência cultural por toda a América Latina para combater a visão imperialista que desumaniza as populações periféricas.
“Como criar uma consciência anti-imperialista? Não podemos deixar nos fragmentar. Querem nos dividir, mulheres, trabalhadores, negros e tantos outros. Assim, somos alvo fácil, porque Trump nos vê como insetos e quer nos aniquilar”, concluiu o cubano, apostando na união como a única ferramenta capaz de derrotar o projeto de destruição da extrema direita.

