Brasil teve 14 massacres e 374 assassinatos no campo nos últimos dez anos

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O Brasil registrou 374 assassinatos e 14 massacres no campo entre 2016 e 2025, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). No total, foram computados 18.832 conflitos no campo, com 9,49 milhões de pessoas envolvidas. Para a entidade, a última década reúne alguns dos episódios mais graves de violência no campo desde a redemocratização.

Entre os casos mais emblemáticos do período estão Colniza (MT), em 2017, com nove posseiros assassinados; Pau D’Arco (PA), também em 2017, com dez trabalhadores rurais sem terra mortos; o massacre do rio Abacaxis (AM), em 2020, com seis vítimas entre ribeirinhos e indígenas; e Porto Velho (RO), em 2021, no qual três camponeses foram assassinados no acampamento Ademar Ferreira.

Para a CPT, massacre é a morte simultânea de três ou mais pessoas, na mesma data e localidade, em uma mesma ocorrência de conflito pela terra. Em 2025, dois casos voltaram a ser registrados depois de dois anos sem ocorrências desse tipo.

A última década também marcou uma mudança na geografia dos massacres. Nos dez anos anteriores, eles se concentravam majoritariamente no Pará. Entre 2016 e 2025, Rondônia ganhou peso nos registros, em um deslocamento que acompanha a permanência da Amazônia Legal como região central da violência no campo.

Entre 1985 e 2019, 41 dos 50 massacres registrados pela CPT ocorreram na Amazônia Legal, o equivalente a 82% do total. Nesse período, o Pará concentrou 29 massacres, e Rondônia apareceu em seguida, com sete.

Nos assassinatos da última década, a concentração também aparece nos números. Pará teve 82 mortes, Rondônia registrou 79 e Maranhão teve 48. Juntos, de acordo com a CPT, Pará e Rondônia concentraram 79,84% dos assassinatos de trabalhadores sem-terra entre 2016 e 2025.

A violência contra indígenas seguiu outra distribuição territorial. Segundo o relatório, Maranhão, Roraima, Bahia e Mato Grosso do Sul concentraram mais de 66% dos assassinatos de indígenas no período. O Maranhão foi o estado mais letal para esse grupo, com 24,73% das mortes registradas.

Para o coordenador nacional da CPT, Carlos Lima, a permanência desses territórios no topo da violência está ligada à não resolução da questão agrária brasileira.

“A questão estrutural continua, que é a reforma agrária, os territórios indígenas que não são reconhecidos, a questão quilombola e, no geral, a relação que o Brasil tem com a não resolução da questão agrária brasileira”, afirma.

Matopiba como zona de sacrifício

O relatório também dedica uma análise ao Matopiba, fronteira agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O capítulo trata o Cerrado como “zona de sacrifício” diante da expansão do agronegócio sobre territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais.

No Cerrado, o relatório aponta a existência de 338 terras indígenas reivindicadas e 1.555 territórios quilombolas identificados. No Matopiba, o Maranhão aparece como principal foco da violência: foram 1.340 ocorrências de violência contra a ocupação e a posse entre 2016 e 2025.

Também no Maranhão, os principais causadores identificados foram fazendeiros, com 637 ocorrências, seguidos por empresários e grandes arrendatários, com 277, e grileiros, com 143. O poder público aparece em quarto lugar, com 112 ocorrências.

Nos dados de violência contra pessoas no cerrado maranhense, posseiros foram os mais atingidos, com 244 ocorrências em dez anos. Em seguida aparecem quilombolas, com 141, e indígenas, com 52.

Entre os estados do Matopiba, o Maranhão também lidera os assassinatos de pessoas que lutam por terra e território, com 29 mortes em dez anos. Tocantins teve nove registros. Piauí e Bahia não registraram assassinatos nessa região no período.

No Maranhão, os principais alvos dos assassinatos foram indígenas, com 19 mortes, e quilombolas, com cinco. Para os autores do relatório, mesmo quando há queda nos registros anuais, isso não significa que a violência tenha cessado.

Estado, capital e impunidade

No relatório, a violência estrutural aparece ligada à permanência da concentração fundiária, à grilagem, à expansão do agronegócio sobre territórios ocupados e à demora do Estado em fazer reforma agrária, demarcar terras indígenas e reconhecer territórios quilombolas. É nesse vazio de política pública e garantia de direitos que fazendeiros, empresários, grileiros e grandes empreendimentos avançam sobre comunidades que já vivem em áreas de disputa.

Carlos Lima afirma que a atuação do Estado é parte da sustentação desse modelo. “O capital nacional e internacional sempre utilizou o Estado, sempre andou de braços dados com o Estado no sentido de avançar contra as terras e os territórios”, diz.

Segundo ele, isso ocorre tanto por meio de financiamento e subsídios ao agronegócio quanto pela construção de infraestrutura voltada ao avanço do capital sobre esses territórios.

Quando a disputa chega à violência direta, afirma Lima, a impunidade funciona como garantia de continuidade. Sem punição a executores, mandantes e financiadores dos crimes, a expulsão de comunidades segue sendo tratada como método para liberar terras e territórios.

“Nós, da CPT, compreendemos que a impunidade cumpre um papel fundamental. Ela é parte do sistema para garantir a expulsão, a permanência da violência e evitar que os povos tenham seus direitos garantidos”, afirma Lima.

A leitura aparece também na análise sobre assassinatos e massacres publicada no relatório. O texto afirma que a indignação diante dessas mortes é maior porque elas ocorrem em um país com “Estado plenamente constituído e com um sistema de justiça em funcionamento”.

“Em outras palavras, todas essas vítimas poderiam ter sido evitadas por meio de medidas efetivas e de políticas de Estado capazes de combater esses crimes”, diz o relatório.

O coordenador da CPT finaliza ponderando que a impunidade não pode ser lida como uma falha isolada. “Nós não entendemos a impunidade como falha do sistema, mas como um componente importante para o uso da violência”, argumenta. “Nem se faz a reforma agrária, nem se reconhecem os territórios originários, e não se pune quem comete a violência, quem paga para cometer essa violência e quem manda cometer essa violência.”

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