Mais do que uma grande celebração popular, o carnaval de rua de Fortaleza vem se consolidando como uma política pública estruturante, capaz de articular cultura, ocupação democrática dos espaços urbanos e dinamização da economia local. Ao ocupar ruas, praças e bairros, a festa reafirma tradições, fortalece identidades culturais e impulsiona uma ampla cadeia produtiva ligada à cultura, ao comércio e ao turismo.
Em 2026, a Prefeitura de Fortaleza ampliou o Ciclo Carnavalesco para 25 palcos, distribuídos nas 12 Regionais, reforçando a estratégia de descentralização da programação. De acordo com a secretária da Cultura de Fortaleza (Secultfor), Helena Barbosa, os pré-carnavais cumprem papel central nesse processo ao levar a festa para diferentes territórios, ampliando o acesso da população às manifestações culturais e valorizando artistas locais. “Essa iniciativa fortalece a identidade cultural dos territórios e distribui os impactos positivos do evento por toda a cidade, inclusive os impactos econômicos, gerando emprego e renda para trabalhadores da cultura, comerciantes e prestadores de serviços”, afirma a gestora. Barbosa destaca ainda que a ação integra uma política de democratização dos grandes eventos, viabilizada pela atuação conjunta de diversos órgãos municipais.

A professora do Instituto Federal do Ceará (IFCE), vice-coordenadora do Mestrado Profissional em Artes e pesquisadora das culturas populares, Lourdes Macena, explica que a memória da festa carnavalesca brasileira, cearense e fortalezense é tradicionalmente associada a um espaço de alegria e apresenta características próprias. “Não podemos tratar a festa carnavalesca como o São João ou como uma festa qualquer, em que se possa trazer um músico de qualquer estilo ou de qualquer época para fazer um repertório genérico para a gente brincar”, afirma. De acordo com Macena, o carnaval tem características, ritmos e estilos próprios dessa brincadeira, na qual há fantasias que podem ser adquiridas, compradas ou simplesmente feitas ali, na hora, para produzir felicidade.
Para além da dimensão territorial, a pesquisadora ressalta que o carnaval de rua desempenha papel fundamental na construção simbólica da cidade e destaca que a festa conecta Fortaleza a uma ancestralidade festiva que sempre teve o espaço público como lugar central. “O carnaval de rua nos liga à festa, à brincadeira entre pessoas na rua, ao encontro coletivo. Ele reafirma o gosto de estar junto, de brincar, de celebrar”, explica. Segundo a pesquisadora, em um contexto marcado pela intensificação do universo digital, a folia assume também um papel social e emocional relevante. “A festa nos irmana como iguais naquele momento. É importante para a saúde emocional, para o equilíbrio e para a felicidade coletiva. Por isso, precisa ser mantida e garantida, sobretudo em espaços livres”, destaca Macena.
Memória, tradição e resistência cultural
Para a pesquisadora do IFCE, o carnaval de rua também é um espaço privilegiado de expressão da memória e da resistência cultural. Macena ressalta que o carnaval possui características próprias e não pode ser tratado como uma festa genérica. “O carnaval tem ritmos, repertórios e formas específicas de brincar. Marchinhas, sambas, maracatus, frevos e outras expressões não são apenas passado, mas tradição viva”, afirma. A pesquisadora argumenta que tradição não é algo fixo, mas a atualização do passado no presente e, por isso, o carnaval resiste quando insiste em ser brasileiro e nordestino, mesmo diante de pressões mercadológicas. “O risco de olhar o carnaval apenas pela lógica econômica é descaracterizá-lo, transformá-lo em uma festa sem identidade. Quem participa do carnaval quer encontrar carnaval”, alerta.

Em entrevista ao BdF Ceará, a professora aborda também essa forma de brincar o carnaval no espaço urbano e aponta que viver a festa “tocando, dançando, tomando uma cerveja gelada, em contato com o outro, cantando, sem se preocupar com A, B ou C, mostra como o carnaval reúne todos em um mesmo universo, como um povo só, que se alegra em estar junto, feliz, para brincar e fazer de conta que, durante o período carnavalesco, podemos tudo e somos mais”. Macena defende ainda que os foliões sigam insistindo em brincar o carnaval ao som dos ritmos que o constroem, como maracatus, sambas, frevos e marchinhas carnavalescas, mantendo viva a memória e a tradição da festa, sobretudo nos territórios urbanos.
Em relação às culturas populares e ao carnaval de rua, Macena explica que o diálogo entre ambos é intrínseco, e aponta que o carnaval de rua é, por natureza, uma expressão das culturas populares. “Ele se amplia hoje porque existe uma política pública de fomento, mas, mesmo quando esse apoio não existia, o carnaval de rua continuava acontecendo graças aos amantes da festa, que sempre sustentaram o Carnaval independentemente da atenção do poder público”, garante. Por isso, o fomento é fundamental, aponta Macena, pois amplia as possibilidades, fortalece os grupos, constrói uma cidade mais festiva e permite que as comunidades possam brincar em seus próprios territórios, sem a necessidade de se deslocar para espaços tradicionalmente associados a quem possui maior poder aquisitivo.
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Economia criativa e impacto financeiro
Com programação espalhada pelos bairros, a descentralização da festa amplia também seus efeitos econômicos e faz com que o carnaval de rua impulsione o comércio local e gere emprego e renda para trabalhadores da cultura, ambulantes, comerciantes e prestadores de serviços. Além disso, restaurantes, bares, barracas e vendedores informais registram aumento significativo no faturamento, enquanto setores como transporte e serviços são diretamente impactados pelo fluxo de foliões.
Em 2025, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hoteis do Ceará (ABIH-CE), a ocupação de hoteis em Fortaleza chegou a quase 80% durante o período carnavalesco. As festas também movimentam a economia formal, com a geração de empregos diretos e temporários e o incremento da renda familiar a partir da comercialização de comidas, bebidas, vestuário, acessórios e itens diversos, intensificada durante este período. De acordo com pesquisa do Observatório do Turismo de Fortaleza (2025), em parceria com a Secultfor, a Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor) e o Instituto Iracema, foram gerados 56.756 empregos, entre vagas formais e informais, durante o Carnaval. A pesquisa revelou ainda que a cidade recebeu 200.000 turistas para o Carnaval, com média de gasto individual de R$ 3.518,08, o que movimentou a economia, com a geração de R$ 973.151.000,00 de receita.

Em relação às culturas populares e ao carnaval de rua, Macena explica que o diálogo entre ambos é intrínseco e destaca que o carnaval de rua é, por natureza, uma expressão dessas culturas. “Ele se amplia hoje porque existe uma política pública de fomento, mas, mesmo quando esse apoio não existia, o carnaval de rua continuava acontecendo graças aos amantes da festa, que sempre sustentaram o carnaval, independentemente da atenção do poder público”, garante. Por isso, o fomento é fundamental, aponta Macena, pois amplia as possibilidades, fortalece os grupos, contribui para a construção de uma cidade mais festiva e permite que as comunidades possam brincar em seus próprios territórios, sem a necessidade de se deslocar para espaços tradicionalmente associados a quem possui maior poder aquisitivo.
No âmbito econômico, Macena reforça que não há contradição entre cultura e economia. “O carnaval sempre foi um motor econômico. O trabalhador da cultura é um trabalhador como qualquer outro. Não há problema algum em articular arte, cultura e economia”, afirma. Segundo a pesquisadora, a falta de reconhecimento dessa dimensão econômica gera fragilidades estruturais, como a escassez de insumos e materiais para a produção artística local, o que dificulta o fortalecimento da cadeia produtiva do carnaval.
De acordo com Macena, em Fortaleza os foliões ainda enfrentam muitas fragilidades no acesso a determinados insumos. Ela explica que isso ocorre porque, muitas vezes, a população não reconhece a dimensão econômica da festa. “Basta imaginar o que significa precisar buscar plumas no Recife ou no Rio de Janeiro, porque Fortaleza não dispõe de casas especializadas na venda de materiais voltados para o carnaval. Ficamos restritos a duas ou três lojas, que já não atendem à complexidade e ao universo criativo da festa carnavalesca”, ressalta. Macena destaca ainda que essa dimensão não se limita à estética ou ao enfeite, mas envolve também a música, a produção, os artistas, os técnicos, os trabalhadores da cultura, além da grande movimentação em bares, comércios e serviços. “É nesse contexto que se insere a economia criativa, que mobiliza um amplo contingente de profissionais de diferentes áreas”, enfatiza.
No âmbito estadual, o fortalecimento do carnaval como política pública também é uma diretriz do Governo do Estado do Ceará. A secretária da Cultura do Estado, Luísa Cela, destaca que o Ciclo Ceará Carnavalesco integra a política de Patrimônio Cultural e desempenha uma função social e econômica ao fomentar a economia artística, criativa e cultural. Por meio do Edital Ceará Ciclo Carnavalesco, o Estado investe na valorização de manifestações populares de diversas regiões, como maracatus, escolas de samba, blocos, cordões, afoxés e culturas camponesas.
Em sua 19ª edição, o edital conta com investimento de R$ 2,33 milhões, com a seleção de 81 projetos, além de bailes e matinês, destinando, no mínimo, 50% dos recursos para iniciativas do interior do Estado. Com recursos provenientes do Fundo Estadual de Cultura (FEC), vinculados ao Programa 132 – Promoção e Desenvolvimento da Arte e Cultura Cearense, o investimento do governo cearense busca ampliar e fortalecer as políticas de patrimônio imaterial no Estado do Ceará; reconhecer, valorizar e promover os saberes e fazeres tradicionais da cultura cearense; incentivar os processos de criação, formação e fruição das manifestações culturais populares tradicionais do Ciclo Carnavalesco; garantir a participação dos grupos étnico-raciais do Ceará que promovem trabalhos artísticos e culturais nas comunidades e nos territórios onde são desenvolvidas manifestações culturais; e inserir o Ciclo Carnavalesco no circuito cultural e turístico do Ceará.

Para os trabalhadores da cultura, o carnaval representa um período de forte ativação profissional, ampliando oportunidades de apresentações, circulação artística e contratação de serviços técnicos e criativos. Neste momento, mestres da cultura, músicos, brincantes, artistas, produtores, costureiras, artesãos e técnicos encontram uma oportunidade estratégica de valorização de seus saberes e fazeres, com geração de renda e visibilidade. Além disso, o carnaval de rua estimula tanto empreendedores já consolidados quanto iniciativas econômicas temporárias, possibilitando renda extra para trabalhadores informais e pequenos prestadores de serviços. Neste sentido, Cela aponta que o Ciclo Ceará Carnavalesco reafirma o papel da cultura como eixo de desenvolvimento econômico, inclusão social e fortalecimento da economia criativa, contribuindo para a sustentabilidade dos territórios e para a valorização das expressões culturais que constituem a identidade do povo cearense.
Ao reunir tradição, ocupação democrática do espaço urbano e forte impacto econômico, o carnaval de rua de Fortaleza reafirma-se como uma das mais importantes manifestações culturais da cidade e do Ceará, expressão viva das culturas populares e elemento estratégico para o desenvolvimento social, cultural e econômico.
Ciclo Ceará Carnavalesco 2026
Por meio da Secult-CE, o Governo do Ceará divulgou o lançamento do Ciclo Ceará Carnavalesco 2026, marcado para a próxima quinta-feira (29), às 17h, na calçada do Theatro José de Alencar. Este ano, o ciclo traz como tema “Entre cantigas e cortejos, mulheres ecoam a ancestralidade!”, uma homenagem a duas mulheres que representam a força, a resistência e a riqueza da cultura afro-brasileira no Ceará: Maria de Fátima Marcelino e Maria Lúcia Simão Pereira.

Durante o evento de lançamento, o público poderá conferir o “Encontro dos Patronos – O Orixá do Afoxé”, com apresentação dos Estandartes e Patronos dos Afoxés: Acabaca, Alakayê, Filhos de Oyá, Obá Sá Rewá, Obatalá, Ogum, Omõrisá Odé e Oxum Odolá, além do Batuque do Afoxé Omõrisá Odé. Na ocasião, também terá seu reconhecimento firmado o Mestre Rainha Almeida, do Maracatu Cearense, Tesouro Vivo da Cultura e do maracatu cearense.
E para celebrar a abertura oficial das festividades carnavalescas do Ceará, será feita uma homenagem in memorian às duas mulheres que representam a força, a resistência e a riqueza da cultura afro-brasileira no Estado do Ceará: Maria de Fátima Marcelino e Maria Lúcia Simão Pereira.
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