Antes de desfilar na Sapucaí, prostitutas de várias gerações ocupam o edifício Balança Mas Não Cai, para discutir memória e representação

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Poucas horas antes de entrar na Marquês de Sapucaí para desfilar na Unidos do Porto da Pedra no sábado (14), profissionais do sexo, ativistas e artistas ocuparam o edifício Balança Mais Não Cai, símbolo da prostituição no Rio de Janeiro e que fica a uma quadra do sambódromo, para resgatar a memória e discutir direitos.

Organizada pelo Coletivo Puta Davida e pela Rede Brasileira de Prostitutas, articulação nacional fundada nos anos 1980, a atividade reuniu diferentes gerações do movimento. Com ocupação da calçada e um dos andares, a programação incluiu exposição sobre a trajetória do movimento de prostitutas no Brasil, performances artísticas, projeções de arquivos históricos e uma roda de conversa aberta ao público.

O objetivo foi marcar presença em um território historicamente associado à repressão e afirmar a dimensão política da organização das trabalhadoras do sexo, no mesmo dia em que a prostituição aparecia como recorte temático no desfile oficial.

Entre as participantes, a presença de Lourdes Barreto, 83 anos, destacou a dimensão histórica do movimento. Ela relembrou prisões arbitrárias durante o regime militar e a organização do primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, em 1987. “Em 83, a gente estava indo presa sem ter cometido crime nenhum”, afirmou.

Segundo Lourdes, o reconhecimento atual do debate público é resultado de décadas de articulação coletiva. “O que existe hoje foi feito por mulheres que apanharam muito.”

Ela também reafirmou o uso da palavra “puta” como escolha política. “Eu sei o que é ser puta e assumir que é puta. Nunca usei apelido.”

“Eu sou puta.” Tatuagem no braço de Lourdes Barreto, ícone histórico da organização das prostitutas no Brasil
“Eu sou puta.” Tatuagem no braço de Lourdes Barreto, ícone histórico da organização das prostitutas no Brasil | Crédito: Lucas Meola

Oficialmente zona de prostituição

No início do século 20, a área do Mangue, nas imediações da Praça Onze, foi oficialmente delimitada como zona de prostituição da cidade. Mulheres flagradas trabalhando em outros pontos eram conduzidas à força para lá. O território era controlado pelo poder público, que regulamentava o espaço sem reconhecer direitos.

Erguido sobre antigo manguezal drenado para expansão urbana, o prédio conhecido como Balança Mas Não Cai virou símbolo da região. Construído sobre solo instável, o prédio “balançava, mas não caía” — expressão que atravessou décadas associada à boemia, à malandragem e à prostituição.

Reformas urbanas ao longo do século 20 redesenharam o território e deslocaram trabalhadoras do sexo para outras áreas, apagando parte da memória da antiga zona oficial.

Quem escreve o Carnaval

A roda de conversa organizado pelas profissionais do sexo foi conduzida a partir da pergunta: “Se o enredo do Carnaval fosse escrito por putas, o que a sociedade veria na Sapucaí?”

As respostas apontaram para a necessidade de superar representações estereotipadas. Participantes argumentaram que uma trama construída por profissionais do sexo incluiria a história do Mangue, as expulsões urbanas e a organização política da categoria.

A ativista Naara Maritza afirmou que a prostituição não pode ser reduzida à caricatura sensual. “Puta não é fantasia. Não existe uma única imagem possível. Já peguei cliente no mercado, indo para a faculdade, de calça jeans — porque a gente não cabe num estereótipo.”

Carro alegórico da G.R.E.S. Unidos do Porto da Pedra no desfile da Sambódromo da Marquês de Sapucaí homenageia a ativista Lourdes Barreto.
Carro alegórico da Unidos do Porto da Pedra, que homenageou a ativista Lourdes Barreto | Crédito: Lucas Meola

Também foi destacada a dimensão econômica da atividade. “Não é só abrir as pernas. A gente produz cultura, produz dinheiro, sustenta família.”

Houve ainda quem defendesse a inclusão dos clientes na narrativa carnavalesca. “Mostrar o que tem por trás dos quartos. O que ninguém admite, mas consome.”

Durante a atividade, a fotógrafa e ativista Suellen Melo, integrante do coletivo organizador, apresentou sua filha ao público. No meio da roda, segurando a criança nos braços, fez uma declaração que misturou afeto e afirmação política.

“Essa aqui é a Lua. Nasceu no dia 25 de dezembro. Trazendo muita alegria para quem a conhece. É uma filha da puta que só me traz amor. Eu decidi só entregar amor.”

‘A prostituição nos salvou’

No encerramento da atividade, a travesti Indianarae Siqueira, integrante da Rede Brasileira de Prostitutas e do coletivo Puta Davida, relacionou o debate carnavalesco à luta por direitos trabalhistas e reconhecimento da população trans.

Ela defendeu que travestis e mulheres trans ocupariam posição central em um enredo escrito por prostitutas. “Óbvio que teriam muitas travestis, muitas trans na avenida.”

Para Indianarae, o trabalho sexual foi, historicamente, uma das poucas possibilidades de autonomia financeira para pessoas trans excluídas do mercado formal e ela comparou essa experiência à divisão tradicional do trabalho doméstico e às relações econômicas invisibilizadas no casamento.

“As mulheres casavam para se livrar do julgo dos pais, para ter um teto e alguém que pagasse as contas. As travestis não podiam contar com isso. A prostituição foi a forma de ter independência financeira.”

“As esposas tinham que lavar, passar, cozinhar, fazer tudo — e não recebem por isso. A gente recebe ao menos pelo sexo.”

Ao citar a pensadora feminista Silvia Federici, Indinarae sintetizou sua crítica: “O que vocês chamam de amor é apenas trabalho não remunerado.”

Na madrugada, depois da ocupação no antigo território do Mangue, as putas seguiram para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí e subiram no carro alegórico da Unidos do Porto da Pedra, que homenageou as trabalhadoras do sexo e levou para a avenida uma alegoria dedicada a Lourdes Barreto.

Se durante o dia ocuparam o Balança Mas Não Cai para disputar memória, à noite ocuparam a própria avenida — não como fantasia, mas como parte viva da história que desfilava.

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