‘Cheiro de ditadura na democracia’, dizem diretoras de filme sobre ocupação militar de favelas

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Na semana que marca o aniversário de 62 anos do golpe militar no Brasil, chega ao cinema nacional o documentário Cheiro de Diesel, dirigido pela cineasta Natasha Neri e pela jornalista Gizele Martins.

O lançamento do filme também marca os 12 anos da invasão das Forças Armadas no Complexo da Maré, iniciada em abril de 2014, onde Martins nasceu, cresceu e vivenciou de perto a violência do poder militar nas periferias brasileiras. 

Ao Conversa Bem Viver, as diretoras da produção discutem a importância de revelar, por meio do audiovisual, como existe “cheiro da ditadura na democracia” do país ainda nos dias de hoje. 

“Pensar a reparação também é pensar a reparação territorial. Os moradores de favelas — ontem escravizados, hoje moradores de favelas — sofrem terrorismo de Estado diariamente. Temos helicópteros e “caveirões” atirando na gente ainda hoje. Temos operações policiais com uma ideia de combate ao tráfico de drogas que coloca a favela como inimiga. Nós não somos inimigos da sociedade nem da nação. Nós somos parte, nós somos a solução”, destaca Martins. 

Já reconhecido pela crítica, o filme, que registra os traumas deixados pela ocupação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelas Forças Armadas entre os anos de 2014 e 2018, recebeu os prêmios do júri e de melhor documentário pelo voto popular no Festival do Rio. 

“Quando fomos construir o roteiro do filme, queríamos não só denunciar as violências, pautar os efeitos da militarização nas favelas, a censura dos comunicadores comunitários e a ilegalidade do uso da justiça militar (que deveria ser proibida para julgar esses casos), mas também queríamos trazer um pouco da sensorialidade e transportar o espectador para aquele processo de militarização ao vivo”, chama a atenção Neri. 

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: Como começou a parceria de vocês duas? De onde veio essa iniciativa?

Natasha Neri: Nós acompanhamos, infelizmente, as diversas ocupações das Forças Armadas em lugares diferentes. Eu sou pesquisadora na área de justiça criminal e direitos humanos. Vivi a operação e ocupação das Forças Armadas na Maré quando eu era professora, em 2014, na Nova Holanda, em um projeto de cinema. Vi diretamente os impactos daquela ocupação com mais de 2 mil homens e o impacto para a juventude, para os meus alunos que tinham de 12 a 18 anos. O quanto aquela militarização estava afetando os jovens.

Eu e Gizele nos conhecemos, na prática, fazendo campanha contra as operações policiais. Mas eu digo que já conhecia a Gisele desde muito antes, sobretudo em 2014, quando ela se tornou uma grande voz que denunciou, na mídia nacional e internacional, a militarização que estava acontecendo com a ocupação da Maré por conta da Copa do Mundo.

Nós nos encontramos em uma campanha e nos aproximamos mais. Já nos conhecíamos da militância, mas passamos a fazer reuniões semanais em uma campanha contra as operações policiais e o “caveirão” em 2017. Essa campanha continuou em 2018, tornando-se a campanha “Intervenção Não”. Essa campanha congregava os militantes de favelas e organizações de direitos humanos que estavam muito preocupados com a decretação da intervenção federal em fevereiro de 2018.

O filme nasce dessa intersecção entre o nosso trabalho, a nossa militância e os nossos lugares de atuação com as vítimas diretas da militarização. Eu vinha fazendo pesquisa sobre tortura e sobre homicídios praticados por agentes do Estado e conheço, por exemplo, a Irone, a partir da chegada dela no movimento de mães.

Irone é a mãe do Vitor Santiago, que foi baleado por um soldado do exército na Maré. Conheço também a Edrilene, que viu o filho Lorran ser assassinado pelas Forças Armadas em 2017; ela também se junta ao movimento de mães. Acompanhei, desde 2018, o dia seguinte ao caso da “sala vermelha”, que é um caso de tortura bárbara que aconteceu dentro do Batalhão de Deodoro, no Rio de Janeiro, com 11 jovens torturados.

Eu estava fazendo pesquisa na audiência de custódia naquele momento e acompanho a luta das famílias e da Defensoria Pública para provar que eles eram inocentes, que foram torturados pelo exército e presos arbitrariamente. A partir disso, testemunhamos as violações de diferentes lugares, acompanhando as vítimas. Nós nos juntamos em 2020 e 2021 para construir esse projeto de filme, para poder trazer um pouco da memória dessas violações e levar adiante essa luta por reparação.

Gizele Martins: Complementando, eu diria que eu não tinha um celular na época, mas minha vida já era contar as violações das polícias e das operações policiais. Em 2014, vi o Exército nas minhas próprias ruas, na minha própria laje, na minha própria casa. Cobri assassinatos de amigos de infância; não tenho nenhum amigo de infância homem, negro, vivo. Tive pessoas da minha família assassinadas e duas desaparecidas dentro da minha própria favela. 

Minha adolescência já foi denunciando essas violações que ocorriam na minha casa quando invadida, na minha rua quando ocorriam — e ocorrem ainda hoje — operações policiais com o “caveirão” entrando. Depois, em 2014, com tanques de guerra. Em uma dita democracia brasileira, vivi durante um ano e quatro meses com tanques de guerra e trincheiras na minha própria favela.

Foi aí que nos encontramos na Maré. Lembro de um grande encontro que tivemos no Museu da Maré com as campanhas “Caveirão Não” e “Intervenção Não”. Dali nos conhecemos e passamos a entender os nossos lugares também no jornalismo investigativo, em uma comunicação comunitária sensível e denuncista, mas que também é de pesquisa e de uma campanha que queria ter como vitória o fim das operações policiais e o fim das intervenções.

Só que, nesses últimos anos, o que percebemos e presenciamos na Maré é que o local foi um grande laboratório para o que ocorreu em anos posteriores no Rio de Janeiro e, depois, no Brasil inteiro. Nós nos encontramos nesse lugar de denúncia, de investigação e também de reivindicação da favela como sujeito; a reivindicação de uma favela que merece e deve ter como direito a democracia que ainda não chegou às favelas do Rio de Janeiro, nem às periferias do nosso país.

O nome do filme é Cheiro de Diesel. No trailer já existem pistas de por que esse nome foi escolhido, pois fala muito do que era sentido pela população quando esses tanques invadiam as ruas. Como foi a decisão de colocar esse nome? 

Natasha Neri: Quando fomos construir o roteiro do filme — eu, Gisele e a pesquisadora Juliana Farias, que é professora da UERJ e tem muita experiência em pesquisa sobre violência de Estado — queríamos não só denunciar as violências, pautar os efeitos da militarização nas favelas, a censura dos comunicadores comunitários e a ilegalidade do uso da justiça militar (que deveria ser proibida para julgar esses casos), mas também queríamos trazer um pouco da sensorialidade e transportar o espectador para aquele processo de militarização ao vivo.

Pensamos em como trazer as camadas sensoriais, psíquicas, afetivas, do âmbito da memória e da presença dos efeitos dessa militarização hoje na vida dessas personagens. “Cheiro de Diesel” vem da fala de um dos protagonistas do filme, o Vitor Santiago, mas também apareceu em diversas outras entrevistas que fizemos. 

Remete ao cheiro que o Vitor sentiu quando estava sendo transportado dentro de um tanque, ferido, após ser baleado por soldados do exército. Esse cheiro foi sentido por todos os 140 mil moradores da Maré que tiveram tanques na porta de casa durante um ano e três meses na ocupação da GLO. É esse cheiro enjoativo, que também foi narrado pelos jovens que foram torturados dentro de Deodoro após serem levados de uma operação na Penha em 2018.

Esse enjoo, esse mal-estar, remete à sensorialidade da violência de Estado que se produz nos corpos de todas as pessoas que foram diretamente afetadas por essas operações das Forças Armadas. É o barulho do tanque e o cheiro de diesel. Tentamos trazer ao máximo essa sensorialidade.

Gizele Martins: Exato. Tentamos trazer ao máximo para que as pessoas, mesmo por uma hora e pouco, sentissem o que sentimos naquele período, que parecem relatos da ditadura militar. Se eu ouço agora a Cecília Coimbra falando sobre os tempos da ditadura, eu ouço também o Vitor. É o Vitor, a Drica, a minha avó; é a criança que naquela época sofreu com fraldas sendo revistadas e hoje é um adolescente. É um barulho de tanque e um cheiro de diesel que ainda hoje nos trazem pesadelos.

Falo nesse lugar de moradora, comunicadora, jornalista, pesquisadora e agora cineasta — o que me dá orgulho. É o trauma que nos apavora; o não conseguir dormir ainda hoje por conta desse cheiro de diesel e desses barulhos de tanque. E hoje ainda temos os barulhos dos helicópteros nas operações policiais. Ou seja, eu me pergunto: que democracia é essa?

O que vocês têm de reflexão sobre este momento em que o filme chega à história do Brasil?

Natasha Neri: Escolhemos lançar o filme no dia 2 de abril no cinema, justamente por conta da “descomemoração” do golpe militar de 1964, que aconteceu na noite de 31 de março para 1º de abril — mesma data em que o exército ocupou a Maré em 2014, há 12 anos. 

Fizemos este filme para que não se esqueça, para que não aconteça novamente, na continuidade da luta por verdade, memória e reparação que as pessoas vitimadas na ditadura tanto trouxeram à tona. Trazemos a luta dos moradores de favela que sofreram com a militarização das Forças Armadas e sofrem até hoje com operações determinadas a partir de decretos presidenciais. Basta uma canetada para que sejam enviados soldados para as favelas do Brasil.

Temos GLOs acontecendo agora no Brasil. Já tivemos mais de 50 desde a Eco-92, que foi a primeira. Estamos lançando este filme porque nenhum dos moradores de favela que foram diretamente afetados pelas violências praticadas pelas Forças Armadas na democracia recebeu reparação. 

Nenhuma investigação dos crimes cometidos teve a independência e imparcialidade necessárias para o devido processo legal. Por quê? Porque elas estão no âmbito da justiça militar. Houve mudanças na legislação nos últimos anos, sobretudo com a Lei 13.491, aprovada pelo Temer em 2017, que transferiu todos os crimes praticados pelas Forças Armadas para a justiça militar, inclusive os homicídios.

Todos os crimes praticados durante a intervenção federal e as GLOs estão na Justiça Militar. Quem faz as investigações dos inquéritos são os próprios militares; quem atua é o Ministério Público Militar. Quem permite o arquivamento dos casos é a Justiça Militar, composta por um juiz civil e quatro juízes militares.

Existem ações no Supremo Tribunal Federal julgando a constitucionalidade do uso da Justiça Militar, inclusive com a aberração de que civis acusados pelos militares possam ser julgados nela. Isso gera prisões arbitrárias e condenações ilegais até hoje; não é o foro adequado para julgar esses casos.

Estamos lançando o filme com o intuito de trazer visibilidade para esses casos e demandar a mudança na legislação brasileira, para que os casos sejam investigados e julgados na justiça comum, permitindo que as famílias tenham acesso à reparação. Também lutamos pela liberdade dos comunicadores comunitários. Esse debate sobre a liberdade de expressão é importante para nós, jornalistas de favelas ou de outros territórios ancestrais, porque ainda não se pensa em reparação para quem é vítima da censura e da autocensura desses períodos de operações policiais, que ocorrem quase todo dia no Rio de Janeiro.

Gizele Martins: Pensar a reparação também é pensar a reparação territorial. Os moradores de favelas — ontem escravizados, hoje moradores de favelas — sofrem terrorismo de Estado diariamente. Temos helicópteros e “caveirões” atirando na gente ainda hoje. Temos operações policiais com uma ideia de combate ao tráfico de drogas que coloca a favela como inimiga. Nós não somos inimigos da sociedade nem da nação. Nós somos parte, nós somos a solução.

É preciso pensar em reparação às vítimas diretas e também às favelas, que sofrem operações todos os dias.

Conversa Bem Viver

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