as lutas em comum pelo povo – Brasil de Fato

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Marielle Franco incomodava. Mulher negra, favelada e lésbica, a vereadora era uma pedra no sapato de caciques com amplo domínio territorial, poderio financeiro e influência política. Marielle foi vítima de um feminicídio político porque enfrentou as milícias e ousou contrariar os interesses de criminosos poderosos. O assassinato da parlamentar escancarou o submundo das alianças espúrias entre milicianos, políticos, policiais e outros agentes públicos. Após quase 8 anos de impunidade, os mandantes e o autor intelectual do crime foram condenados por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira, 25 de fevereiro. A justiça tardou e falhou várias vezes, mas, enfim, prevaleceu.

Ao realizar reuniões com moradores das zonas Oeste e Sudoeste, legislar sobre concentração fundiária e impor obstáculos à tramitação de projetos que interessavam aos milicianos, a vereadora tornou-se alvo dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, que agora cumprirão 76 anos de prisão. O ex-deputado federal e o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro comandavam uma organização criminosa e exerciam domínio por meio da ocupação de territórios e grilagem de terras, com imposição de violência e medo.

Às vezes me pergunto se ela tinha alguma ideia de que sua atuação política corajosa poderia custar-lhe a vida. Infelizmente, não tive a honra de dividir o plenário com Marielle, mas sempre reconheci nossas lutas em comum e a enxerguei como fonte de inspiração para diversas mulheres jovens na política. A trajetória de Marielle dialoga diretamente com as lutas históricas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Marielle era uma ferrenha defensora das políticas públicas de regularização fundiária, moradia popular, reforma urbana e democratização do acesso à terra. Ela dedicou sua vida à luta por direitos humanos e justiça social. Todos esses elementos fazem parte, necessariamente, de um projeto político comprometido com a Reforma Agrária Popular. Marielle empunhava na cidade e nos territórios periféricos as bandeiras que o MST sempre levantou no campo. Honrar o legado de Marielle significa levar adiante, no campo e na cidade, todas as lutas pelas quais ela viveu e morreu.

Vereadora Maíra do MST – Crédito: Divulgação/ Câmara de Vereadores do Rio

O assassinato de Marielle expôs o ecossistema criminoso que atua dentro das estruturas do Rio de Janeiro. Um sistema letal que articula milícias, grilagem de terras, facções, contravenção, racismo estrutural e misoginia. É a política institucional capturada pelo crime: dezenas de milicianos, traficantes e bicheiros eleitos para representar os interesses do crime organizado dentro dos poderes legislativo, executivo e até do judiciário.

Os irmãos Brazão contavam com aliados muito bem pagos dentro das instituições públicas, como o ex-chefe de Polícia Civil Rivaldo Barbosa, para destruir provas, encobrir rastros, obstruir inquéritos, atrasar investigações, ameaçar testemunhas. O executor Ronnie Lessa, condenado por puxar o gatilho, admitiu que o crime lhe renderia R$ 100 milhões em terrenos em Jacarepaguá para loteamento, além da promessa de criação de uma nova milícia, que seria comandada por ele na região.

Esse ecossistema que matou Marielle segue operando e ampliando seus tentáculos. Um exemplo recente disso é o escândalo envolvendo o presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar. O deputado estadual vazou informações sigilosas da operação que prendeu o TH Jóias por ligações com o Comando Vermelho. É o tráfico agindo dentro do Estado por meio do voto legítimo. Até quando a sociedade vai tolerar esse absurdo?

A responsabilização dos mandantes afirma algo essencial: ninguém está acima da lei. O resultado do julgamento fortalece as instituições e envia um recado claro aos podres poderes do sistema político: cargo público não pode servir de escudo para cometimento de crimes. Esse caso bárbaro nos convoca a um posicionamento firme sobre o valor do voto e da própria democracia. É urgente romper a relação do Estado com o crime e transformar radicalmente a estrutura política do Rio de Janeiro. É a nossa chance de refundar o marco de um novo Brasil. Justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes é o compromisso com a democracia brasileira.

*Maíra do MST é vereadora da cidade do Rio de Janeiro, professora de História e doutoranda em História pela UERJ.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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