Após condenações, luta por legado de Marielle Franco mira memória e futuro político do Brasil: ‘Justiça passa pela não repetição’, diz filha

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O 14 de março de 2026 é o primeiro em que a luta em torno de Marielle Franco já não está organizada apenas pela ausência de respostas sobre quem mandou matá-la. Oito anos após o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro (RJ), a data passa a ser atravessada por outra pergunta: qual o futuro do legado político de Marielle agora que executores e mandantes já foram condenados?

Para a família, a mudança de chave não apaga a dimensão da perda. Filha de Marielle e atual diretora executiva do Instituto Marielle Franco, Luyara Franco afirma que a responsabilização penal não encerra o sentido de justiça. “Justiça seria se minha mãe e o Anderson estivessem aqui, porque ela foi eleita com 46 mil votos e não tem como, no processo democrático, você discordar à base da bala, de descartar a vida dessa forma. Mas, com certeza, apesar da dor e do vazio, é um certo alívio ver realmente essa responsabilização”, disse ao Brasil de Fato.

Em outubro de 2024, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, executores do crime, foram condenados pelo 4º Tribunal do Júri do Rio pelos assassinatos de Marielle e Anderson e pela tentativa de homicídio contra Fernanda Chaves, assessora da vereadora que estava no carro. Já em fevereiro de 2026, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Domingos Brazão e Chiquinho Brazão a 76 anos e 3 meses de prisão, cada um, por organização criminosa, duplo homicídio e tentativa de homicídio contra Fernanda Chaves. No mesmo julgamento, Rivaldo Barbosa foi condenado a 18 anos de prisão por obstrução de Justiça e corrupção; Ronald Alves de Paula, a 56 anos; e Robson Calixto, a 9 anos.

Para Luyara, no entanto, a etapa judicial vencida abre outra frente de disputa. “A justiça passa pela responsabilização, passa pela não repetição com outros casos de violência política de gênero e raça, passa pela reparação para as famílias também. É uma luta contínua”, afirmou.

A formulação ajuda a definir o novo sentido deste 14 de março: menos a paralisia diante da impunidade, mais a disputa sobre memória, continuidade política e garantias para que o crime não se repita.

Essa nova fase aparece tanto nas ações do Instituto Marielle Franco quanto nas leituras de aliadas políticas da vereadora. A deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ) afirma que “não há reparação” possível para as famílias, para os amigos de Marielle e Anderson nem para o povo do Rio, mas define o julgamento dos mandantes como “histórico”.

Já a deputada estadual Renata Souza (Psol-RJ), amiga de longa data de Marielle e ex-integrante de seu gabinete, diz que a condenação representa “um marco na nossa democracia brasileira”, ainda que tardio.

Nas falas de Luyara, Talíria e Renata, a resposta para o futuro do legado de Marielle Franco aparece em camadas: manter a memória viva, defender acesso à justiça para outros casos, enfrentar a violência política, romper a naturalização da presença armada e miliciana nas estruturas do Estado e abrir caminho para que mais mulheres negras ocupem a política institucional sem serem interrompidas.

No caso de Luyara, essa projeção de futuro aparece também como sonho formulado em primeira pessoa, mas com evidente dimensão pública. “Eu sonho com um país onde uma mulher eleita com 46.502 votos não seja tombada da forma que minha mãe foi. Que mulheres que ocupam os lugares de poder hoje não se sintam ameaçadas e cerceadas do direito de se expor e colocar seus valores”, disse.

STF condena envolvidos na morte de Marielle Franco e Anderson Gomes / Foto: Valter Campanato - Agência Brasil
STF condenou envolvidos na morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Na foto, a família de Marielle. Ao centro, a filha Luyara Franco | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Do crime político à disputa sobre o futuro

Desde o dia seguinte ao assassinato, familiares, aliadas e movimentos populares trataram a morte de Marielle como um crime político. A leitura não se restringia à execução de uma parlamentar eleita: apontava para um ataque à democracia e às possibilidades de presença de mulheres negras, faveladas e LGBTs nos espaços institucionais de poder.

Ao longo dos oito anos seguintes, o caso atravessou trocas de comando nas investigações, lentidão, pressão pública, delações e a revelação cada vez mais nítida de vínculos entre milícia, agentes públicos e estruturas do Estado.

A responsabilização dos mandantes pelo STF, em fevereiro deste ano, deu contorno judicial a uma interpretação sustentada desde 2018 por familiares e apoiadores: a de que o assassinato de Marielle não foi um homicídio comum, mas uma execução política.

Talíria diz que o julgamento foi histórico porque colocou no banco dos réus “agentes públicos” acusados de integrar milícias e mandar matar uma vereadora. “Não há reparação para as famílias de Mari e de Anderson, não há reparação para pessoas como eu, amigos da Mari. Não há reparação para o povo do Rio de Janeiro que elegeu Marielle Franco. Então, a dor segue muito profunda. Agora, é um julgamento histórico”, afirmou.

Na avaliação da deputada, o caso também deixou exposta a infiltração do crime organizado nas instituições do Estado. Ela defende que o assassinato de Marielle seja lido como parte de uma engrenagem mais ampla, que mistura política institucional, grupos milicianos e violência armada no Rio de Janeiro.

Renata, por sua vez, chama o caso de “esse feminicídio político” e afirma que a condenação dos mandantes precisa ser lida como marco democrático, mas também como evidência das fragilidades da democracia brasileira. Para ela, o crime mostrou “uma linha muito perigosa de violência política de gênero” que pode culminar no assassinato de mulheres que ousam ocupar espaços de poder.

Memória, cultura e sementes de Marielle

Se durante anos o 14 de março esteve associado sobretudo à exigência de justiça, em 2026 a programação organizada pelo Instituto Marielle Franco explicita outra etapa. Neste sábado (14), haverá missa em memória de Marielle e Anderson, às 9h, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no centro do Rio. Após a cerimônia, familiares concedem entrevista coletiva em frente à estátua de Marielle, no Buraco do Lume. Às 17h, será aberta ao público a exposição Mulher Raça: O Legado de Marielle Francono Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Rio. No domingo (15), a programação segue com a 5ª edição do Festival Justiça por Marielle e Anderson, no Circo Voador.

A mostra no CCBB apresenta a trajetória política de Marielle em quatro eixos, entre eles luto, luta, justiça e legado, a partir de documentos, fotografias e registros audiovisuais. O próprio desenho da exposição aponta para a tentativa de apresentar a vereadora não apenas como símbolo de uma ausência violenta, mas como referência viva de organização política, memória popular e projeto de futuro.

Luyara afirma que esse esforço passa por encontrar novas formas de falar com as gerações mais jovens e de transformar o legado de sua mãe em continuidade política. “A gente vem de uma geração um pouco desacreditada desse esperançar e de acreditar num futuro possível. Então, a gente também entende aqui no instituto que pode ter outras linguagens para ativar essas outras comunidades”, disse.

É nessa chave que o instituto organiza sua atuação em quatro pilares permanentes: justiça, memória, legado e “sementes”. Na prática, isso significa preservar a trajetória de Marielle, disputar sua memória pública, defender acesso à justiça em outros casos e formar, conectar e fortalecer mulheres negras, pessoas LGBT+ e periféricas na política e na vida pública.

Ao longo dos últimos anos, essa atuação combinou combate à violência política, produção de pesquisa e construção de memória. Mais recentemente, aparece de forma mais institucionalizada em frentes como a Diário de Marielle Francodefinida por Luyara como um compilado de princípios, valores e propostas colocado à disposição de candidaturas comprometidas com esse campo político, sobretudo em ano eleitoral.

Também entram nesse esforço a rede de apoio a familiares de vítimas de violência do Estado, a comunicação de casos emblemáticos e iniciativas culturais e pedagógicas que ampliam o alcance do legado de Marielle. Nessa arquitetura, o festival e a exposição não aparecem como eventos isolados de homenagem, mas como parte de uma estratégia de memória pública, formação política e multiplicação das sementes deixadas pela vereadora.

Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco, explica, ao Conversa Bem Viver, objetivos da Marcha Nacional das Mulheres Negras
Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco | Crédito: Divulgação/Instituto Marielle Franco

Mais mulheres negras na política, com proteção

Ao falar sobre futuro, Luyara parte do debate sobre a memória para as condições concretas de participação política. “É muito importante que a sociedade civil, as organizações, façam o trabalho, mas também a gente vai precisar de mulheres ali, nos lugares de tomada de decisão, realmente fazendo as políticas públicas”, afirmou.

A ideia atravessa também as falas de Talíria e Renata. Para ambas, o caso Marielle escancarou o modo como a violência política de gênero e raça opera para intimidar não apenas quem já ocupa mandatos, mas também quem pensa em disputar espaço institucional.

Talíria afirma que a escolha de Marielle como alvo não foi casual. “Escolheram esse corpo porque entendiam que esse corpo era um corpo descartável. Isso também compõe o que é essa execução política de Marielle, que culminou também na trágica execução de Anderson”, disse. Para a deputada, enfrentar esse quadro exige proteger mulheres negras na política e ampliar sua presença nos espaços de decisão.

Renata segue a mesma linha. “A violência política de gênero e raça é uma peça fundamental para manutenção de homens brancos de uma elite política e econômica nos espaços de poder”, afirmou. Segundo ela, esse tipo de violência envia um recado coletivo às mulheres: o de que elas não deveriam ocupar esses lugares.

Os números disponíveis ajudam a mostrar que não se trata de exagero retórico. Levantamento citado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostrou que, nos 15 meses seguintes à tipificação da violência política contra a mulher como crime, o Ministério Público Federal registrou 112 procedimentos relacionados ao tema, média de sete casos a cada 30 dias.

Para as entrevistadas, a persistência das ameaças ajuda a explicar por que a entrada e a permanência de mulheres negras na política ainda são vividas como risco.

Violência de gênero e raça segue estruturando o presente

A discussão sobre o futuro do legado de Marielle também acontece em um país onde a violência contra as mulheres continua crescendo. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado neste mês apontou que 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Do total, 62,6% eram mulheres negras.

Os dados não descrevem o mesmo tipo de crime cometido contra Marielle, mas ajudam a situar o caso dentro de uma estrutura mais ampla de violência de gênero e raça. Para Renata, o assassinato da vereadora precisa ser entendido nesse terreno. Ao falar de “feminicídio político”, a deputada busca justamente marcar que a eliminação de uma mulher negra na política não pode ser dissociada da forma como o poder se organiza no país.

Ela também vincula o caso à exclusão persistente de mulheres, negros e LGBTs dos principais espaços institucionais. “Temos que discutir os marcos da democracia brasileira que não aceita que mulheres, mulheres negras, LGBTs cheguem nos espaços de poder”, afirmou.

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