Fosse eu parafrasear o ex-presidente Juscelino Kubitschek em sua famosa frase, diria que, do ponto de vista de sua História política o Brasil viveu 50 anos nos últimos 10, tantos foram os acontecimentos que marcaram o país.
No dia 17 de abril de 2016 — há exatos 10 anos, portanto — o mundo assistia ao vivo o espetáculo dantesco na Câmara dos Deputados em que homens bradavam seus votos usando o nome de Deus, homenageando suas famílias, suas cidades e conhecidos torturadores, para cassar o mandato de uma presidenta eleita sem apontar qualquer crime de reponsabilidade que conferisse veracidade e juridicidade ao processo.
Aquele golpe parlamentar, finalizado no dia 31 de agosto daquele mesmo ano no Senado, abriu caminho para a emergência de uma direita de perfil fascista, que resultaria no que ficou conhecido como bolsonarismo. A força eleitoral dessa nova articulação, forjada nas redes sociais, aniquilou os partidos tradicionais da direita liberal, representando o fim do consenso democrático no Brasil, alimentando uma base militante disposta a atos de confronto, e que ocupou as ruas pedindo que as Forças Armadas dessem um golpe militar. Tudo diante dos olhares passivos das instituições, dos meios de comunicação e com a nítida simpatia de vários políticos.
O ovo da serpente estava gestado.
A série de eventos desencadeados pelo golpe contra Dilma Rousseff tiveram como consequência a eleição à presidência da República, nas eleições de 2018, do líder da extrema direita que dá nome ao movimento. Antes disso, em abril de 2018, para viabilizar a eleição de Jair Bolsonaro, a operação Lava Jato — a maior farsa jurídica já montada na História do país para produzir resultados políticos — condenou e prendeu o líder das pesquisas, o ex e hoje novamente presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo o juiz Sérgio Moro, que a conduziu, tornado-se ministro da Justiça do eleito.
O fortalecimento da extrema direita, que já havia se iniciado nas manifestações de rua de 2013, teve sustentáculo nas reformas liberais do governo de Michel Temer. No entanto, foi o bolsonarismo que sedimentou o processo de radicalização, que hegemonizou o campo conservador, agregando muitos riscos à ordem democrática, pregando a desconfiança sistemática nas instituições, o discurso de ódio e a valorização da violência como solução política.
A pandemia da covid-19 a partir de março de 2020 encontrou o país com um dirigente que negava sua gravidade. O atraso na compra das vacinas, a minimização dos riscos do vírus, as ações que dificultaram o combate à doença e o estímulo às aglomerações, tiveram como resultado mais de 700 mil mortes pela doença no Brasil.
Por seu turno, a eleição de Lula em 2022 foi o resultado de uma aliança ampla para uma disputa que, pela primeira vez desde 1964, colocava o Brasil entre as possibilidades da democracia ou da ditadura, da civilização ou da barbárie.
Jair Bolsonaro levou ao limite seu discurso de ódio e desprezo pela democracia. Não reconheceu o resultado das urnas em que fora derrotado, viajou para os Estados Unidos mas deixou organizada com seus asseclas civis e militares uma tentativa de golpe de Estado, que no ápice, mobilizou militantes para a destruição dos prédios dos Três Poderes no dia 8 de janeiro de 2023, motivo pelo qual fora condenado e preso por ordem do Supremo Tribunal Federal.
10 anos depois do golpe, tendo vivido fatos por 50, estamos novamente diante de um ano eleitoral, com um governo que fez muito na reconstrução de esteios de políticas públicas, retomada de programas sociais, registro de recordes no emprego e aumento da renda média. Paradoxalmente, um cenário incerto diante da complexidade de disputas políticas difíceis de encaixar em nossas certezas. Um embate onde, embora a polarização seja inequívoca, o campo de batalha não é binário, as respostas às pesquisas mostram uma sociedade fragmentada em desejos.
Com o líder preso e fora da disputa, o bolsonarismo busca se firmar em uma espécie de hereditariedade messiânica para seguir a dinastia com o filho mais velho do ex-presidente, ainda testando os limites de aparentar-se moderado para conquistar votos fora da bolha radical e ao mesmo tempo apresentar-se como mantenedor do legado.
Talvez o desafio maior das eleições de 2026, além do enfrentamento às big techs e à intervenção dos EUA, seja conseguir que o argumento supere a lacração e os fatos se imponham às falácias toscas, para que, mesmo que a natureza da política seja cíclica, o futuro não repita o passado na persistência do grande erro coletivo de alçar ao poder representantes da tentativa de corrosão democrática, autocracia, violência e radicalização.
Que os próximos 50 anos sejam menos instáveis
*Tânia Maria de Oliveira é da Coordenação Executiva Nacional da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

