América Latina se torna centro da disputa entre China e EUA na reconfiguração da ordem mundial

Publicada em

Em um momento de reconfiguração acelerada do sistema internacional e de intensificação das disputas geopolíticas entre grandes potências, o ex-embaixador da Argentina na China, Sabino Vaca Narvaja, afirma que o mundo atravessa uma transição estrutural marcada pelo deslocamento do centro econômico global para a Ásia e pela erosão progressiva da ordem construída no pós-Segunda Guerra Mundial.

“Estamos vivendo uma ruptura da ordem internacional gerada após a Segunda Guerra Mundial, que tinha como eixo central os Estados Unidos e as instituições criadas no pós-guerra”, afirma.

Em entrevista ao Brasil de Fato em Xangai, ele analisou o papel da América Latina nesse novo cenário, a disputa entre China e Estados Unidos e o avanço de uma lógica multipolar que redefine alianças, modelos de desenvolvimento e conflitos estratégicos.

Para ele, essa transformação está diretamente ligada à forma como os Estados Unidos passaram a interpretar a ascensão chinesa nas últimas décadas.

“Não é uma construção recente. Já no governo Obama, a China já era claramente vista como o principal competidor estratégico dos Estados Unidos. Isso não é uma questão de um governo ou outro, mas de uma mudança estrutural no sistema internacional. Quando você tem o deslocamento do centro produtivo e tecnológico do mundo para a Ásia, especialmente para a China, isso inevitavelmente redefine o equilíbrio global de poder”, afirma.

Filho de militantes perseguidos pela ditadura militar argentina, Sabino cresceu no exílio em Cuba durante os anos 1970. Durante a conversa, mostrou fotografias pessoais desse período e registros familiares ligados à militância política e ao exílio latino-americano.

Seu pai, Fernando Vaca Narvaja, foi uma figura da resistência contra a ditadura argentina e posteriormente participou de processos políticos na Nicarágua sandinista.
Ex-embaixador em Pequim entre 2021 e 2023, Sabino também é cientista político e professor, com trajetória entre academia e diplomacia voltada à integração regional.

Professor Sabino Vaca Narvaja, durante entrevista ao Brasil de Fato em Xangai. Foto: Bruno Falci/BdF

Estados Unidos e China: a transição do mundo unipolar ao multipolar

Para Sabino, o sistema internacional já não pode ser interpretado como uma disputa conjuntural entre grandes potências, mas como uma transformação estrutural da hegemonia global em curso.

Ele sustenta que o deslocamento do centro econômico mundial para a Ásia, com a China no centro desse processo, rompe a lógica estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos consolidaram sua posição dominante apoiada em instituições como o FMI e o Banco Mundial.

“Estamos diante de uma ruptura da ordem internacional construída no pós-guerra, que tinha como eixo central os Estados Unidos e um conjunto de instituições que organizaram o sistema econômico e político global naquele período. O que vemos hoje é que esse eixo começa a se deslocar de forma progressiva para a Ásia, especialmente para a China”, afirma.

Essa inflexão está ligada, segundo ele, à reorganização das cadeias produtivas globais e ao processo de relocalização industrial que levou grandes setores da economia mundial à China nas últimas décadas.

Nesse contexto, ele destaca o modelo chinês como elemento central da transformação: abertura ao capital estrangeiro combinada com exigência de transferência tecnológica e associação com empresas locais.

“A China fez um modo de cooperação muito inteligente: permitiu que as indústrias viessem, mas exigiu transferência de tecnologia e associação com empresas locais. Isso fez com que, em um período relativamente curto, ela deixasse de ser apenas um destino de produção global para se transformar em um polo próprio de desenvolvimento industrial e tecnológico”, afirma.

Sabino argumenta que esse processo não apenas acelerou a industrialização, mas também redefiniu a posição do país dentro do sistema internacional.

“Em poucas décadas, a China passou de uma posição periférica na divisão internacional do trabalho para se tornar um dos principais centros de inovação e produção tecnológica do mundo, o que altera profundamente a hierarquia global”, observa.

A partir dessa transformação, a disputa entre China e Estados Unidos deixa de ser estritamente econômica e passa a envolver tecnologia, cadeias produtivas e controle de padrões globais.

Nesse campo, ele cita os esforços norte-americanos de contenção tecnológica, como restrições ao 5G e aos semicondutores, que, segundo ele, acabaram tendo efeito inverso.

“Essas políticas de restrição tecnológica, que tinham como objetivo frear o avanço chinês, acabaram funcionando também como um estímulo para que a China acelerasse seus próprios processos de autonomia em áreas estratégicas como semicondutores, inteligência artificial e telecomunicações”, avalia.

Ele interpreta ainda a sequência de governos estadunidenses, de Obama a Trump, passando por Biden e retornando a Trump, como expressão de continuidade estratégica:

“Não se trata de governos diferentes com visões opostas, mas de uma continuidade na percepção da China como rival sistêmico, independentemente do estilo ou da retórica de cada administração.”

Por fim, aponta que esse processo se insere também em um cenário mais amplo de declínio relativo dos Estados Unidos, não apenas econômico e tecnológico, mas também político, diante da incapacidade de manter a centralidade do sistema internacional como no pós-guerra.

Socialismo com características chinesas como modelo de desenvolvimento

Sabino interpreta o modelo de desenvolvimento chinês como um dos elementos centrais da transformação da economia mundial nas últimas décadas, especialmente por sua capacidade de articular abertura econômica com fortalecimento produtivo interno.

“A transferência de tecnologia não foi um aspecto secundário, mas uma condição estruturante do processo de desenvolvimento. Isso permitiu que a China não apenas recebesse investimentos, mas também construísse capacidade própria de inovação e produção”, observa.

Segundo Sabino, esse movimento está diretamente ligado à construção de soberania tecnológica.
“O resultado desse processo é a consolidação de uma capacidade tecnológica própria, que dá à China um grau de autonomia muito significativo dentro do sistema internacional”, afirma.

Ele destaca ainda que essa estratégia redefiniu a posição do país nas cadeias globais de produção.
“O que se observa é uma transição: de um espaço de produção industrial global para um centro de decisão tecnológica e industrial, com capacidade de influenciar padrões produtivos em escala mundial”, explica.
Sabino também relaciona esse modelo às iniciativas internacionais promovidas por Pequim.

“A lógica apresentada pela China em projetos como a Franja e a Rota é a de desenvolvimento compartilhado. A ideia é que o crescimento de um país pode estar associado ao desenvolvimento de outros, dentro de uma dinâmica de cooperação produtiva”, afirma.

Para ele, essa abordagem contrasta com experiências históricas anteriores de expansão econômica global baseadas em relações assimétricas.

“O diferencial está na forma como se estrutura a relação entre países. Em vez de um esquema de imposição, o que se propõe é uma lógica de articulação produtiva e infraestrutura compartilhada”, conclui.

Nova ordem monetária global e o declínio da hegemonia do dólar

Sabino afirma que a atual transição do sistema internacional não se limita à disputa entre potências, mas envolve uma reconfiguração mais profunda da arquitetura monetária e financeira global, historicamente centrada nos Estados Unidos.

Ele destaca que, embora o país ainda mantenha instrumentos centrais de poder, sua capacidade de organizar o sistema internacional vem sendo gradualmente tensionada por mudanças estruturais na economia mundial.
“Os Estados Unidos continuam sendo um ator central no sistema internacional, mas já não possuem a mesma capacidade de definir unilateralmente as regras do jogo global como tiveram no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial”, afirma.

Para ele, essa mudança está diretamente relacionada à forma como o poder norte-americano se consolidou ao longo do século XX, especialmente através da centralidade do dólar no sistema financeiro internacional.

“O que sustenta a posição dos Estados Unidos no sistema global não é apenas sua força militar, mas principalmente o papel do dólar como moeda de referência internacional. Isso permite que o país tenha uma capacidade de financiamento e influência que vai muito além da sua economia real”, observa.

Sabino argumenta que esse modelo começa a ser gradualmente tensionado pelo crescimento das trocas econômicas entre países emergentes e pela diversificação dos fluxos comerciais globais.

“O que estamos vendo é um aumento progressivo das relações comerciais entre países do Sul Global, muitas vezes realizadas fora dos circuitos financeiros tradicionais dominados pelo Ocidente. Isso não significa uma ruptura imediata, mas uma transformação acumulativa do sistema”, explica.

Ele interpreta esse processo como parte de uma disputa mais ampla sobre o futuro da governança econômica global.

“Existe uma disputa em curso que não é apenas comercial ou tecnológica, mas estrutural. Ela diz respeito à forma como o sistema internacional organiza sua circulação de valor, suas moedas e seus mecanismos de financiamento”, afirma.

Sabino destaca que a questão monetária ocupa um lugar central nesse processo de transição.

“A moeda não é apenas um instrumento técnico de troca. Ela é também um elemento de poder. E qualquer alteração na centralidade do dólar implica uma reconfiguração profunda das relações internacionais”, observa.
Ele conclui que o sistema internacional já está em movimento de mudança, ainda que de forma gradual e não linear.

“O que estamos vivendo não é uma ruptura abrupta, mas um processo de transição histórica em direção a um sistema mais multipolar, no qual diferentes centros econômicos passam a coexistir e disputar influência em diferentes níveis”, afirma.

América Latina sob pressão: soberania, Venezuela e Cuba

Sabino afirma que a América Latina voltou ao centro da disputa global por seus recursos estratégicos, o que amplia a pressão sobre a soberania dos países da região.

“Temos grandes recursos energéticos, alimentares, minerais e uma capacidade humana muito significativa. O problema é que essa riqueza, em vez de se transformar em um vetor de desenvolvimento autônomo, frequentemente se converte em objeto de disputa externa e condicionamento político”, afirma.
Ele interpreta esse processo como parte de uma lógica histórica de intervenção que se adapta às novas dinâmicas do sistema internacional.

“Existe uma continuidade histórica de intervenção sobre a América Latina, que hoje assume formas mais diretas e menos mediadas do que no passado, especialmente quando estão em jogo recursos estratégicos”, observa.

O caso da Venezuela, segundo ele, condensa essa dinâmica e revela sua dimensão geopolítica mais ampla.

“Quando você atua de forma tão direta sobre um país como a Venezuela, isso não é apenas um conflito bilateral. É um precedente para toda a região. E esse tipo de ação também deve ser entendido dentro de um tabuleiro global maior, onde entram recursos energéticos e reconfigurações de fluxos internacionais”, afirma.
Sabino acrescenta que esse cenário expõe uma vulnerabilidade estrutural da região caso não haja articulação política entre os países latino-americanos.

“Estamos falando de petróleo, de energia, de recursos naturais fundamentais. Sem coordenação regional, esses elementos acabam sendo disputados externamente e não convertidos em desenvolvimento próprio”, diz.

Ele também observa uma mudança no modo como essas disputas são conduzidas.

“Em outros momentos havia uma mediação discursiva mais elaborada. Hoje, em muitos casos, a disputa aparece de forma mais direta, mais explícita, em torno de interesses estratégicos concretos”, afirma.
Para Sabino, esse processo não pode ser dissociado de uma transformação mais ampla da ordem internacional.

“Estamos entrando em um momento em que não é apenas a economia ou a tecnologia que estão mudando, mas também a própria forma de exercício da hegemonia global”, conclui.

No caso de Cuba, ele destaca a permanência do bloqueio econômico e sua dimensão histórica, ao mesmo tempo em que ressalta a capacidade de resistência e desenvolvimento do país.

“Cuba conseguiu desenvolver capacidades científicas e tecnológicas importantes mesmo sob um bloqueio que já dura mais de seis décadas. É um país que, apesar das restrições, conseguiu avançar em áreas estratégicas como biotecnologia e saúde pública, inclusive em momentos críticos como a pandemia”, afirma.

Integração latino-americana e disputa de modelos de desenvolvimento

Sabino afirma que, diante da atual reconfiguração da economia mundial, a América Latina precisa repensar suas estratégias de desenvolvimento e fortalecer mecanismos próprios de integração regional.

Ele sustenta que o potencial da região é significativo, mas ainda pouco articulado do ponto de vista político e institucional.

“Temos grandes recursos energéticos, alimentares, minerais e uma capacidade humana muito importante. O desafio é transformar esse potencial em um projeto comum de desenvolvimento, e não em economias fragmentadas e dependentes de dinâmicas externas”, afirma.

Para ele, parte das limitações atuais da região está ligada a escolhas históricas de orientação geopolítica e à persistência de uma visão eurocentrada dentro das próprias instituições nacionais.

“Existe ainda uma tendência muito forte de olhar para a Europa ou para o chamado Norte Global como referência principal de desenvolvimento, quando hoje o centro dinâmico da economia mundial já se deslocou para outras regiões, especialmente a Ásia”, observa.

Sabino argumenta que essa mudança exige uma revisão profunda das estratégias diplomáticas e econômicas dos países latino-americanos.

“Não se trata de copiar modelos, mas de entender as transformações em curso e construir respostas próprias, a partir das realidades e potencialidades da região”, afirma.

Ele destaca que iniciativas de integração regional são fundamentais para aumentar a capacidade de negociação coletiva da América Latina no cenário internacional.

“Sem coordenação entre os países, cada um isoladamente tem menos capacidade de negociação e acaba mais exposto a pressões externas. A integração é, portanto, também uma questão de soberania”, explica.
Sabino também relaciona essa discussão à necessidade de formação de novas lideranças com outra visão estratégica do sistema internacional.

“É importante formar lideranças que compreendam essas mudanças estruturais e que não reproduzam automaticamente visões ultrapassadas do sistema internacional. Isso passa por universidades, centros de pesquisa e também pela formulação de políticas públicas”, afirma.

Ele conclui que o momento atual pode representar uma oportunidade histórica para a América Latina redefinir seu papel no sistema global.

“O cenário internacional está em transformação, e isso abre uma janela de oportunidade para que a América Latina construa maior autonomia e capacidade de decisão coletiva”, observa.

Taiwan e o princípio de Uma Só China

Sabino afirma que a disputa em torno de Taiwan deve ser compreendida dentro do princípio de integridade territorial e da disputa mais ampla por soberania no sistema internacional.

“Quando falamos de integridade territorial, estamos falando de um princípio que não pode ser aplicado de forma seletiva. Ou ele vale para todos os países, ou perde completamente sua legitimidade no sistema internacional”, afirma.

Ele sustenta que a posição chinesa sobre o tema se baseia em uma lógica histórica e institucional, e não em uma postura de confronto militar.

“No caso da China, há uma posição consolidada de defesa do princípio de ‘uma só China’, combinada com uma abordagem política que privilegia soluções graduais e fórmulas institucionais como ‘um país, dois sistemas’, já aplicadas em Hong Kong e Macau”, explica.

Sabino destaca ainda que a dimensão econômica torna essa relação altamente interdependente.
“A relação entre Taiwan e o continente chinês é profundamente integrada do ponto de vista econômico e produtivo. Isso cria um nível de interdependência que precisa ser considerado em qualquer análise política séria sobre o tema”, observa.

Ele critica o uso da questão por potências externas como instrumento de disputa estratégica no Indo-Pacífico.
“O que se observa é a utilização dessa questão por atores externos como forma de tensionar o ambiente regional e reorganizar o equilíbrio de forças na Ásia”, afirma.

Sabino amplia essa leitura para um padrão mais amplo de atuação internacional baseado na fragmentação política.

“Existe um padrão recorrente de atuação internacional que consiste em estimular disputas regionais quando não há capacidade de controle direto. Esse mecanismo aparece em diferentes regiões do mundo, sempre que há disputa por influência estratégica”, diz.

Ele também associa esse debate a um problema mais amplo de coerência no sistema internacional.
“Não se pode defender princípios como soberania e integridade territorial de forma seletiva. Isso fragiliza o próprio sistema internacional e abre espaço para interpretações oportunistas”, conclui.

Fragmentação global e disputa de influências no sistema internacional

Sabino afirma que o sistema internacional atravessa uma fase de crescente fragmentação, marcada pela disputa entre diferentes centros de poder e pela perda de capacidade de coordenação global por parte das estruturas que dominaram o período pós-Segunda Guerra Mundial.

Ele interpreta esse processo como uma característica típica de momentos de transição hegemônica.
“Quando uma ordem internacional começa a perder centralidade, ela tende a se fragmentar em múltiplos polos de poder, com diferentes níveis de influência, o que torna o sistema mais instável e menos previsível”, afirma.

Para ele, essa fragmentação não se expressa apenas em rivalidades diretas entre Estados, mas em uma multiplicação de mecanismos indiretos de influência.

“As disputas contemporâneas não se dão apenas de forma aberta entre grandes potências, mas também através de redes de alianças, pressões regionais e disputas por alinhamento político e econômico”, observa.
Ele destaca ainda que esse cenário está diretamente ligado à transição mais ampla da ordem global, na qual diferentes centros econômicos e políticos passam a coexistir.

“O mundo está deixando de ser organizado em torno de um único centro hegemônico e passa a operar em um sistema mais distribuído, no qual diferentes regiões e blocos exercem influência em níveis distintos”, explica.
Ele argumenta que esse processo não é conjuntural, mas estrutural, e tende a redefinir profundamente as relações internacionais nas próximas décadas.

“O que estamos vivendo não é uma oscilação passageira, mas uma transformação estrutural da ordem internacional, com impactos duradouros na forma como os Estados se relacionam e projetam seu poder”, afirma.

Sabino conclui que compreender essa dinâmica é fundamental para interpretar os demais fenômenos discutidos ao longo da entrevista, desde a disputa entre China e Estados Unidos até os efeitos sobre a América Latina.

“Todos esses elementos fazem parte de um mesmo processo histórico mais amplo de reconfiguração do sistema internacional”, observa.

Source link