Afinal de contas, de quem é a bola?

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“Eu não tô nem aí para a Copa”, disse ao terminar de preencher o segundo bolão, comprar dez pacotinhos de figurinhas do álbum da Panini e esculhambar Neymar no grupo da família.

Não tem jeito. A gente reclama (com razão) da Fifa, dos patrocinadores, dos salários milionários, da Seleção e até da própria Copa. Mas, quando ela chega, a gente presta atenção. Talvez sem a empolgação de outras décadas, quando qualquer pessoa podia até deitar na avenida mais movimentada da cidade durante um jogo sem ser atropelada. Talvez sem a inocência de outros tempos, quando as cidades brasileiras, de uma hora para outra, pintavam-se de verde e amarelo. Mas não tem como ignorar o maior evento esportivo do planeta.

Não é por acaso. O futebol é provavelmente a experiência cultural mais universal já produzida pela humanidade. A Fifa reúne 211 associações nacionais, mais do que os 193 países que compõem a ONU. De acordo com a própria entidade, cerca de cinco bilhões de pessoas acompanham futebol e têm um time do coração, mesmo que não sejam exatamente “torcedores praticantes”.

A final da última Copa do Mundo foi assistida por mais de 1,4 bilhão de pessoas. Nenhum outro esporte chega perto desses números. O futebol movimenta dezenas de bilhões de dólares todos os anos, atravessa fronteiras, idiomas, religiões, regimes políticos e gerações. Há poucas experiências verdadeiramente globais no mundo contemporâneo. O futebol é uma delas.

Talvez por isso seja tão simbólico que nesta Copa, antes mesmo de México e África do Sul terem entrado em campo, não tenha sido a bola a ocupar as manchetes, mas a política — a má política.

A candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá foi apresentada ao mundo como uma celebração da integração continental. Uma Copa das pontes, dos encontros e da diversidade. Não por acaso. Grandes eventos esportivos costumam ser usados pelos países-sede para projetar uma imagem positiva de si mesmos. É o chamado soft power: a capacidade de conquistar admiração e influência não pela força, mas pelo exemplo, pela cultura e pelos valores.

Mas aí a realidade entrou em campo.

Antes mesmo do primeiro gol, a Copa já produzia mais notícias diplomáticas do que esportivas. A seleção do Irã foi obrigada a estabelecer sua base no México por conta das restrições impostas pelos Estados Unidos. Integrantes de delegações foram submetidos a longos e vexatórios interrogatórios em aeroportos. Um árbitro somali, o melhor da África, oficialmente escalado para a competição, foi impedido de entrar no país mesmo possuindo visto válido e passaporte diplomático. Torcedores enfrentaram problemas migratórios, vistos negados e episódios de constrangimento.

Curiosamente — ou não — os casos que ganharam repercussão internacional atingiram principalmente delegações, árbitros, jornalistas e torcedores oriundos da África e do Oriente Médio. Não por acaso, nenhuma seleção da Europa Ocidental precisou instalar sua base em outro país ou viu integrantes barrados na fronteira.

Donald Trump não inventou a xenofobia, o autoritarismo ou a arrogância imperialista. Mas conseguiu transformar um dos maiores eventos de celebração da diversidade humana em uma vitrine das contradições de sua ideologia. Num momento em que bilhões de pessoas voltam seus olhos para os Estados Unidos, o país parece determinado a exibir justamente aquilo que tem de pior.

Não seria (e não será) a primeira vez que um governante tenta capturar o esporte para contar uma história sobre si mesmo. Em 1936, Adolf Hitler imaginou que os Jogos Olímpicos de Berlim serviriam para demonstrar ao mundo a suposta superioridade da Alemanha nazista e da chamada raça ariana. O que a memória coletiva preservou, no entanto, foi sobretudo a imagem de Jesse Owens, um atleta negro, conquistando quatro medalhas de ouro diante das arquibancadas do Führer.

A história do esporte está cheia dessas ironias. Os poderosos organizam o espetáculo. Mas nem sempre conseguem controlar seu significado.

Seria ingenuidade fingir que o problema está apenas nos governos. A Fifa convive há décadas com episódios de corrupção. Desde João Havelange, o dinheiro tem falado mais alto em praticamente todas as decisões. Os patrocinadores ocupam espaços cada vez maiores. Os interesses comerciais frequentemente atropelam os esportivos. Toda semelhança com a política tradicional não é mera coincidência.

Nessa democracia que a gente tenta construir, também tentaram nos convencer de que a política não era mais nossa. Que pertencia a uma mesma classe, aos donos do dinheiro, aos profissionais do poder. E, no entanto, a gente segue suando e sangrando para democratizar o controle sobre as decisões que nos afetam, na tentativa de construir um sistema mais justo, que acolha as demandas de todo mundo e trabalhe para o bem viver. Assim como a gente faz com o futebol.

Talvez seja por isso que a gente continua assistindo e insistindo. Entre as contradições dos governos autoritários e das instituições mercenárias e corruptas, a gente sabe que o futebol não pertence a eles.

São fartas as histórias sobre a Copa de 1970, disputada enquanto o Brasil vivia uma cruel ditadura que fez de tudo para se apropriar do sentimento nacional. Mesmo quem sofria nas masmorras dos centros de tortura afirma não ter conseguido esnobar aquele time que voltou para casa com a Jules Rimet. Torcer contra seria dar aos militares o que eles queriam e não tiveram.

Aqui no meu canto já tenho meus azarões e favoritos. E gostei de ver a Seleção Brasileira desembarcar desacreditada nos Estados Unidos. Convenhamos: isso costuma acontecer quase todas as vezes antes da gente conquistar uma Copa do Mundo.

Durante a competição, estarei por aqui. Esta é a primeira edição do “Papo de Copa”, versão mundialista do velho “Toró de Palpite”. Depois de cada partida do Brasil — ou, pelo menos, uma vez por semana enquanto durar o torneio — eu volto para trocar uma ideia sobre o que anda acontecendo dentro e fora dos estádios.

Independentemente do troféu, fica o desejo de tomar a bola de volta. Afinal, ela nunca deixou de ser nossa.

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