Campanha em defesa do Cerrado lança guia didático para escolas e espaços de educação popular — Brasil de Fato

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A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança nesta quarta-feira (15),  Dia dos Professores, o “Trieiro de Saberes dos Cerrados – Um Guia Didático sobre o Cerrado e seus povos”. O material busca fortalecer o papel da educação como ferramenta de conscientização e mobilização em defesa do bioma e das populações tradicionais, e estará disponível gratuitamente no site da Campanha.

O lançamento se trata de uma proposta pedagógica que reúne saberes territoriais, culturais e ambientais sobre o bioma. O material é direcionado a educadores, escolas e espaços de educação popular, e poderá ser acessado gratuitamente em formato digital pelo site da Campanha.

Com a proposta de “redescobrir os Cerrados no século 21”, o guia didático foi elaborado como ferramenta de fortalecimento político e educativo da luta em defesa do bioma e de seus povos. Segundo os organizadores, o objetivo é ampliar a consciência sobre o Cerrado como um espaço vivo, habitado, diverso e estratégico para o equilíbrio ecológico e a soberania alimentar no Brasil.

Segundo Amone Inácia Alves, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e uma das coordenadoras da obra, o material nasce de uma construção coletiva, feita com base em conhecimentos tradicionais e científicos: “O Trieiro busca educar as pessoas para que compreendam a necessidade de defender o Cerrado e as pessoas que aqui vivem. Tem uma finalidade bem definida: mostrar que há outros modos de vida, saberes e práticas além do agronegócio, do urbanocentrismo e do consumo destruidor”, afirma a educadora.

O guia é uma das ações da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, articulação formada por 56 movimentos sociais, organizações da sociedade civil e entidades religiosas que atuam para enfrentar os processos de devastação ambiental, expulsão de comunidades e invisibilização dos povos do Cerrado. Desde 2016, a Campanha promove ações de comunicação, incidência política, mobilização de base e formação popular com foco na valorização da sociobiodiversidade e na resistência territorial.

“Esse guia nasceu com o propósito de aproximar as escolas do campo e da cidade das comunidades e dos territórios do Cerrado, trazendo uma leitura plural e complexa sobre esse bioma”, explica Valéria Santos, coordenadora da Campanha.

“Compreendemos que a escola é um espaço de formação de consciência e de projetos de sociedade. Os Trieiros de Saberes possibilitam uma abordagem crítica e criativa sobre o Cerrado, seus povos e seus desafios”, acrescenta.

A publicação apresenta cinco trieiros temáticos — ou caminhos pedagógicos — que tratam de aspectos históricos, culturais, ecológicos, comunicacionais e territoriais do Cerrado. São eles: “Conhecendo o Cerrado”; “Povos e Comunidades Tradicionais”; “Águas dos Cerrados”; “Sociobiodiversidade” e “Cerrado e a Mídia”. Cada seção conta com textos, atividades pedagógicas, sugestões de materiais complementares e propostas para a construção coletiva do conhecimento.

Contexto de ameaças

O material também dialoga diretamente com o contexto de ameaças ao Cerrado. Em 2024, o bioma liderou o ranking de desmatamento no país, com 652.197 hectares devastados, de acordo com o MapBiomas. A maior parte das perdas se concentrou na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), afetando diretamente comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas. Além do desmatamento, a crise hídrica se agrava: 91% das bacias hidrográficas do Cerrado perderam superfície de água natural nas últimas quatro décadas.

Para a Campanha, o fortalecimento da educação é parte fundamental da estratégia de resistência e de defesa dos territórios. O guia didático se insere nesse esforço, promovendo o protagonismo dos povos tradicionais e convidando escolas e comunidades a conhecerem e defenderem o Cerrado a partir de perspectivas próprias dos territórios. “O Cerrado só está em pé porque tem povos que cuidam, que protegem e que convivem com sua biodiversidade”, afirma Valéria Santos.

O guia será lançado oficialmente em formato impresso no Congresso Brasileiro de Agroecologia, no dia 16 de outubro, na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), em Juazeiro (BA). A mesa de apresentação ocorrerá na Tenda Rachel Carson, reunindo representantes da Campanha, autores do material e educadores populares.

A iniciativa também dialoga com as ações da Campanha junto ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que desde 2019 acolhe a denúncia de ecocídio contra o Cerrado e genocídio de seus povos. A petição, elaborada pela Campanha, aponta o Estado brasileiro, empresas transnacionais e outros agentes como responsáveis pela devastação ambiental e pela ameaça à existência dos povos tradicionais. As audiências do TPP têm evidenciado, por meio de testemunhos diretos, os impactos da contaminação por agrotóxicos, da apropriação privada da água e da desestruturação dos sistemas produtivos tradicionais.

A formação crítica proposta pelo Trieiro de Saberes dos Cerrados também se articula à construção de justiça socioambiental,tendo como objetivo valorizar o papel das escolas, das comunidades e das juventudes na defesa dos territórios. “Queremos que esse guia contribua para uma educação menos alienada e mais comprometida com os territórios. Desejamos que forme novas gerações conscientes, questionadoras e defensoras dos seus lugares”, conclui Valéria Santos.

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