Atraso no plantio de milho deve comprometer germinação de grãos em Goiás

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Nos 230 quilômetros que separam a capital Goiânia (GO) do município de Rio Verde (GO), as lavouras de milho de segunda safra tomam conta da paisagem do cerrado goiano rumo ao Sudoeste, apesar do atraso no plantio do cereal deste ano em decorrência do clima.

As chuvas atrapalharam a colheita da soja e reduziram, assim, a janela de semeadura da safrinha do milho. Segundo Clodoaldo Calegari, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), o calendário do plantio deveria ter encerrado em 20 de fevereiro, mas foi concluído um mês depois, em 15 de março, o que pode comprometer a germinação dos grãos e, consequentemente, a produtividade.

No ciclo passado (2025), Goiás produziu mais de 13 milhões de toneladas de milho, sendo 11 milhões segunda safra. Para este ano, Calegari teme que, “além da redução da área plantada, há riscos de quebra de produtividade, o que é péssimo para o produtor que já trabalha com margens apertadas”.

“Nossa janela foi empurrada e saímos do tempo ideal para o plantar o milho. Os próximos 15 a 20 dias serão fundamentais para a boa formação das vagens. O produtor não tem como frear o seu negócio da noite para o dia. Estava tudo programado com fertilizantes e sementes comprados”, acrescenta.

Segundo o representante da Aprosoja no estado, agora, o produtor corre o risco sozinho porque não há “seguro para a qualidade”, forma como se refere ao zoneamento na cobertura dos seguros rurais.

“Nunca se teve um atraso tão significativo na área de atuação da Comigo”, diz Beckembauer Ferreira, coordenador técnico comercial da maior cooperativa de produtores do estado. Sem usar o termo recorde, ele detalha que, dentro dos últimos dez anos, o ciclo passado foi um dos melhores em termos de produção da região devido às “boas produções nas regiões mais altas, como Jataí e Serranópolis, com excelente desempenho”.

“Com a presença do fenômeno El Niño, projetada para os próximos meses, o risco de déficit hídrico no final do ciclo é real”, reforça o coordenador.

Milho, o ‘ouro’ das lavouras goianas

Embora a soja seja protagonista, em volume e valor agregado, o milho é a cultura que se reinventou ao longo das três últimas décadas em Goiás.

De acordo com dados da Secretaria de Agricultura de Goiás, a produção goiana se concentra no sul do território, com destaque para os municípios Rio Verde, Jataí, Mineiros e Montividiu. Na segunda safra, a participação da região Sul é ainda mais expressiva, responsável por 82,1% da produção estadual.

Além disso, o cereal faz parte da cultura e da culinária goiana. A pamonha cozida na palha, seja doce ou salgada, é um dos exemplos.

No final da década de 1990, com os avanços tecnológicos, o milho ganhou expressiva produtividade no campo. A produção do safrinha era de cerca de 80 sacas por hectare. Com a adoção de tecnologias, o número saltou para 130 sacas por hectare, patamar atual de produtividade dos cooperados da Comigo.

Na década seguinte, entre os anos 2000, o grão deixou de ser apenas commodity para virar insumo para a produção de proteína animal com o impulso da agroindústria. Marcas como Sadia e Perdigão, que pertencem hoje a gigante MBRF, deram novo uso e valor ao grão.

Agora uma nova era se inicia: a produção de energia por meio do milho. O negócio traz um valor agregado ao cereal e empresas como a Inpasa estão de olho nesta fatia promissora do mercado. A companhia de origem paraguaia anunciou no fim de 2025 a construção da primeira usina de etanol de milho em Goiás. A operação da usina está prevista para começar em março de 2027. A produção deverá demandar 2 milhões de toneladas de milho por ano.

Sem contar a produção de DDG, ou Destilarias de grãos secosou Grãos Secos de Destilaria, que é um “coproduto” da produção de etanol de milho que ganha espaço na alimentação nutrição animal. Rico em  proteínas, o DDG poderá incrementar também a engorda do gado no estado.

A produção vem a calhar, considerando que Goiás tem o segundo maior rebanho bovino do país com destaque para a terminação em confinamento na reta final de engorda.

Para Dorivan Cruvinell, presidente executivo da Cooperativa Comigo que representa cerca de 14 mil produtores, no horizonte, surge mais uma oportunidade de comercialização para os cooperados,  “que servirá de alavanca na comercialização” completa.

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