Um dos argumentos para quem defende a operação das bets, as casas de aposta online, é a possibilidade de tributação e recolhimento de impostos. Contudo, os malefícios causados pelo vício, com danos à saúde mental e o endividamento das famílias brasileiras, fazem com que essa conta não feche.
Em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de FatoIago Montalvão, doutorando em Economia na Unicamp e pesquisador do Transforma-Unicamp, explica que a tributação se justificaria também para dissuadir o consumo, o que não está acontecendo. “O ideal é que esse tipo de prática fosse proibida ou rigorosamente regulamentada, como acontece com o caso do cigarro, por exemplo. Medidas mais enérgicas são necessárias porque não se pode justificar algo desse tipo — que tem impacto tão relevante para a vida das pessoas e também para a economia — em nome da receita tributária”, avalia.
Montalvão destaca que esse mercado foi aberto durante o governo Michel Temer e ampliado durante a gestão de Jair Bolsonaro. Agora, o governo Lula tenta colocar limites no setor com várias iniciativas, como o bloqueio de recursos de bets ilegais. Nesse sentido, continua o economista, o papel de órgãos reguladores é muito importante. “O grande problema desse setor é entender onde estão os fluxos, quais são os valores, para quem vai o lucro dessas movimentações. Isso vem melhorando. O Banco Central hoje em dia consegue fazer uma análise melhor desses fluxos. Também, no pacote de regulamentações, foi proibida a operação de empresas que não têm sede no Brasil, porque, muitas vezes, apostadores perdiam dinheiro que ia para contas fora do Brasil, ou seja, é a fuga de recursos. É um setor que movimenta muito dinheiro e tem a capacidade de influenciar decisões políticas”, pondera.
Iago Montalvão alerta que o vício surge em decorrência de um cenário maior do que apenas uma escolha individual, e as consequências também repercutem para além do indivíduo. “São fatores psicológicos, sociais, que levam as pessoas a buscarem enriquecimento em uma sociedade muito desigual. A gente sabe que tudo isso pressiona uma pessoa a buscar formas mais fáceis de buscar renda. Não é como se houvesse espaço para liberdade de escolha. Mas é importante chamar a atenção em como isso impacta não apenas a pessoa que está endividada, como os familiares, as pessoas no entorno e até a economia como um todo”, explica.
“É um dinheiro da economia de consumo que está sendo retirado. Então não é um problema individual. Embora de fato ele afete de forma brutal as pessoas (viciadas), em última instância é um problema coletivo.” Para desenvolver o raciocínio, o especialista compara a situação à vacinação. “Você não toma vacina apenas por você; você está se vacinando por todos. Então tem um pouco dessa confusão de individualidade e coletividade. E as bets são um problema de todos”, pontua.
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