Depois de 20 anos na luta para conquistar a posse da terra, as famílias do Assentamento Irmã Dorothy, na cidade de Quatis, no sul do Rio de Janeiro, agora contam os dias à espera de uma luz. Literalmente. Reconhecido oficialmente em 2025 pelo Governo Federal, o assentamento ainda não possui energia elétrica em todo o território, mas uma ação entre universidades e movimentos populares irá mudar a vida de 15 das 45 famílias que vivem no local: cada uma receberá um kit de energia solar, que permitirá o uso de eletrodomésticos como geladeira e máquina de lavar, além de abrir caminho para melhorar a comunicação entre os camponeses e o restante do mundo, já que, sem energia, não é possível carregar o celular nem ter acesso à internet.
A iniciativa é uma parceria do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) com o programa Tecnologia e Gestão em Agroecologia e Assentamentos da Reforma Agrária (Tangará) vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ainda em maio, técnicos da UFRJ irão ao Irmã Dorothy para verificar e adequar as condições das casas para a implantação do sistema de energia solar. Além disso, o projeto também formará técnicos na própria comunidade, para atender às necessidades diárias de manutenção dos equipamentos. A parceria também inclui a instalação de uma usina de energia solar no assentamento Roseli Nunes, ambos no sul fluminense.
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Edineia Pinto, de 49 anos, mora no Irmã Dorothy desde 2014 e será uma das famílias beneficiadas. Mãe de uma pessoa com deficiência, teve prioridade nesta primeira fase do projeto. “Vai mudar muita coisa. Vamos poder nos comunicar com nossas famílias. Muitos assentados precisam andar mais de 40 minutos para chegar à cidade ou ao local mais próximo com energia para carregar o celular e manter contato com outras pessoas”, celebra a agricultora, que ganha a vida produzindo licor de jabuticaba, milho e criando galinhas.
Em paralelo à instalação dos painéis solares, a camponesa também comemora a chegada da energia elétrica pela concessionária, que começou a ser instalada na semana passada, mas destaca a importância dos kits. “A energia produzida pelos kits não precisará ser paga, como a outra, então é muito importante para a gente. Com ela, vamos, por exemplo, poder ligar uma bomba de água para irrigar os nossos quintais produtivos”, completa Pinto, que também é dirigente estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A ação é um dos resultados práticos da Jornada Universitária pela Reforma Agrária (Jura), surgida em 2013 e que realiza atividades em todo o país. “A Jura surge como uma necessidade de ampliar o debate em defesa da reforma agrária e também de denunciar a violência no campo”, destaca Eró Silva, da coordenação nacional do MST.
Encontro de Tecnologias e Saberes

Integrando a programação da Jornada Universitária pela Reforma Agrária (Jura) que acontece em diferentes instituições de ensino de todo o país, o Programa Tangará organiza entre os dias 5 e 7 de maio o 1º Encontro de Tecnologias e Saberes em Agroecologia e Reforma Agrária. A programação é gratuita e inclui oficinas de formação técnica, debates e uma feira agroecológica com camponeses do Rio. O programa está vinculado ao Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (Nides) da UFRJ e o encontro é realizado no Centro de Tecnologia da Universidade, localizado na Ilha do Governador, zona norte da capital fluminense.
Este ano o tema da Jornada é “Basta de Violência contra os Povos e a Natureza!”, em referência aos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. “A Jura é uma articulação que busca sensibilizar o meio acadêmico para a questão da reforma agrária. Este ano, estamos fazendo uma homenagem à resistência camponesa no Massacre de Eldorado dos Carajás, que completa 30 anos em 2026”, destaca o professor Felipe Addor, do Nides, lembrando o episódio em que 21 camponeses foram assassinados, em 1996, pela Polícia Militar do Pará enquanto marchavam para exigir terra para a reforma agrária.

