Carnaval no Haiti resiste à violência e à crise política como ato de memória e denúncia

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Enquanto o Brasil mergulha na folia do Carnaval, do outro lado do Caribe, o Haiti também celebra — mas em um contexto de extrema instabilidade política, violência de gangues e ausência de financiamento público. Ainda assim, o povo haitiano foi às ruas neste fim de semana para reafirmar que a cultura popular não se curva à crise. Quem conta é a correspondente do Brasil de Fato em Porto Príncipe, Cha Dafoil.

“Tem Carnaval no Haiti, sim. Tradicionalmente, é uma festa muito importante, quase tanto quanto no Brasil, como em outros países do Caribe. Veio com a colonização, mas depois ganhou influências africanas e multiculturais e se transformou numa festa essencial para o povo haitiano”, explicou ao Conexão BdF.

Nos últimos anos, porém, a realização do Carnaval tem sido comprometida pela violência e pela precariedade. Em Porto Príncipe, a festa chegou a ser cancelada em diversas ocasiões. Neste ano, ela aconteceu de forma limitada — sem desfiles oficiais, mas com o povo ocupando as ruas da capital e de cidades do interior, como Jacmel, tradicional reduto cultural do país.

Para Dafoil, a decisão de manter a festa mesmo diante de um cenário adverso é, em si, um ato político. “Quem foi a favor da realização do Carnaval argumentou que ele é portador de sonho e esperança. Não é só um parêntese na vida, é uma linguagem popular, um grito do povo. Traz a memória de luta e a união.”

Ela lembra que, na história do Haiti, o Carnaval só deixou de acontecer duas vezes: durante a ocupação militar dos Estados Unidos, no início do século 20, que o proibiu, e logo após o terremoto de 2010, quando não havia condições materiais. “Isso é muito significativo. O Carnaval é uma afirmação de pertencimento à nação haitiana.”

As imagens que chegam mostram um Carnaval simples, artesanal, mas carregado de simbolismo. “Foi o povo que fez acontecer, com iniciativa popular”, destaca a correspondente. E, como no Brasil, a festa também é palco de protesto. “Sempre tem denúncia da violência, da inércia do poder público, da corrupção. Às vezes, com figuras específicas.”

Um dos momentos mais marcantes deste ano foi a aparição de um Jesus negro crucificado em uma cruz feita com bandeiras dos Estados Unidos, da França e do Canadá — países que historicamente intervêm no Haiti. “Ele trazia a bandeira do Haiti no corpo. É uma imagem que mistura religião, política, geopolítica e contexto social”, explica Dafoil.

Outra tradição local são as máscaras gigantes de papel machê, que representam orixás, figuras católicas, animais e também políticos impopulares. “Há um personagem chamado Jacques O’Scar, um delegado que no início do século 20 massacrou a população e depois foi assassinado em represália. Ele virou uma figura do Carnaval, como um monstro.”

As imagens da folia haitiana lembram o Brasil: alas, fantasias, o povo em volta assistindo, mulheres com lenços na cabeça. Para a correspondente, a semelhança não é superficial. “É um Carnaval afrobrasileiro, afroamericano, afrolatino-americano. É a cultura popular que resiste.”

Apesar da falta de financiamento e do apoio político, o povo haitiano mostrou que a festa continua — como resistência, como memória e como grito. E, como diz Dafoil, “o Carnaval é um momento em que o Haiti precisa reafirmar sua cultura, seu pertencimento, sua existência”.

Para ouvir e assistir

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