Chuvas extremas no Pará expõem efeitos da crise climática diante de falhas em infraestrutura urbana

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A capital do Pará, Belém, foi atingida no final de semana por chuvas extremas que deixaram a cidade debaixo d’água e mais de 5 mil famílias sem energia. Em 24 horas, o volume chegou a 150 milímetros. A prefeitura da cidade decretou estado de emergência.

As chuvas nesse período são historicamente intensas — portanto, o alto volume não poderia servir de justificativa para o colapso na cidade.

O geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), explica que Belém cresceu, assim como muitas outras cidades brasileiras, de forma desordenada. Mas há um agravante: os igarapés. “Belém tem um sistema de rios, e, junto a eles, foi se desenvolvendo um processo de ocupação sem infraestrutura adequada. Quando a gente vai olhar os indicadores, por exemplo, de drenagem urbana de Belém, mesmo de coleta e tratamento de esgoto, percebemos que estão muito aquém do que seria desejável para qualquer cidade importante. Ainda mais hoje, com a visibilidade depois da COP(30)”, afirma.

O estado sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) no final do ano passado. Ribeiro destaca que algumas obras foram feitas, mas apenas no entorno dos locais onde ocorreu o evento. “Infelizmente, a população de Belém vai ter que conviver ainda por alguns anos com esse tipo de problema, porque não são obras simples, nem baratas e nem rápidas”, avalia.

O geógrafo também critica a lógica reativa do poder público em relação às tragédias climáticas. Ribeiro aponta que, além da falta de planejamento, obras emergenciais acabam tendo custos, em um contexto geral, muito mais altos.

“Se você organizar a cidade, organizar a previsão orçamentária para pouco a pouco ir atacando o problema, certamente terá gastos menores. Até porque o investimento em infraestrutura é muito mais duradouro. Se você conseguir drenar uma área, conseguir dar uma ocupação adequada, coletar o esgoto, dar tratamento adequado, evidente que essa infraestrutura perdura por 30, 40 anos. Ao longo do tempo, ela acaba se pagando e dando mais qualidade de vida para a população”, explica.

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