No território missioneiro, onde as celebrações pelos 400 anos das reduções jesuíticas mobilizam poder público, Igreja e setor turístico, a fala do cacique Eloir Oliveira introduz um contraponto contundente. M’bya Guarani da retomada Nhe’engatu de Viamão (RS) e professor, ele utilizou o espaço da 48ª Romaria da Terra , no Santuário do Caaró, em Caibaté (RS), nesta terça-feira (17), para denunciar o que considera uma dívida histórica não reparada pelo Estado brasileiro.
Para Oliveira, a presença indígena no evento não se resume a um gesto simbólico ou religioso. Trata-se, segundo ele, de afirmar existência e reivindicar protagonismo em um território ancestral. “O povo Guarani não tem que ser visto somente em livros, em histórias contadas por escritores. Povo Guarani está aqui. Aqui estamos nós. Aqui estivemos nós. Aqui permaneceremos também”, declarou.
Protagonismo negado
A crítica central do cacique recai sobre a forma como a história indígena é apresentada à sociedade. Ele avalia que os povos originários frequentemente aparecem como personagens secundários de uma narrativa construída por não indígenas. Para ele, isso reforça a invisibilidade contemporânea das comunidades.
O cacique sustenta que o reconhecimento precisa ir além da memória histórica e alcançar direitos concretos nas áreas de educação, habitação, agricultura e território. Ao mencionar a realidade enfrentada nas aldeias e retomadas, ele afirmou que é necessário que o poder público enxergue a “realidade nua, crua, dolorosa e cruel” vivida pelas comunidades Guarani no estado.

Reduções e confinamento
Ao abordar as comemorações oficiais sobre as reduções jesuíticas, o cacique apresentou uma leitura distinta daquela difundida nos eventos institucionais. Enquanto parte da sociedade exalta os Sete Povos das Missões como experiência singular de organização social, Oliveira define o processo como um período de confinamento e desestruturação cultural.
Segundo ele, antes das reduções havia entre 30 mil e 40 mil indígenas da etnia Guarani no território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul. Atualmente, a população gira em torno de pouco mais de 4 mil pessoas. Para o líder indígena, essa redução demográfica é consequência direta da violência colonial.
“Imagina um povo que está organizado, tem sua organização social, política, um povo que vive em paz. Do nada, aparecem alguns que se dizem melhores, trazem uma religião e dizem: ‘Isso aqui vocês têm que seguir’. E aí vai acabando, vai dizimando o povo”, afirmou.
Na avaliação do cacique, a celebração dos quatrocentos anos precisa incluir o reconhecimento explícito desse processo de extermínio e das suas consequências atuais.
Investimentos e desigualdade
Oliveira também direcionou críticas à política de investimentos do governo do estado na região das Missões. Ele apontou que enquanto milhões de reais são destinados a obras de infraestrutura e iniciativas ligadas ao turismo histórico, as comunidades indígenas recebem recursos considerados insuficientes.
O cacique citou como exemplo um repasse que inicialmente seria utilizado para a construção de uma estátua e que acabou redirecionado para uma aldeia após articulação local. Para ele, esse tipo de medida é pontual e não enfrenta o problema estrutural da falta de território demarcado e de políticas permanentes.
Segundo a liderança, das 65 tekoas (aldeias) e territórios Guarani existentes hoje no Rio Grande do Sul, apenas sete estão devidamente demarcados. As demais áreas são compostas por acampamentos, retomadas ou terras cedidas provisoriamente por municípios. Ele questionou a permanência de famílias indígenas às margens de rodovias e em áreas precárias, mesmo após décadas de reivindicação.
Ao se referir à possibilidade do estado ceder terras para abatimento de dívidas com a União, mecanismo previsto em acordos federais, afirmou que a medida poderia representar um marco histórico. “Seria algo histórico, marcante, e o governador seria exaltado pelo povo Guarani. Mas o governador não quer fazer isso. E aí entra com processos judiciais para retirar as famílias da retomada”, declarou.
Território e modo de vida
O cacique também contestou estigmas associados aos povos indígenas, como a ideia de que eles “não produzem” ou não contribuem economicamente. Ele explicou que a lógica Guarani “não se baseia na expansão produtiva nos moldes do agronegócio, mas em uma relação de equilíbrio com a natureza”.
Segundo ele, a terra não é vista como mercadoria, mas como espaço sagrado de vida coletiva. A mata, afirmou, “fornece alimento, remédio e abrigo”, sem exigir destruição em larga escala. Ao comparar o avanço da soja e do agronegócio sobre áreas tradicionais, Oliveira relacionou o modelo econômico predominante à degradação ambiental.
Na parte final de sua fala, o líder fez um apelo por reconhecimento cultural e respeito mútuo. Ele lembrou que os povos indígenas foram obrigados a aprender a língua portuguesa e a se adaptar às normas da sociedade envolvente, e sugeriu que haja reciprocidade nesse processo.
“Não estamos aqui para brigar como já foi brigado no passado. Não estamos aqui para ser confinados como já fomos confinados no passado. Estamos aqui para viver em liberdade”, concluiu.
Ao inserir sua denúncia no contexto da Romaria da Terra, o cacique reforçou que a memória dos quatrocentos anos não pode ser dissociada das condições atuais das comunidades Guarani. Para ele, sem demarcação, políticas públicas efetivas e reconhecimento histórico, as celebrações permanecem incompletas diante da realidade vivida nos territórios.

