“Cada mulher que se impõe se/te/me/nos liberta. Cada mulher se liberta, te liberta, me liberta, nos liberta.” Essa é a grande luta diária do espaço Casa MEL, do Instituto e se fosse você?, de arte, cultura e resistência na José do Patrocínio, 698, onde as mulheres são o centro, a luz e o palco da vida. O Instituto criado em 2018 por Manuela D’Ávila, depois de ser candidata a vice de Fernando Haddad à Presidência da República, se transformou em Casa MEL em dezembro de 2025, um espaço de arte, cultura e comunicação.

Um lugar de resistência na Cidade Baixa. Uma casa-mãe construída por e para mulheres. Para criar, aprender, trocar, celebrar e transformar. Afastada agora do comando para concorrer ao Senado pelo RS, Manuela passou o cargo para Fran Rodrigues.
“MEL significa ‘Mulheres Em Luta’ o tempo todo, contra a violência política e qualquer outro tipo de violência contra as mulheres, a desinformação, o preconceito, o racismo, as redes de ódio. Ali, vale o conceito e o ser mulher, não importa o seu nível de intelectualidade ou de sua profissão. Dignidade, orgulho e esperança”, destaca Fran.

A Casa MEL é um prédio marrom, tombado, muito bem formatado, com murais externos que chamam atenção e fica bem na esquina da rua Alberto Torres. Lindo por fora e, por dentro, tudo ali flui naturalmente. Na entrada, uma pequena lojinha de produtos da casa, um café, algumas mesas e uma escada que conduz ao segundo andar, onde fica a Biblioteca Feminista Lélia Gonzales (intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira – 1935-1994), uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, também uma das principais autoras do feminismo negro no país.
Na biblioteca, a grande maioria dos livros é sobre mulheres, com temas sobre o pensamento feminino nos mais diversos ângulos e abordagens
Um espaço especial

Cristina Ely é diretora executiva da Casa MEL. Considera a biblioteca “o coração da casa”, o lugar mais procurado do local, onde há opções de leitura para todos os tipos. Uma frase ali, quase escondida, do educador Paulo Freire, chama a atenção para quem visita o local com calma e vai olhando os títulos e as obras existentes: “Qualquer discriminação é imoral”. Cris diz que é isso o grande objetivo da Casa, que funciona de segundas às sextas das 14 às 19h.
Ali, há espaço e tempo para música, cinema, literatura, oficina, lançamento de livros, clube de leitura, cursos de qualificação profissional no setor de artes de qualquer gênero. “É um verdadeiro e legítimo lugar para as mulheres, um ambiente especial da cultura feminina”, ressalta Fran.
A curadora da questão literária é Luísa Aranha, ou Lu Aranha – jornalista por formação, escritora por vocação e professora por diversão, conforme destaca ao falar sobre sua vida, e já escreveu mais de 30 títulos, como dramas, entretenimento, comédias românticas, autoficção e eróticos.
Ao lado do auditório, há outra sala, que tem a utilidade de ser uma pequena galeria para “mostrar obras de mulheres ou fotos. A última que teve aqui foi sobre a enchente de 2024. Eram fotos de família”, conta Cristina. Ele está atualmente agendando novas exposições.
Um prédio com muita história

O auditório da Casa MEL, ao lado da entrada, é um pequeno teatro, bem aconchegante e intimista. Tem 76 lugares, mas pode ser ampliado em caso de necessidade. Ali, hoje, há possibilidade para se fazer qualquer manifestação artística. “Um espaço para dar oportunidades e voz para as mulheres”, afirma Cristina.
“E sempre há projetos em andamento – como sessões de autógrafos, debates e palestras e até filmes, principalmente franceses em função de convênio com o consulado. Nosso Projeto ‘Mulher que Escreve’ é um sucesso. Venha de onde vierem os escritos, as palavras, as poesias, elas recebem acolhimento, independente de raça e política”, destaca Fran.
No passado, o prédio sempre foi um local da cultura. Ali, durante 540 finais de semana, de 1981 e 2002, abrigou o Studio Del Mese, grande e histórico fotógrafo da cidade. Com 92 anos, Flávio Del Mese (Flavio Lupo Trimalcione Del Mese), nascido em 27 de fevereiro de 1934, ficou conhecido como um nômade e sua trajetória inclui registros de automobilismo, aviação civil e fotografia pelo mundo, frequentemente vinculado a Caxias do Sul e Porto Alegre. Ele também foi piloto de aviação e autor.

A Editora Libretos lançou há alguns anos um livro sobre a sua história, escrito pelo próprio Flávio e a pesquisadora e mulher da cultura Susana Gastal. O livro, com quase 300 páginas, traz edição de arte de Marco Nedeff – fotógrafo responsável também pelo ensaio Casa Del Mese –, imagens antigas, históricas e atuais, além de um mapa dos países citados.
No local também o professor de história Francisco Marshall criou o StudioClio – Instituto de Arte & Humanismo. No meio acadêmico, ele é professor associado do Departamento de História e da pós-graduação de História e Artes Visuais, além de coordenador do Núcleo de História Antiga da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e Grupo Interdisciplinar de Filosofia e História da Ciência. Porém talvez seja mais amplo e claro caracterizar Francisco Marshall como um disseminador e polinizador da cultura sob várias formas – cursos, concertos, oficinas, shows, almoços, banquetes, gastronomia criativa –, sempre com uma visão arejada, multidisciplinar e sob a cooperação de artistas e docentes. A pandemia derrubou o seu sonho e teve que ir em frente.
Hoje, o projeto StudioClio foi retomado por Marshall em um formato itinerante. Ele promove eventos culturais, banquetes temáticos, cursos e palestras em diferentes locais da cidade, incluindo parcerias com o Centro Cultural da Ufrgs (Rua Eng. Luiz Englert, 333).

O prédio abrigou também o programa “Encontros com o Professor”, de Ruy Carlos Ostermann, morto no ano passado aos 90 anos. Os programas ocorriam no StudioClio – Instituto de Arte & Cultura. Iniciado em 2004, o evento também era realizado em itinerâncias pelo interior do Rio Grande do Sul e teve formato de talk show. Terminou em 2011. Além dos eventos presenciais, a captação do áudio era transmitida pela Rádio Gaúcha.
Em 2011, na Capital, o professor recebeu, entre outros, João Gilberto Noll, Nei Lisboa, Luis Augusto Fischer, Cláudio Levitan, Zuenir Ventura, João Donato, Oswaldo Montenegro, Glênio Reis, Contardo Calligaris, Ana Maria Bahiana, José Antonio Severo, Ney Matogrosso e o grupo Acústicos e Valvulados. No Interior, entre os entrevistados estavam José Antônio Pinheiro Machado, Roger Lerina, Hique Gomez, Nico Nicolaiewsky, Fabrício Carpinejar e Carlos Urbim.
Bom, o prédio tem história e muita cultura em suas paredes e em seus cantos. Ali se respirou e se respira tudo isso e, agora, virou uma espécie de centro cultural da mulher por Manuela D’Ávila, chamado Casa MEL, desde dezembro de 2025.
Acesso a conteúdos educacionais

O Instituto E Se Fosse Você?, administradora da Casa MEL, é a primeira ONG brasileira criada para democratizar o acesso a conteúdos educacionais sobre desinformação e violência política de gênero e raça. “Surgimos em 2018, logo após eleições marcadas por desinformação, discursos de ódio e ataques à democracia. Desde então, atuamos para que mais pessoas possam reconhecer, entender e combater a desinformação e o discurso de ódio – especialmente aquelas que atingem as mulheres na política”, diz Manuela na apresentação da instituição.
Ela informa que educação é ferramenta de transformação. Por isso, foram criados materiais, livros, campanhas e ações que fortalecem o pensamento crítico e a empatia nas redes e fora delas. “Fazemos tudo com afeto e ajuda de milhares de pessoas que confiam no nosso trabalho. Cada produto que você compra na nossa loja – cada livro, camiseta ou caneca – sustenta nossas ações e amplia o alcance da verdade”, garante.
Projetos da Casa MEL

A Casa MEL tem vários projetos em andamento, apesar da curta existência. Tem o Clube de Mulheres da Manu, o maior clube de leitura de mulheres do Brasil, 100% online, com dois eixos que se cruzam a todo momento: Literatura + Estudos Feministas. Segue o Plantão de Apoio Colmeia, espaço seguro e confidencial para mulheres enfrentando Violência Política de Gênero e Raça.
Depois vem a Biblioteca Lélia Gonzalez, de caráter comunitário e criada a partir de doações da comunidade. A cada livro recebido, um exemplar da Rede de Mentiras e de Ódio, organizado por Manuela d’Ávila e lançado pelo Selo Editorial do Instituto, é doado para instituições públicas.
Há também o Clube de Leitura Contra a Desinformação, atuando como ferramenta para combater a desinformação, em parceria com bibliotecas comunitárias. A iniciativa conta com rodas literárias e encontros com autores e autoras gaúchos/as em cinco territórios de Porto Alegre (RS), fortalecendo o acesso à leitura e o diálogo crítico nas comunidades.

