Cenário é de guerra regional após morte de líder supremo do Irã, aponta analista internacional

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Enquanto delegações iranianas e estadunidenses negociavam em Genebra — com uma nova rodada prevista para Viena — Estados Unidos e Israel desferiram um golpe mortal que resultou no assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. O episódio, que o governo iraniano classificou como “declaração de guerra contra os muçulmanos”, expõe um padrão que já havia sido testado em Gaza, no Líbano e na Venezuela.

“Esse ataque é muito parecido com o que vimos desde 7 de outubro de 2023 em Gaza, e com a ação coordenada dos Estados Unidos e Israel contra a liderança do Hezbollah no Líbano. Eles atingiram justamente no momento da reunião, numa profundidade grande, vários metros abaixo do chão, onde estavam reunidos. O sequestro do presidente Maduro também se enquadra nesse modus operandi”, avalia Ana Prestes, analista internacional, no Conexão BdF e Rádio Brasil de Fato.

Para a analista, Gaza funcionou como um laboratório de como a parceria de Washington e Tel Aviv “poderia desestabilizar a região, como aconteceu na Síria também”.

Prestes argumenta que já estamos diante de um conflito regional de grandes proporções. “Vários países foram atingidos. Embora sejam bases militares dos Estados Unidos no Bahrein, no Kuwait, nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita, na Jordânia, são focos de tentativa de resposta do Irã, e isso cria uma guerra regional que vem sendo montada há um tempo.”

Ela lembra que o assassinato do general Qasem Soleimani, em 3 de janeiro de 2020, já anunciava essa escalada. “Desde o primeiro mandato de Trump, com a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear, isso vem sendo montado. A operação é brutal do ponto de vista de que o líder supremo tem uma dimensão política e religiosa.”

A analista explica a importância de Khamenei para além da política, já que após a Revolução de 1979, houve uma preponderância deste grupo, que tem dirigido o Irã desde então. “Há uma conotação religiosa importante, significativa. Ataca algo que vai no âmago da religiosidade, da espiritualidade das pessoas. Por isso vemos mobilizações grandes no Irã e no Bahrein, onde há uma maioria xiita — para quem Khamenei era mais que um líder político, era também um líder espiritual.”

“O objetivo central é uma intimidação, um chamamento até para briga com a China. Eles estão dando vários recados nos últimos meses. A estratégia de segurança nacional deles fecha o hemisfério como nosso — as Américas todas, de cima abaixo. Isso implica domínio dos recursos: petróleo, combustível, terras raras, lítio, questão logística”, observa.

Ela lembra que a República Islâmica faz parte de uma tríade, com Rússia e China, que ameaça a hegemonia estadunidense. “O Irã está num dos braços do Cinturão e Rota. Tem uma ferrovia que liga a China à Eurásia. É membro dos Brics.”

A influência de Netanyahu e o paradoxo na base de Trump

Prestes aponta a influência do sionismo na decisão do líder da Casa Branca. “Há um paradoxo: ele age contrariando parte da sua base. Parte do eleitorado Maga (Faça a América Grande de Novo, na sigla em inglês) é contrária a novas guerras — ele foi eleito com a promessa de encerrar guerras, não de iniciá-las.”

Ela sugere que o lobby sionista tem ganhado essa batalha interna. “Inclusive com promessas eleitorais para Trump, que quer subverter a legislação para tentar um terceiro mandato e vai enfrentar as eleições de meio de mandato em novembro. Isso compõe o conjunto de fatores que fez com que eles detonassem essa operação na manhã de sábado, sem declaração de guerra.”

Sobre o anúncio da Guarda Revolucionária de que atingiu o gabinete de Netanyahu, Prestes é direta. “Dimensão de uma guerra sem fim. Uma guerra de grandes proporções, em que o Irã tem, inclusive amparado pela ONU (Organização das Nações Unidas), o direito de se defender e contra-atacar. É uma elevação do nível de beligerância por parte de Israel e dos Estados Unidos.”

Ela observa que Netanyahu precisa desse estado de beligerância. “Precisa mostrar para sua própria população que está em risco, que o gabinete está em risco. Isso vai servir de argumento para aprofundar o sentido de manutenção dessa guerra.”

Para ouvir e assistir

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