Ayrton Montarroyos: ‘Fui filho da minha avó, das minhas tias e de mim’

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A história do pernambucano Ayrton Montarroyos para o grande público começou por causa do sobrenome. Era 2015 e Ayrton estava participando do A Vozquando foi convencido por um produtor a confirmar o parentesco com o maestro Marcio Montarroyos. Os dois, no entanto, tinham em comum apenas o sobrenome e a paixão pela música, como lembraria, algum tempo depois, a viúva do maestro que conheceu e acolheu Ayrton.

Ayrton acabou sendo acusado de usar a história para se promover e houve quem dissesse que ele estava no programa apadrinhado por alguém. “As coisas que eu lia há 10 anos era isso: ‘Ele só tá aí porque é rico’, ‘Ele não canta nada’. E foram coisas muito violentas comigo porque potencializaram toda a minha insegurança que, infelizmente, eu tenho pela criação que eu tive, pelos traumas que eu passei na minha vida”, conta durante entrevista no podcast Sabe Som?apresentado por Thiago França.

“Eu fico muito revoltado. Não quero que tenham pena de mim, tampouco quero também carregar uma história que não é minha. Eu não venho de uma família de abastados, não venho de uma família de músicos que me abriram portas”, ressalta.

Nascido na periferia do Recife, Montarroyos conta que teve uma infância modesta, começou a trabalhar aos 11 anos e tinha pouco acesso à música.

“Eu não tive contato com instrumentos musicais. Sei lá, a primeira vez que eu toquei num violão eu devia ter 18 anos de idade. Era muito difícil o acesso na minha casa. Eu não tinha computador até os 13 anos de idade. Na minha primeira infância, eu tive três CDs. E foram aqueles três CDs que eu ouvi durante 11 anos da minha vida. E um pouco por causa disso eu fui me isolando do todo o resto do mundo”, revela.

Para ele, esse seu perfil funcionou no A Voz. “No programa, causou uma estranheza da pessoa estranha que eu sou, porque realmente é muito difícil você ver uma criança nos anos 2000 ouvindo Dalva de Oliveira, Evinha”, cita.

Montarroyos contou que foi criado pela avó e por tias, porque sua mãe tinha apenas 23 anos quando o teve e o pai era ausente. Sua iniciação musical, além dos CDs que ouvia, aconteceu no coral da igreja, que depois evoluiu para rodas de violão, sambas, serestas e rodas de choro, onde era levado por uma tia.

“Com um ano e meio minha mãe me entregou para minha avó. Meu pai eu só conheci por uma fatalidade do destino, que pra mim poderia nem ter conhecido. Fui criado só por mulheres. Minha avó e minhas tias-avós. Quatro irmãs me criaram. De repente, o primeiro contato que eu tenho com homens já é dessa violência de mundo. Fui filho das minhas tias, da minha avó e de mim. Eu me criei”, afirma.

Sobre seu estilo de interpretar, Motarroyos expressa sua admiração por Dalva de Oliveira e defende que o cantor popular precisa encontrar seu modo de cantar. “Eu sempre coloco a música na frente. Eu nunca tive muitos atributos de escandalizar. Por exemplo, Sarah Vaughan cantando. Ela nunca canta melodias. Eu nunca ouvi a Sarah Vaughan cantar uma melodia inteira. original, de nenhuma canção. Faz parte também da linguagem do jazz, as modificações. Mas eu logo entendi que eu não era aquele tipo de intérprete, que eu não tinha aquela capacidade. E eu também queria ser Dalva de Oliveira”, diverte-se.

“O cantor popular tem que se conformar dentro do seu timbre e achar dentro do seu instrumento o melhor lugar de tirar seus sons, de fazer aquilo timbrar legal”.

E define o que é a música para ele. “Todo o amor que tenho dentro do meu coração veio por reconhecer na música essa força da cultura da gente, a força, a beleza. Poxa, como os seres humanos podem ser ruins e como podem ser tão maravilhosos?”, reflete.

Ó podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.

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