Centro de SP guarda memória dos desfiles do Carnaval paulistano

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Antes da inauguração do grandioso Sambódromo do Anhembi, em 1991, o Carnaval paulistano desfilava com relativa simplicidade pelo coração da cidade de São Paulo (SP). Entre as avenidas São João, Duque de Caxias e Tiradentes, o asfalto do centro guardou, por décadas, a memória de uma festa construída por comunidades negras que vinham das periferias para ocupar o espaço público com batuques, cordões e escolas ainda em formação.

A lembrança está presente no relato de Maria Helena da Silva Britoa embaixatriz do samba paulista. Ela lembra que, antes das arquibancadas, o público acompanhava o desfile sentado no asfalto, segurando as cordas que delimitavam a pista, numa relação intimista com a festa.

“O legal é que você vinha para assistir, você estava mais próximo da escola, você via passar por você o carro alegórico, que também era um carro alegórico simples”, recorda.

Maria começou sua trajetória no samba ainda na década de 1960, no território da Vila Brasilândia, na zona norte da capital paulista, onde o aprendizado da cultura africana era compartilhado pela convivência com a comunidade do bairro e pela ancestralidade.

“O sambista de verdade, o raiz, ele tem pertencimento a um território, a um espaço, a um lugar. E a gente não descobre, a gente nasce. Na verdade, a gente não escolhe ser sambista, é o samba que nos escolhe”, afirma, emocionada, Maria Helena.

A entrada no universo do samba ocorreu entre “batuques e batucadas”, como ela diz, em um bairro formado majoritariamente por pessoas negras que buscavam no território um espaço de acolhimento e resistência cultural.

Ela recorda que, na Brasilândia, as manifestações de matriz africana eram frequentes, com rezas e festas que culminaram em batuques e no compartilhamento de alimentos.

Antes da fundação formal de agremiações locais, como a Rosas de Ouro, que nasceu ali, diante dos seus olhos, os moradores se organizavam em grupos que mantinham a cultura viva nos terreiros das casas. “A gente não tinha uma escola de samba formada, mas tinha esse agrupamento de todas essas pessoas, então tinha um espaço num terreiro de uma casa onde se fazia essa batucada”, detalha.

O senso de comunidade foi o que motivou os sambistas a buscarem o centro da cidade de São Paulo durante o Carnaval. Maria Helena explica que o deslocamento para o centro ocorria porque era lá que o carnaval da cidade estava concentrado, unindo diferentes grupos que vinham das periferias.

“E nessa época, que ainda não era escola, na década de 1960, entre 1968 e 1969, essas pessoas também com essa batucada saíam de lá da Brasilândia, vindo para o centro da cidade onde aconteciam os desfiles, antes eram de cordão, depois escolas.”

Maria Helena da Silva Brito, a embaixatriz do samba paulista | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Segundo ela, a presença dos negros e consequentemente do samba no centro de São Paulo vinha dos trabalhadores. Engraxates utilizavam seus instrumentos de trabalho para fazer música entre uma parada e outra no trabalho.

“Muitos desses sambistas vão ser engraxates na praça da Sé, porque, na verdade, eles não conseguiam trabalho, isso era uma política mesmo de Estado. E esses sambistas, na hora do seu intervalo, eles faziam o seu batuque na própria caixa de sapato.”

Ela também menciona a figura de Toniquinho Batuqueiro, que levava latas de óleo para a praça da Sé para ensinar as crianças a batucar e compor. “Ele tinha o hábito de pegar aquelas latas de óleo de 20 litros vazias, ele colocava numa Kombi que ele tinha, bem usada, antiga, levava até a praça da Sé e ali ele ensinava as crianças a batucar e a compor”, se recorda.

Capa do álbum de Toniquinho Batuqueiro. Créditos: Rui Mendes
Capa do álbum de Toniquinho Batuqueiro | Crédito: Rui Mendes

O asfalto do centro: simplicidade e afeto

Os desfiles no centro de São Paulo passaram a ser realizados entre as décadas de 1960 e 1990. Os eventos guardam uma carga emocional definida pela proximidade e pelo caráter intimista das apresentações.

Maria Helena se recorda que as pessoas lotavam os pontos de ônibus na Brasilândia para ver as escolas em endereços como a avenida São João e a Duque de Caxias. “Era uma coisa muito diferente de hoje em dia, a comunidade era muito próxima, muito junto, era uma coisa muito íntima”, descreve a embaixatriz. A estética da época era marcada pelo uso de elementos simples, mas de muito valor simbólico para os participantes.

Desfile de escola de samba no centro da capital paulista, na década de 1970 | Crédito: Coleção Carnaval Paulistano / Acervo MIS

A tecnologia era secundária diante da emoção da festa. Maria Helena descreve as fantasias daquela época. “As fantasias eram simples, eram fantasias feitas de cetim, um chapéu feito de papelão, outros enfeites de papel de seda, de papel brilhoso, coisas simples, mas de uma riqueza tão grande que aquilo ficou guardado na nossa memória”, conta.

Historicamente, a ocupação do centro pelas escolas de samba foi marcada por uma transição dos cordões carnavalescos para o formato de escolas, impulsionada pela regulamentação do município.

Em 1967, a gestão de José Vicente Faria Lima estabeleceu a Lei nº 7.100/67, que transferiu os desfiles oficialmente para a avenida São João. Dez anos depois, em 1977, a passarela foi movida para a avenida Tiradentes, onde a pista de 732 metros exigiu novas adaptações das agremiações até a mudança definitiva para o Anhembi em 1991.

O sociólogo Tadeu Kaçula argumenta que a remoção do carnaval do centro não foi apenas uma questão logística, mas o resultado de transformações urbanas, políticas e sociais profundas.

Desfile de escola de samba no centro de SP. Créditos: Coleção Carnaval Paulistano / Acervo MIS

Ele explica que o centro era um território de convivência onde a população negra encontrava no samba uma forma de afirmação cultural e visibilidade política. “A retirada dos desfiles das escolas de samba do centro de São Paulo é resultado de um conjunto de transformações sociais, urbanas e políticas que alteraram profundamente o significado e o uso desse espaço ao longo do século 20”, analisa Kaçula.

Segundo o sociólogo, o processo de industrialização e financeirização da cidade transformou o centro em um espaço voltado exclusivamente para atividades administrativas e comerciais, tornando as práticas populares indesejadas.

“O carnaval de rua, marcado pela ocupação prolongada do espaço público, pelo barulho e pela presença massiva de corpos negros e trabalhadores, passou a ser interpretado como desordem e problema urbano”, afirma.

Para Kaçula, a criação do Sambódromo do Anhembi materializa uma lógica de controle. “Retira-o do espaço central e o transfere para um local específico, cercado e regulado, onde a festa pode ser controlada, comercializada e transformada em espetáculo”. Essa mudança geográfica representou, em sua visão, uma perda de centralidade política e a reprodução de uma segregação racial e social já presente na estrutura de São Paulo.

Nesse sentido, Maria Helena se recorda também que as manifestações culturais de matriz africana sofriam perseguição oficial sob o pretexto de falta de ordem.

“Todas essas manifestações que já aconteciam elas sofriam uma certa repulsa e perseguição do poder público, porque diziam que era uma coisa desordenada, precisava colocar, por exemplo, uma ordem nisso, colocar alguns regimentos, alguma coisa”, relata.

Hegemonia do samba e memória institucional (1967-1991)

Patricia Lira, coordenadora do Centro de Memória e Informação do MIS (Cemis)aponta que os registros históricos indicam uma mudança clara na interação social da festa a partir da segunda metade da década de 1970.

Segundo Lira, até 1960 o público permanecia integrado às agremiações, mas a transferência para a Avenida Tiradentes marcou “o início do distanciamento dos espectadores, alocados em arquibancadas”.

A preservação dessa memória é garantida por projetos de história oral iniciados nos anos 1970, que colheram depoimentos de figuras fundamentais como Geraldo Filme, Madrinha Eunice, Dona Sinhá e Seu Nenê.

O período entre a oficialização, em 1967, e a inauguração do Anhembi, em 1991, consolidou um sistema de competição que alternou hegemonias entre agremiações. Na década de 1960, a Nenê de Vila Matilde registrou um tricampeonato entre 1968 e 1970. Nos anos 1970, a Mocidade Alegre foi campeã em 1971, 1972 e 1973, seguida por um tetracampeonato da Camisa Verde e Branco entre 1974 e 1977. Em 1978, a Vai-Vai obteve seu primeiro título como escola de samba.

Desfile no Vale do Anhagabaú em 1969. Créditos: Coleção Carnaval Paulistano / Acervo MIS
Desfile no Vale do Anhagabaú em 1969 | Crédito: Coleção Carnaval Paulistano / Acervo MIS

Na década de 1980, novos campeões surgiram, como a Sociedade Rosas de Ouro em 1983 e 1984, e o retorno da Nenê de Vila Matilde ao topo em 1985. A Vai-Vai dominou o final da década com vitórias em 1986, 1987 e 1988.

O encerramento da fase na Avenida Tiradentes ocorreu em 1990 com um empate entre Camisa Verde e Branco e Rosas de Ouro. Em 1991, na inauguração do Sambódromo do Anhembi, a Camisa Verde e Branco foi a vencedora, marcando o início de uma nova etapa para o carnaval paulistano.

Maria Helena descreve a mudança das escolas de samba de espaços comunitários para novas estruturas geridas por empresas. “Há essa transformação, essa mudança, que hoje em dia as escolas de samba, esse desfile, essa apresentação, ela se torna uma grande indústria, uma grande empresa, uma indústria do carnaval. A gente tem fundamentos a serem respeitados, a serem seguidos, que hoje as pessoas estão desprezando, e isso é muito ruim, essa mudança, ela terminou afastando muito a comunidade, ela começa a ficar para trás, e esses ensinamentos vão ficando.”

Ela contrasta a riqueza cultural de antigamente com a “pobreza” da época, defendendo que o valor real não estava no luxo, ou nas marcas. “A gente percebe, hoje mesmo, quando você assiste uma gravação antiga, você vai olhar, você fala: ‘nossa, mas era muito pobre, mas para quem viveu, ele sabe a riqueza que aquilo tinha”, finaliza.

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