Atividades simples e brincadeiras fortalecem vínculos e contribuem para o desenvolvimento infantil

Publicada em

Com a suspensão das atividades escolares durante as férias, muitas famílias precisam reorganizar a rotina para atender às demandas das crianças, que passam a ter mais tempo livre e maior necessidade de atenção. Entre o trabalho dos adultos, os afazeres domésticos e a presença constante das telas, o desafio de manter os pequenos entretidos pode ser grande. Especialistas e mães apontam, no entanto, que brincadeiras simples, de baixo custo e realizadas em casa ou na rua podem cumprir um papel importante tanto no lazer quanto no desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças.

Para a pedagoga Nara Camilo, formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e especializanda em Arte-Educação pelo Serviço Nacional de Aprendizagem (Senac), o brincar não deve ser visto como algo secundário no processo de aprendizagem. Segundo Camilo, a brincadeira é uma prática ancestral, por meio da qual as crianças constroem formas próprias de compreender o mundo, experimentar o corpo, o tempo, a comunicação e a relação com o outro. “É através da brincadeira que as crianças sonham, imaginam e reinventam as formas de habitar o mundo. Garantir essa experiência é uma responsabilidade coletiva dos adultos que convivem com elas”, afirma.

De acordo com a pedagoga, o brincar está diretamente ligado à aprendizagem porque permite que a criança desenvolva habilidades de forma integrada, a partir da prática e da convivência. Jogos tradicionais, como o esconde-esconde, por exemplo, contribuem para a noção de contagem, memória, coordenação motora, compreensão de regras e convivência social. “A criança aprende se relacionando com a cultura e com as pessoas. A brincadeira cria esse ambiente de aprendizagem de forma natural”, explica a profissional.

Durante o período de férias escolares, Nara destaca que o ambiente doméstico e comunitário pode ampliar ainda mais essas possibilidades. De acordo com a pedagoga, quando a criança brinca em casa, na rua ou com familiares, em um espaço seguro e com adultos de referência, o envolvimento tende a ser maior, favorecendo diferentes aspectos do desenvolvimento. “Tudo pode se tornar uma brincadeira: qualquer atividade, qualquer momento e qualquer lugar”, pontua.

:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato Ceará no seu Whatsapp ::

Brincadeiras simples e de baixo custo para diferentes idades

Entre as sugestões de atividades de baixo custo, a pedagoga cita brincadeiras adaptadas às diferentes faixas etárias. Para bebês e crianças pequenas, o chamado cesto dos tesouros é uma alternativa acessível, utilizando objetos do cotidiano, como potes, colheres, peneiras, esponjas e bolinhas, que possibilitam experiências sensoriais diversas. Já para crianças com idade mais avançada, atividades como pintura com aquarela feita a partir de temperos naturais, construção de petecas com papel e retalhos de pano, pistas de carrinho desenhadas no chão e jogo de boliche improvisado com garrafas plásticas estimulam a criatividade, a coordenação motora, a memória, a expressão artística e noções matemáticas.

Além das atividades pontuais, Camilo sugere brincadeiras contínuas, como a criação de coleções de objetos simples, por exemplo, pedrinhas, palitos ou papéis coloridos, registrando quantidades, datas e responsáveis. A proposta, segundo ela, permite trabalhar a matemática, a escrita, o uso social dos números e o diálogo sobre memórias da infância, ao mesmo tempo, em que mantém o interesse das crianças ao longo dos dias. As brincadeiras tradicionais também são apontadas como importantes ferramentas de aprendizagem e socialização, como as cantigas de roda, cirandas, amarelinha, pega-pega e esconde-esconde, muitas vezes menos presentes na rotina das novas gerações, mas que contribuem significativamente para o desenvolvimento motor, cognitivo e para o senso de coletividade.

A rotina das famílias durante as férias escolares

Na prática, a reorganização da rotina familiar durante as férias nem sempre é simples. Aline Ferreira, de 28 anos, vendedora e mãe de Pietro Ravi, de 7 anos, e Maria Liz, de 4, relata que o período exige mais disposição dos adultos, especialmente daqueles que trabalham fora. “Muda toda a rotina, principalmente da mãe que trabalha fora. Você tem que fazer brincadeira, levar para parques, porque eles têm muita energia”, afirma. De acordo com Ferreira, os filhos ficam mais próximos e demandam mais atenção da mãe no período das férias, e complementa afirmando que os pequenos “querem sair e comer direto”.

Ferreira conta ainda que as brincadeiras mais frequentes em casa são simples, como jogar bola, brincar de pega-pega e esconde-esconde, além de atividades de pintura. Para ela, a redução do tempo de brincar impacta diretamente o comportamento das crianças. “Quando não brincam, ficam mal-humorados e chatos”, relata a jovem mãe.

Já Maria Geisielly, de 23 anos, atendente e mãe de Ísis Aurora, de 2 anos, descreve uma dinâmica diferente. Segundo ela, a filha costuma criar as próprias brincadeiras e já estabelece uma rotina espontânea de atividades. “Ela é muito inteligente, então ela mesma inventa as brincadeiras dela. Com música também, ela ama dançar e nisso todos dias aparece uma nova ideia de distração. Além disso, ela gosta muito de desenhar e de brincar de casinha com as bonecas que ela tem”, conta. Conforme a mãe, a criança alterna momentos de brincadeira com períodos de descanso, alimentação e banho, sem a necessidade de imposições.

Para a pedagoga Nara Camilo, a participação dos pais ou responsáveis é fundamental, desde que o momento não seja transformado em obrigação escolar. “Estar presente na brincadeira como as crianças vivenciam é essencial. Mesmo com o cansaço da rotina, dedicar um tempo para socializar e partilhar com as crianças faz diferença”, afirma. A profissional sugere que os adultos resgatem brincadeiras da própria infância para fortalecer vínculos e preservar a memória cultural.

Em entrevista ao BdF Cearáa pedagoga orienta os pais e responsáveis a compreender que aprendizagem não se limita aos conteúdos escolares tradicionais, e ressalta que experiências ligadas à imaginação, ao afeto e à vivência cotidiana também produzem aprendizado. Nesse contexto, a redução do tempo de telas é apontada como um fator importante. “Desfocar das telas é fundamental para isso. Somos exemplo para as crianças, se elas nos enxergam o tempo todo nas telas, esse hábito será ainda mais curioso e atrativo”, aponta. Camilo ressalta ainda a necessidade dos pais enxergarem as brincadeiras com uma finalidade, sobretudo de inserir conversas e assuntos transversais para que a interdisciplinaridade esteja centrada nas ações.

Ao longo das férias, equilibrar lazer e aprendizagem passa por reconhecer o brincar como uma experiência completa, capaz de estimular o desenvolvimento infantil, fortalecer vínculos familiares e garantir que o tempo livre seja vivido de forma significativa, mesmo com recursos simples e acessíveis.

:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato Ceará no seu Whatsapp ::

Source link