A pesquisa Atlas/Intel divulgada nesta semana trouxe um alerta para o campo progressista: o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em um eventual segundo turno.
“A gente tem um cenário de polarização assimétrica, estruturada desde a ascensão de Jair Bolsonaro. Um polo de centro-esquerda organizado em torno do PT e um polo de extrema direita organizado em torno de Jair Bolsonaro. Esse cenário se mantém com pouca mudança em termos do percentual agregado de cada polo e com muito pouca volatilidade”, analisa Mayra Goulart, cientista política e professora da UFRJ, ao Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.
A novidade, segundo ela, é a consolidação do candidato do polo bolsonarista. “Os votos que estavam dispersos, mas que eram desse polo, agora fazem essa identificação com Flávio Bolsonaro. Essa é a grande novidade do cenário político – um cenário de disputa muito acirrada, que dificilmente vai mudar até a eleição.”
Sobre a campanha de reeleição de Lula, Goulart é enfática: “Errado estava quem estava tranquilo. A extrema direita é viva, forte, organizada, com capacidade comunicacional. Essa vai ser uma eleição dificílima. Em nenhum momento ela esteve resolvida. O que acontecia era que a direita não tinha ainda estruturado sua candidatura. Agora, conforme ela estrutura esses votos que ela já tem, vão todos para esse candidato.”
Goulart analisa a manobra do PSD, que lançou três pré-candidatos à presidência. “Nunca foi um objetivo lançar de fato uma terceira via. O objetivo era construir uma candidatura fictícia que permitisse que as bases do PSDB – vereadores, prefeitos – ficassem livres para fazer os apoios que julgassem necessários.”
Ela explica a lógica por trás da estratégia. “Como o partido tem um candidato, ele não precisa manifestar apoio a Lula ou Bolsonaro, não vai ser premido a isso. Essas bases, que são elites locais muito pragmáticas, podem escolher qual palanque vão subir em cada situação.”
A pesquisa da Atlas reforça a inexistência de espaço para uma terceira via. “As margens permanecem muito parecidas com 2022. A terceira via não teve crescimento relevante. Lula e Bolsonaro continuam abocanhando boa parte desses votos.”
Sobre a força do PSD — que tem mais de 800 prefeituras —, Goulart destaca que quem receber o apoio de Gilberto Kassab terá palanque no Brasil todo. “Kassab não vai dar apoio nem para Lula nem para Bolsonaro. Por isso que ele precisa lançar um candidato. Ele adia essa pressão e libera suas bases para fazer articulações pragmáticas nos seus territórios.”
O STF na berlinda: a conta dos próprios ministros
Goulart também comentou a situação delicada do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente após a quebra do sigilo bancário da empresa do ministro Dias Toffoli pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado e a convocação de seus irmãos para depor.
“Se ele pagar a conta dele já está ótimo. A conta dele já está bem alta, porque envolve relações com o mundo privado e dinâmicas lucrativas que, a meu ver, são incompatíveis com quem ocupa um dos 11 cargos mais importantes do país”, aponta.
Ela lembra que ministros do Supremo têm cargos vitalícios, blindados da democracia. “Eles são muito poderosos e não precisam prestar contas à sociedade. Por isso deveriam ter uma vida completamente idônea do ponto de vista das relações público-privadas. Não é o que a gente tem observado.”
“As cortes supremas foram criadas para evitar que maiorias antidemocráticas consigam aprovar medidas inconstitucionais, consigam ter atos antidemocráticos. Se essas cortes estão expostas politicamente, sendo alvo de críticas muitas vezes pertinentes por conta dessas dinâmicas de enriquecimento, isso contrasta com o papel civilizatório que elas são instadas a cumprir. É algo muito perigoso”, alerta.
A proteção da Câmara às bets e o papel do Legislativo
Goulart comentou a votação do PL antifacção na Câmara, que retomou pontos que o governo havia conseguido derrubar no Senado, como a taxação das casas de apostas (bets) para financiar o combate ao crime organizado.
“A gente vê duas dinâmicas: o Supremo condenando criminosos, tentando evitar os penduricalhos, cumprindo seu papel constitucional; e o Legislativo se autoprotegendo, solipsista, olhando só para si mesmo, alheio às demandas da sociedade”, destaca.
Ela alerta para o risco do foco excessivo da mídia no Judiciário: “A gente tem que ficar muito atento quando a mídia tradicional fica muito focada no judiciário, nessa cruzada contra o Supremo, e deixa de colocar atenção nessa política pouco preocupada com a sociedade, com o eleitor, muito ensimesmada no legislativo.”
Sobre a proteção às bets, Goulart é direta. “No caso da esquerda, temos muitas vezes esses legisladores atuando em causa própria, porque são alvos de lobbies multimilionários. Eles se beneficiam financeiramente com a proteção dessas bets.”
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