A Venezuela e o desespero do império em ruínas: a geopolítica da luta pelo controle das fontes de energia

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A invasão feita por EUA à Venezuela e o sequestro de seu presidente, Nicolas Maduro, revelam uma nova fase da geopolítica mundial. Até então, uma ação militar direta do país imperialista não havia ocorrido na América Latina. Ao longo da segunda metade do século XX, as várias intervenções ocorridas no subcontinente se deram de forma indireta, a partir do apoio a forças político-militares nacionais dissidentes insufladas pela CIA.

A mudança no padrão da intervenção não é algo isolado a revelar apenas mais alguma “esquisitice” no comportamento do presidente Donald Trump. As ameaças que Trump solta ao mundo – nesse momento, cogitando intervenções em Venezuela, Groenlândia, Colômbia e Cuba – refletem o desespero de um império que se vê diante da ruína, provocada diretamente pelo crescimento desproporcional da força da China.

Contudo, a força adquirida pela China a partir do final da década de 1970 é resultante da abstenção de EUA em relação à produção massiva de manufaturas, uma vez que nessa década a sua opção estratégica para a reprodução do capital se deu pelo fortalecimento do capital financeiro e especulativo. O comando da rede mundial de investimentos na produção e na reprodução do capital ocorreu pela estruturação do sistema bancário e sua decorrente venda de dinheiro e ativos, por meio de empréstimos e seguros. O juro se tornou o principal produto desse negócio especulativo e a articulação internacional de capital em torno dessa atividade foi tutelada por EUA, que se tornaram o locus referencial das operações. Com base nessas prerrogativas, o capital financeiro passou a ditar a dinâmica do capital industrial, do capital comercial, do capital imobiliário e demais formas de sua constituição.

Essa abstenção não foi absoluta. Obviamente, muitas atividades industriais continuaram operando sob o comando de EUA, especialmente em seu solo. Porém, essa produção focou prioritariamente a indústria de veículos, a indústria bélica e a indústria de altíssima tecnologia. Artigos de valores agregados inferiores, como é o caso dos bens de consumo diários, tiveram a produção desacelerada em solo estadunidense, favorecendo a estratégia chinesa de impulsionar o seu desenvolvimento nacional a partir de sua incorporação, estimulando não apenas o comércio interno, mas também o internacional, com base num processo de abertura econômica controlada.

Essa oportunidade permitiu à China, um país de dimensões continentais e com a segunda maior população do mundo, chegar na segunda década do século XXI como a segunda maior potência econômica mundial e em constante ascensão. Para tanto, a sua articulação ao bloco intercontinental de países emergentes, constituindo o Brics – bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – foi fundamental. Todos esses países concentram não apenas importância econômica regional, mas também política e, para alguns, bélica. Esses predicados elevaram este bloco, liderado pela China, à confrontação direta com o G-7, liderado por EUA.

A participação do Brasil no Brics e a sua liderança política regional, especialmente sob os governos de Lula, sempre foi um incômodo para o império estadunidense. Maior economia da América Latina e oitava maior do mundo (em fase de ascensão), o Brasil tende a influenciar as outras nações latino-americanas, especialmente as sul-americanas, a compor blocos alternativos à liderança de EUA, buscando agregar vantagens que favoreçam não apenas o seu desenvolvimento econômico, mas também a sua liberdade política e a autonomia de decisões.

Para fazer frente ao efetivo controle que o G-7 possui sobre o sistema financeiro internacional, sob a representação do FMI e do Banco Mundial, o Brics criou o Banco do Brics, que tem a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, como a sua presidente pelo segundo mandato consecutivo. Com o poderio produtivo, comercial, financeiro e natural concentrado por esse bloco emergente, novas nações foram agregadas a partir de 1º de janeiro de 2024, dentre elas a Arábia Saudita, o Irã e os Emirados Árabes, detentoras, respectivamente, da segunda, da terceira e da sexta maiores reservas de petróleo do mundo. Não distante disso, cabe ressaltar que a nação detentora da maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela, tem acordo bilateral prioritário com a China, para onde se exportam 68% do mineral extraído, em detrimento do acordo comercial com EUA, que recebem apenas 23% do mesmo.

Para completar a gradativa apartação e autonomização comercial das nações emergentes em relação a EUA e ao G-7, parte significativa das terras raras, de onde se extraem os insumos minerais como o ítrio, o escândio e os lantanídeos para a alimentação dos dispositivos tecnológicos atuais (com os quais se fabricam turbinas eólicas, baterias, ímãs permanentes etc.), encontra-se na América do Sul, mais precisamente no Brasil e no Chile, tendo como principal parceiro comercial a China. É importante ainda lembrar que o Brasil iniciou em 2025 a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Rio Amazonas e também conta com o pré-Sal localizado no fundo do oceano em águas nacionais.

Assim, incapaz de persuadir por meio da diplomacia e de acordos comerciais mutuamente vantajosos, EUA iniciaram, sob o segundo governo de Trump, a ofensiva imperialista no mundo, impressa inicialmente por ameaças escandalosas. Desde o início das tensões com a Venezuela, em agosto de 2025, a sua intenção estava clara: não se tratava de combater o narcotráfico, argumento esdrúxulo constituído sobre fake news e reproduzido acriticamente pela grande mídia brasileira. Tratava-se de lançar uma ameaça sobre a China e o Brics e os avanços comerciais que vêm empreendendo.

É importante lembrar que o cerco à Venezuela se deu no contexto da COP-30 – Conferência das Partes sobre Mudança Climática, organizada pela ONU, que reuniu representantes do mundo inteiro em Belém do Pará, Brasil, estado que representou a Floresta Amazônica. Esse estado não está tão distante da Venezuela. O Brasil, com todo o seu potencial produtivo e natural negociado fundamentalmente com a nação que tende a superar o império estadunidense, por um lado, e com a sua liderança política e diplomática influenciando o multilateralismo, por outro, se constitui como uma ameaça aos Estados Unidos.

A invasão de EUA contra a Venezuela à revelia do Direito Internacional e o flagrante discurso de que este ato se consumou visando a usurpação da maior riqueza contida naquele país, que é a sua reserva de petróleo, coloca não apenas o Brasil, a Colômbia, a Groenlândia e a Cuba em alerta: coloca o mundo inteiro. A ameaça constituída com a presença do grande arsenal bélico estadunidense nas águas do Caribe, próximas à Venezuela, entre os meses de agosto e dezembro de 2025, culminou com este ato agressivo à soberania de uma importante nação para a geopolítica mundial. Isso significa que ameaças futuras poderão ter o mesmo resultado, a não ser que as demais potências mundiais apresentem argumentos políticos, diplomáticos, comerciais ou bélicos que demovam o império de suas intenções nefastas.

*Adão Francisco de Oliveira é historiador, sociólogo, doutor e pós-doutor em Geografia e professor da Universidade Federal do Tocantins. Foi presidente da ANPEGE – Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Geografia e secretário de Estado no Tocantins nas áreas de: Educação;
Cultura; e Igualdade Racial. É pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles Núcleo Goiânia.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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