Acampamento celebra 20 anos do Levante Popular da Juventude com formação política, cultura e economia solidária

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Ó Levante Popular da Juventude reunirá militantes, jovens, coletivos e organizações populares em um acampamento que celebrará os 20 anos do movimento, com uma programação voltada à formação política, articulação social, cultura e economia solidária. O encontro ocorrerá na perimeira semana de fevereiro, entre quinta-feira (5) e domingo (8), na Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita, no municíio de Nova Santa Rita (RS).

O espaço contará com a Feira da Reforma Agrária e da Economia Solidária, que funcionará de forma contínua ao longo do acampamento. A feira reunirá produtos da agricultura familiar, iniciativas coletivas de geração de renda e experiências da economia popular, fortalecendo o diálogo entre formação política e práticas concretas de outra economia possível.

Programação contará com a abertura oficial do acampamento, além de atividades culturais e do Bonde Diversidade | Crédito: Acervo Levante Popular da Juventude

Programação

A quinta-feira (5) será dedicada à chegada dos participantes, com credenciamento ao longo do dia. À noite, a programação contará com a abertura oficial do acampamento, além de atividades culturais e do Bonde Diversidade.

Na sexta-feira (6), a programação dará centralidade à análise de conjuntura e desafios da juventude. À tarde, oficinas tratarão de temas como “Sem feminismo, não há socialismo”. O dia será encerrado com uma noite cultural em clima de carnaval, destacando a cultura como ferramenta de luta e mobilização.

O sábado (7) será marcado pela mobilização e pela ampliação dos debates políticos. Pela manhã, a atividade “Se organiza! Conheça o Levante Popular” chamará a juventude para ação. À tarde, haverá mesas debatendo comunicação popular e questões que atravessam a vida da juventude.

No domingo (8), o acampamento entrará em sua etapa final com atividades voltadas à celebração dos 20 anos do Levante, seguido de um marmitaço, que simbolizará a solidariedade como prática política. O encerramento acontecerá com um ato de rua em Porto Alegre.

Uma juventude em movimento: a história do Levante Popular da Juventude no Brasil

O Levante Popular da Juventude é um movimento social que se organiza em universidades, escolas, bairros, periferias e no campo, em diferentes regiões do Brasil. Voltado à luta popular, o coletivo atua com o objetivo de contribuir para a transformação da sociedade e se define como parte do Projeto Popular para o Brasil — uma proposta de país construída pelos movimentos sociais e populares, com o compromisso de enfrentar problemas históricos ignorados pelas elites.

O Levante surgiu em 2006, no Rio Grande do Sul, com a proposta de organizar a juventude onde quer que ela esteja. Em fevereiro de 2012, realizou seu primeiro Acampamento Nacional, também no Rio Grande do Sul, marco importante na consolidação de sua atuação política. Para o movimento, a construção de um projeto popular passa pelo reconhecimento de que cada pessoa deve ser protagonista da transformação de sua própria realidade, a partir da organização coletiva.

Para Lucas Gertz, que integra a coordenação estadual do Levante Popular da Juventude no Rio Grande do Sul, a trajetória da organização é marcada pela capacidade de unir diferentes juventudes em torno de um projeto político comum. “Em fevereiro de 2026 completaremos 20 anos de lutas e mobilizações do Levante no estado. São poucas as organizações de juventude que conseguem construir e articular jovens de diferentes territórios e espaços em um processo organizativo, sobretudo a partir da política, da cultura e da arte”, afirma.

Lucas Gertz, da coordenação estadual do RS | Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Segundo ele, desde o surgimento do movimento na Grande Cruzeiro, em Porto Alegre, o Levante se propôs a organizar periferias, escolas e universidades, mantendo também uma relação profunda com a juventude do campo, especialmente com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). “Inspirados pelos movimentos sociais latino-americanos e por experiências socialistas ao redor do mundo, o Levante surge para transformar o modo de fazer política no Brasil. Os escrachos, a batucada nos atos de rua e outras expressões culturais foram centrais para que o movimento se tornasse uma referência para a juventude”, completa.

No interior do estado, a militante Thalissah Gonçalves conta como o Levante mudou a sua perspectiva sobre o futuro. “Meu primeiro contato com o Levante foi em 2016 através dos atos Fora Temer, e naquela época, muitas escolas de Santa Maria entraram em greve, então me somei e criei muitos amigos na reta final do Ensino Médio. O Levante transformou minha vida, pois eu não tinha uma perspectiva de futuro e também não sabia os meios no qual mudaria a minha realidade e da minha família”, relata.

Thalissa, militante do Levante de Santa Maria | Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Para ela, o Levante representa um espaço permanente de aprendizado, afeto e construção coletiva: “Dez anos depois, o Levante ainda continua me transformando, pude participar de diversos acampamentos estaduais, conhecer a União Nacional dos Estudantes (UNE), organizar a Frente Territorial no estado e contribuir para o 1° Encontro Estadual da Territorial, fora diversos espaços nacionais no qual pude ver a imensidão dessa organização que mora no meu coração”.

A economista Juliane Furno, que participou da fundação e da construção do Levante, relembra que esteve presente no chamado “grupo originário” do movimento, formado a partir de uma oficina realizada em 2004 com estudantes do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Ela voltou a atuar de forma orgânica em 2007, durante o segundo acampamento do Levante no RS, quando a principal pauta era o plebiscito popular pela reestatização da Companhia Vale do Rio Doce. Desde então, nunca mais se afastou da organização.

Economista e uma das fundadoras do Levante, Juliane Furno | Crédito: Reprodução/Redes Sociais

“O Levante organizou a minha vida e é uma marca indelével da minha história. Assim como eu, muitos jovens tiveram suas vidas transformadas pelo Levante da Juventude. Sinto uma imensa alegria — e uma pontinha de orgulho — ao ver que hoje o movimento segue com as próprias pernas e superou, em todos os sentidos, a nossa geração fundadora”, afirma Furno.

20 anos de história

Com forte vínculo com o MST, o Levante defende a reforma agrária popular como parte de um projeto estruturante para o país | Crédito: Acervo Levante Popular da Juventude

Em 2014, o Levante realizou o 2º Acampamento Nacional, em São Paulo, reunindo mais de três mil jovens de 25 estados brasileiros e do Distrito Federal. O encontro consolidou o movimento em âmbito nacional, reafirmando seu compromisso com a democracia, os direitos da juventude e da classe trabalhadora, além da solidariedade internacional entre os povos.

ois anos depois, em 2016, ano do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o 3º Acampamento Nacional ocorreu em Belo Horizonte (MG), com a participação de mais de sete mil jovens de todo o país. Ao longo desse período, o Levante promoveu diversas mobilizações, atividades de formação política e centenas de acampamentos estaduais e municipais.

Ao longo de duas décadas de atuação, o Levante Popular da Juventude afirma ter mantido presença ativa mesmo nos períodos mais adversos da luta social recente | Crédito: Levante Popular da Juventude

Movimento nacional e presente em momentos chave

A nacionalização do movimento está diretamente ligada às ações conhecidas como “escrachos” contra torturadores da ditadura militar, realizadas em diferentes estados. Para o Levante, a luta por verdade, memória e justiça permanece atual, diante da ausência de responsabilização dos crimes cometidos durante o regime autoritário iniciado em 1964.

O movimento reúne diferentes expressões da juventude brasileira. Atua junto à juventude negra das periferias urbanas, que reivindica o direito à vida, o combate à violência e a desmilitarização da polícia; à juventude que enfrenta as opressões do patriarcado, especialmente mulheres e pessoas LGBTQIAPN+; e à juventude camponesa, que luta pelo direito à educação, à permanência no campo e à construção de um futuro digno, com trabalho e condições de vida. Com forte vínculo com o MST, o Levante defende a reforma agrária popular como parte de um projeto estruturante para o país.

Ao longo de duas décadas de atuação, o Levante Popular da Juventude afirma ter mantido presença ativa mesmo nos períodos mais adversos da luta social recente. O movimento esteve envolvido nas mobilizações contra o golpe de 2016, nas ocupações de escolas e universidades, no enfrentamento ao avanço do fascismo e nas campanhas contra o governo de Jair Bolsonaro. Também atuou contra reformas neoliberais, como a do ensino médio e a reforma trabalhista.

O Levante atua junto à juventude negra das periferias urbanas, que reivindica o direito à vida, o combate à violência e a desmilitarização da polícia | Crédito: Acervo Levante Popular da Juventude

Defensor da unidade entre as organizações populares, o Levante sustenta que as diferenças políticas não devem impedir a construção de ações comuns em favor da classe trabalhadora. O movimento integra a Frente Brasil Popular e mantém articulação permanente com aFrente Povo Sem Medo. Unidade que esteve na base das grandes mobilizações estudantis conhecidas como “Tsunami da Educação”, contra os cortes orçamentários, e também das ações conjuntas durante a pandemia de covid-19, em defesa da vacinação e contra o negacionismo.

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