Sessenta e seis anos depois de inaugurada, Brasília, por si só um museu (vivo) a céu aberto, ainda carece de um espaço capaz de expor sua história e uma de suas maiores potências técnicas e culturais: sua arquitetura e seu urbanismo. Trata-se de uma capital mundialmente reconhecida exatamente por isso. Sua concepção — escolhida por concurso público em 1956 — e sua rápida materialização, aliadas ao impressionante crescimento populacional, resultaram em um dos momentos mais expressivos e diversos do “estilo internacional”, com enormes contribuições à arquitetura mundial.
Não é exagero dizer que Brasília talvez represente o último (e retumbante) ato do modernismo.
A cidade consolida uma nova forma de morar, sintetizada na superquadra, invenção de Lucio Costa, inserida em um monumental conjunto urbano que também inaugura uma nova forma de ser monumental — tropical e moderno —, redefinindo o papel da arquitetura e do urbanismo no Brasil e reforçando o papel do país como grande referência no design.
No entanto, há algo que permanece à margem dessa narrativa mais conhecida. Para além das obras de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, existe um vasto conjunto de edifícios modernos de altíssima qualidade, além de uma geração inteira de arquitetos, arquitetas, urbanistas, designers, paisagistas e artistas que trabalharam na integração entre arte e arquitetura — e que foram, em grande medida, invisibilizados na história da cidade. Soma-se a isso o apagamento de todas/os trabalhadoras/es que já estavam por aqui em 1956 (como a população de Planaltina, Brazlândia e do hoje considerado entorno, com suas diversas cidades e com o importantíssimo Quilombo do Mesquita), ou que vieram participar dessa empreitada.
A história dessas pessoas e lugares ficou à margem da historiografia, dos discursos oficiais e dos espaços culturais da cidade-capital. No campo específico da arquitetura e do urbanismo, a atuação de muitas arquitetas e urbanistas segue invisibilizada, à sombra dos grandes gênios Oscar, Lucio e Burle.
É nesse contexto que uma ausência se torna evidente: a inexistência de um museu dedicado à arquitetura, ao urbanismo, ao design e ao paisagismo, capaz de narrar a história de Brasília, preservar seus acervos materiais e imateriais, bem como construir novas leituras sobre essa obra urbana coletiva e sobre a produção contemporânea. Um centro de referência de arquitetura e urbanismo em uma das cidades mais importantes do mundo, graças à sua arquitetura e urbanismo.
Essa ausência se agrava diante do risco concreto de perda de acervos fundamentais. O caso mais emblemático é o acervo de Lucio Costa, que reúne desde os desenhos originais da cidade até registros, reflexões e pesquisas sobre arquitetura e patrimônio no Brasil. Trata-se de um conjunto de valor incalculável — hoje fora do país. Perde-se, assim, não apenas um acervo, como a possibilidade de produzir conhecimento a partir dele e de consolidar uma memória crítica sobre a capital.
Diante desse cenário, iniciativas recentes apontam caminhos. A partir de uma proposta surgida no âmbito do Museu Nacional da República (MUN), pela então diretora Sara Seilert e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que se dispôs a investir na criação desse espaço dedicado à arquitetura no pavilhão anexo do Museu. Posteriormente, a proposta foi levada ao então secretário de Cultura do Distrito Federal, Bartolomeu Rodrigues da Silva, mas não foi acolhida pelo GDF (Governo do Distrito Federal).
A proposta previa a criação de um espaço dedicado à arquitetura e ao urbanismo no pavilhão circular, inicialmente pensado como restaurante, articulando a programação do museu de arte contemporânea com a produção arquitetônica, urbanística, de design e paisagismo. O espaço comportaria exposições de longa duração sobre Brasília, mostras temporárias, debate público e acolhimento de turistas, além dos tão necessários café, livraria e áreas de convivência — elementos básicos de instituições museológicas. Pensou-se ainda para tal espaço um ambiente gregário, de troca e de reflexão crítica sobre o construir e o habitar.
Brasília merece essa instituição, seja no Museu Nacional ou em outro lugar, sobretudo porque já possui importantes acervos, tais quais o de João Filgueiras Lima (Lelé), Alda Rabelo, Marcílio Mendes, Elvin Dubugras, Alcides da Rocha Miranda, Anna Maria Niemeyer e mesmo de Oscar Niemeyer (que, ao que tudo indica, seguirá para Maricá-RJ). Situação que revela um paradoxo: enquanto se propõem museus sem acervo — como o malfadado Museu da Bíblia —, acervos fundamentais permanecem sem teto, dispersos, ameaçados e sendo adquiridos por outros países que compreenderam a importância e a potência da arquitetura brasileira, bem como de seus acervos, antes dos gestores locais.
Esse museu (vivo!) de arquitetura e urbanismo funcionaria, inclusive, como porta de entrada para o conjunto monumental da Esplanada dos Ministérios. Aos 66 anos, a capital precisa, e merece, de espaços dedicados à sua arquitetura, seu urbanismo, seu paisagismo e seu design, capazes de articular passado, presente e futuro.
Afinal, Brasília foi, antes de tudo, um projeto de futuro, e essa ideia passa por uma arquitetura mais justa, social, ambiental, econômica e eticamente comprometida com o país.
A ausência desse espaço museológico se insere, ainda, em um quadro mais amplo: no campo cultural, a transferência da capital permanece incompleta. Muitos dos grandes projetos culturais foram interrompidos após o golpe militar de 1964, instaurando uma lógica estruturalmente anticultural e anti-intelectual cujos efeitos persistem. O Teatro Nacional não é nacional. O Museu Nacional não é nacional. A Biblioteca Nacional em Brasília tampouco é nacional. Os principais equipamentos culturais de alcance nacional seguem concentrados no Rio de Janeiro. O caso da Funarte é ilustrativo: no governo Bolsonaro, o órgão perdeu seu único centro cultural em Brasília, evidenciando não apenas a incompletude da transferência, mas sua retração.
Retomar um projeto cultural para a capital passa, portanto, pela criação e fortalecimento de instituições, museus de antropologia, arqueologia e arte brasileira, além de equipamentos conectados aos mais importantes debates contemporâneos, como um Museu da Memória, Verdade e Justiça, o adiado Museu Nacional Afro e o fortalecimento do museu indígena que, na capital do país, ainda é distrital e muito precário. Isso sem falar de outros sonhos, como uma pinacoteca nacional. Muitas cidades brasileiras possuem museus dedicados à sua história; na capital do país, cuja trajetória urbana é uma verdadeira epopeia, esse espaço ainda não existe.
Por fim, é preciso lembrar: cultura é potência. Potência que é simbólica, mas também econômica. Ao não potencializar sua maior vocação no campo cultural, que está no campo da arquitetura e design, Brasília não perde apenas em memória e identidade; perde também em desenvolvimento, no sentido mais amplo possível do termo.
*Luiz Eduardo Sarmento é arquiteto, mestre em arquitetura e urbanismo, servidor de carreira do Iphan e ex-presidente do IAB/DF.
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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