Ações do MPA e Ater oferecem agroecologia como ferramenta de saúde mental em regiões produtoras de tabaco

Publicada em

Um conjunto de ações planejado pelo Movimento do Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), junto à Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e a Rede Feminista de Destiladoras, teve início em abril na região do Vale do Taquari com o intuito de cuidar da saúde mental camponesa. Foram realizados dois encontros com grupos de mulheres locais, reunidas para aprender sobre a destilação de plantas medicinais, falar sobre agroecologia e promover espaços de cuidado.

Durante os dois encontros, que foram permeados por conceitos da agroecologia e também pelas plantas medicinais, as mulheres puderam partilhar histórias de suas vidas pessoais e das suas famílias, evidenciando questões importantes de saúde mental, adoecimento emocional e depressão nas comunidades em que estão inseridas.

Leia Chitto é camponesa, atuante na direção estadual do MPA e uma das organizadoras do ciclo de encontros. Para ela, esses momentos iniciais são importantes para entender a realidade das famílias. Ela afirma que “quando se vai falar de planta, aparece um monte de coisa sobre cuidado e saúde, inclusive formando um espaço seguro onde as mulheres podem trazer as violências e tristezas que vivem. É nessas escutas que a gente levanta os elementos que precisa pra trabalhar no território, é como um diagnóstico que possibilita que a gente construa uma rede sólida de atuação”.

Encontro promovido por Leia Chitto reuniu mulheres para gerar cuidado e rede | Crédito: Clarissa Londero

Adoecimento psicológico e espaços de cuidado para mulheres

Segundo Chitto, a realidade na região rural é permeada por diversos tipos de violência, dentro e fora de casa: “tem violência física, psicológica, emocional, patrimonial… Tem o álcool e outras drogas também e, mais recentemente, o uso abusivo de jogos virtuais e redes sociais que causa ansiedade e depressão”. Para ela, em quase todos os casos é a mulher que acaba lidando com as questões dentro da família e precisando realizar o trabalho de cuidado. Por isso, o movimento entendeu que era necessário começar pelas mulheres, apresentando a elas ferramentas para cuidarem de si e de suas comunidades, se fortalecerem e se apoiarem mutuamente.

Os encontros aconteceram em parceria com a Rede Feminista de Destiladoras. A articuladora e agrônoma Lisiane Brolese reforça a necessidade de se cultivar esses espaços de cuidado entre mulheres, pois, para ela, “a mulher não tem tempo para ficar jogando ou procurando o que fazer, pois mulher tem sempre muito o que fazer. Por isso, elas precisam conseguir abrir espaço para cuidarem de si e poderem se fortalecer para então ajudar suas famílias”. A anfitriã de um dos espaços de encontro, Nelci Zagonel, é agricultora aposentada e reforça que “as mulheres fazem muita coisa na comunidade, estão sempre fazendo a frente em tudo”.

Lisiane Brolese é agrônoma e leva a localidades camponesas a destilação como ferramenta pedagógica e de geração de renda | Crédito: Clarissa Londero

Para as organizadoras dos encontros, os quadros gerais de saúde mental das comunidades piorou após a pandemia e as enchentes de 2024. O alcoolismo e a relação de dependência de jogos tiveram crescimento entre a população, principalmente entre os homens e os jovens. Zagonel afirma que “as pessoas começaram a ficar mais em casa, não sair, e passaram a ter mais problemas de depressão. Por isso, espaços e momentos assim são fundamentais para ajudar a população a criar vínculos sociais fortes novamente”.

Regiões produtoras de tabaco e uso de agrotóxicos

Foi divulgado, em setembro de 2025, um boletim epidemiológico da Secretaria estadual de Saúde que mostrou os dados referentes ao número de suicídios no Rio Grande do Sul. As regiões do Vale do Taquari e Vale do Rio Pardo, locais de intenso cultivo de tabaco, lideram os números de violências autogeradas e suicídio. Venâncio Aires está como o município com maior número registrado, com 33,81 por 100 mil habitantes, e a realidade da região está intimamente ligada com a produção fumageira.

Junto a isso, Chitto aponta que, desde os anos 1980, pesquisas mostram a relação entre o tabaco e o suicídio, causado pelo uso dos químicos nesse tipo de cultivo. Diversos estudos realizados em todo o mundo comprovam os prejuízos à saúde mental em pessoas que lidam com agrotóxicos, especialmente os organofosforados, já havendo sido comprovado a relação desses usos com alterações bioquímicas no cérebro, deprimindo o sistema nervoso central.

Rosiéle Ludtke, camponesa e integrante do MPA, realizou sua tese de mestrado estudando alternativas de produção ao camponês nas regiões de tabaco. Para ela, o uso dos venenos na produção é a principal causa do adoecimento mental na região. “O problema do fumo é o tempo de contato, pois quando começa a safra futura do fumo, o agricultor ainda está manejando a safra passada dentro do galpão.”

Ludtke denuncia, também, que “os venenos são altamente difundidos pelas multinacionais que querem somente lucrar com a venda desses venenos, e são as mesmas empresas que depois vendem os remédios. Então o capital se materializa no campo, na agricultura, através dessas ferramentas como os agrotóxicos”.

A destilação é parte da atuação de Rosiéle (à esquerda), unindo mulheres, agroecologia e ativismo | Crédito: Clarissa Londero

Por outro lado, a relação de dependência com a indústria que compra o tabaco produzido pelo agricultor e coloca o preço no produto está como outro fator gerador dos altos índices de depressão e suicídio, por levar ao endividamento camponês. Para Lisiane Brolese, isso “afeta emocionalmente porque a produção mobiliza muito dinheiro e, no fim, quase nada fica para o agricultor, gerando quadros depressivos e de alta vulnerabilidade”. A articuladora da Rede Feminista de Destiladoras reforça que a agroecologia e a diversificação da produção entram como recursos para libertar o agricultor da dependência da indústria e gerar autonomia e resiliência.

Grupo de mulheres, agroecologia e plantas medicinais

Nesse sentido, MPA, Ater e Rede Feminista de Destiladoras começaram a articular os encontros e as ações visando apresentar alternativas para o camponês não estar refém da indústria fumageira e ter autonomia alimentar e de cuidados com a saúde física e mental. Os encontros visando as mulheres foram pensados para promover escuta, cuidado e ecologia profunda. Para a organização, essa também é uma forma de unir as mulheres, fazer debates, trazer questões de feminismo e criar uma rede de apoio.

Ao redor das plantas, as mulheres constroem espaços de escuta e cuidado | Crédito: Clarissa Londero

A agrônoma Lisiane Brolese afirma que a linha de atuação é “a da agroecologia, da alimentação saudável, das plantas medicinais e isso tudo como gerador de saúde mental. Trabalhar as plantas aromáticas, construir essa questão das agroflorestas medicinais, tudo isso vem com muitas questões por trás a serem trabalhadas no grupo”. Para ela, a criação de vínculo é fundamental nos encontros, pois as mulheres precisam criar rede e se apoiar para poder achar recursos para lidar com as crises, encontrar uma na outra suporte e estabilidade emocional e melhorar o ambiente onde moram. A anfitriã Nelci, reforça: “a gente aprende, tem muito conhecimento que vem das plantas e, assim, se reunindo a gente conversa, se distrai e se cura”.

As organizadoras do projeto acreditam que a agroecologia pode trazer recursos para esse momento, pois valoriza os saberes tradicionais das pessoas, o trabalho, o alimento sem veneno e a beleza no viver camponês. Trabalhando a autoestima, a agroecologia resgata essas pessoas da vulnerabilidade em que se encontram, interferindo diretamente na saúde mental das famílias agricultoras.

Rosiéle Ludtke reforça que essa é uma ferramenta fundamental, “principalmente na questão da emancipação política coletiva, da autonomia na produção, da diversificação e da conscientização que precisa haver em relação a tudo para sair das garras das multinacionais fumageiras”.

Agroecologia e diversificação da produção são ferramentas de autonomia e soberania no campo | Crédito: Clarissa Londero

Source link